Clube do livro – 10. Balzac e a Costureirinha Chinesa

Capa do livro Balzac e a Costurerinha chinesa, edição da Alfagrara. É uma capa de fundo vermelho, com flores e um perfil femininos bordados, além de caracteres chineses. Uma faixa amarela em L contém o título da obra e autor.

A reunião do clube do livro do mês de fevereiro de 2022 discutiu Balzac e a Costureirinha Chinesa, romance de Dai Sijie. Lançado originalmente em francês no ano de 1999, foi publicado no Brasil em 2007, com tradução de Véra Lucia dos Reis, pela editora Alfaguara.

No livro, o narrador e seu amigo Luo são enviados para o campo, parte de um projeto de “reeducação” de estudantes e acadêmicos durante a revolução de 1968 na China. Os jovens passam a fazer trabalhos braçais diários, vivendo uma rotina exaustiva em meio aos camponeses a quem eles desprezam. Mas eles logo conhecem a Costureirinha – filha do alfaiate, moradora da cidade vizinha, uma jovem que se destaca pela beleza. Eles compartilham com a menina as histórias que leem de romances europeus roubados de um colega, livros proibidos pelo governo. O romance de Luo e a Costureirinha e o contato com a literatura ocidental modificam a situação dos três jovens.

A Revolução Cultural

A Revolução Cultural é um tema muito recorrente na literatura chinesa traduzida no Brasil e, consequentemente, nas leituras deste clube. No caso desta obra, o tema é pano de fundo para um romance quase nostálgico sobre descobertas: da literatura ocidental, do amor, do sexo e (no caso dos meninos) da China rural, camponesa e pobre. De leitura rápida, tem boas e enxutas descrições, representando com beleza a China rural e suas duras privações. Como em outras narrativas situadas durante a Revolução Cultural, aborda temas como a ida da cidade para o interior, livros proibidos e desafios de controle de natalidade. Nesse contexto, os personagens são sujeitos “atracados” pela história, pragmaticamente lidando com as situações que se apresentam sem pensar muito, em uma relação quase fria com o mundo em que foram colocados.

Preconceito com os camponeses

Um aspecto bastante marcante da obra é a caracterização caricatural das pessoas do campo, a quem o narrador frequentemente atribui falta de refinamento e civilidade. Isso é representado também na ausência de nomes para esses personagens, identificados por suas ocupações na comunidade, o que os despersonaliza. O preconceito em relação à população campesina é um problema que persiste na China até hoje, inclusive na valorização de peles claras – já que o trabalho no campo deixa as pessoas bronzeadas. Embora Luo e o narrador tenham sido enviados ao campo para serem “reeducados”, eles se isolam ao máximo possível dos campesinos, se opondo a eles como detentores do conhecimento (especificamente eurocêntrico) e do poder. O abismo entre as culturas tem seu ápice quando os jovens tentam coletar poemas regionais de um ermitão. Para se passar por oficial do governo, um dos jovens finge conhecer apenas mandarim, língua utilizada em Pequim (centro do poder), enquanto o camponês fala a língua local, marginal. A própria atividade de coletar, registrar e analisar canções para entender um povo pode ser lida como um exercício de poder. O desprezo pela tradição popular fica claro quando os poemas coletados são considerados indignos de serem utilizados na publicação do partido.

Literatura e eurocentrismo

Esta obra é comumente celebrada como uma homenagem ao poder libertador da literatura. No entanto, os livros que os jovens acessam são romances escritos na Europa (quase todos de autores homens), com ênfase em experiências individuais. Isso levanta a questão sobre quais seriam as percepções e entendimentos dos jovens caso tivessem tido acesso a outros livros, inclusive literatura chinesa. Nesse ponto, foi lembrado que Sijie, o autor, escreveu a partir de sua própria experiência de “reeducação” durante a Revolução Cultural e que este livro só foi escrito muitos anos depois, quando ele já vivia na França. Deve-se lembrar que, apesar dessa identificação do autor com a experiência de seus personagens, Sijie revela um posicionamento crítico diante de alguns comportamentos deles, como em um episódio em que os jovens torturam com prazer o chefe da comunidade.

Também foi destacado que, apesar do papel fundamental dos livros na história, as conexões estabelecidas pelos jovens são sempre por meio de transmissões orais – a leitura dos livros para a Costureirinha, a narração de filmes para os campesinos, os poemas/canções coletados junto ao ermitão.

A Costureirinha

Durante a conversa entre os leitores do clube, foi lembrado que embora a obra foque na perspectiva dos dois jovens da cidade, o título foca em Balzac e na Costureirinha. Isso pode ser interpretado como uma chave de leitura que anteciparia o final da obra e sua conclusão. Foi pontuado que a mulher na obra de Balzac é desconhecida, fluida e impossível de fixar, de modo que a trajetória da Costureirinha poderia ser comparada à de Madame Bovary.
Embora Lou acredite estar civilizando a jovem ao ler livros para ela a fim de torná-la mais aceitável como sua parceira, a jovem parece inverter o jogo ao superar sua situação, ensinando algo a eles: que ela é livre, mais do que seria esperado de uma mulher em sua posição. A obra se encerra com a seguinte narração: “Ela me disse que Balzac fez com que compreendesse uma coisa: a beleza de uma mulher é um tesouro que não tem preço”. É possível interpretar que a frase indique que a jovem tem consciência de ser julgada pelos meninos por conta de sua beleza, mas que ela reafirma beleza em seus próprios termos. No entanto, o foco na beleza causa certo incômodo, ameaçando encolher a importância da emancipação da Costureirinha. Nesse ponto, lembramos que o livro foi escrito por um homem e é narrado através da perspectiva de outros dois homens.

Além do significado da epifania da Costureirinha, outra questão ficou em aberto ao final da discussão: qual mensagem o autor quis passar com a queima dos livros pelos meninos, considerando que em nenhum momento eles parecem ter superado seu desprezo pelos camponeses e sua cultura?

 

Obras e conteúdos relacionados:

  • (livro) Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
  • (filme) Balzac e a Costureririnha Chinesa, dirigido pelo próprio Dai Sijie
  • (livro) Yellow Earth, de John Sayles
  • (livro) Wolf Totem, de Jiang Rong
  • (podcast) Sinica: Beethoven in Beijing
  • (documentário) Canções em Pequim, dirigido por Milena de Moura Barba
  • (livro) Rhapsody in Red – How Western Classical Music Became Chinese, de Sheila Melvin
  • (podcast) Sinica: China looks to the Western classics
  • (filme) Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
  • (livro) Henfil na China: Antes da Coca-Cola, de Henfil
  • (livro) Shi Jing, diversos autores

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