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Edição 385 – Qual o impacto da Guerra do Irã para a economia chinesa?

As Duas Sessões, chegada a hora. O encontro anual da Assembleia Popular Nacional e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, conhecida como Duas Sessões, voltou a colocar Pequim no centro da política chinesa nesta semana. O evento reuniu cerca de três mil delegados para deliberar sobre o relatório anual do governo, o orçamento e novas iniciativas legislativas, funcionando como um dos principais momentos de definição da agenda política do país. Neste ano, o encontro ganhou peso adicional por inaugurar oficialmente o ciclo do 15º Plano Quinquenal (2026–2030), documento que orientará as prioridades de crescimento econômico, política industrial e desenvolvimento tecnológico da China ao longo da próxima metade da década. Entre os temas mais destacados estão a expansão das chamadas “indústrias do futuro” (IA + computação quântica, biomanufatura e energia limpa) além de esforços para fortalecer cadeias produtivas estratégicas e sustentar o crescimento em um ambiente internacional cada vez mais incerto, como é o caso da pecuária e agricultura.
As sessões também acabam funcionando como uma vitrine da política externa chinesa em um momento de intensificação das disputas geopolíticas. Em coletiva realizada durante o encontro, o chanceler Wang Yi afirmou que 2026 pode ser um “grande ano” para as relações entre China e EUA, mencionando a possibilidade de novos intercâmbios de alto nível entre Xi Jinping e Donald Trump. Ao mesmo tempo, autoridades locais já tentam se posicionar dentro do novo ciclo de planejamento. O secretário de finanças de Hong Kong, Paul Chan, descreveu o período como um “momento estratégico dourado”, defendendo que a cidade amplie sua integração ao projeto econômico nacional com iniciativas como “AI+” e “Finance+”. No conjunto, as duas sessões oferecem uma das primeiras leituras de como Pequim pretende equilibrar crescimento econômico, inovação tecnológica e competição estratégica com os Estados Unidos nos próximos anos.
Rehab com propaganda grátis. O governo de Hong Kong está organizando um programa “turístico” para cidadãos presos em protestos. De acordo com as autoridades locais, a inclusão do tour tem como objetivo prover “conhecimento sobre assuntos domésticos, testemunhar os mais recentes desenvolvimentos nacionais e enriquecê-los com conhecimento sobre a cultura e o sentimento de identidade nacional chinesa”. Reportagem do Hong Kong Free Press, uma primeira viagem foi realizada em fevereiro e incluiu 14 jovens em processo de reabilitação. O destino foi a cidade de Foshan, próxima à Hong Kong, e incluiu um hall que homenageia revolucionários do Partido Comunista Chinês, conversas com estudantes locais e visitas a um hospital de medicina tradicional chinesa. Zhuhai, outra cidade da região, entrou no roteiro para que os jovens conhecessem um centro espacial e uma fábrica de aviões. Diante das críticas de lavagem cerebral, as autoridades argumentam que trata-se de um programa “voluntário”.

Só se fala na guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. E na China isso não poderia ser diferente. Na bolsa de apostas de analistas sobre o que a nova disruptura do Oriente Médio pode causar à economia chinesa, há quem diga que o país asiático tem como se manter energeticamente suficiente mesmo com o fechamento do Estreito de Ormuz, há quem fale sobre perdas. Para o governo, é claro, ver os Estados Unidos agindo militarmente contra um inimigo e, principalmente, matando seu principal líder, é preocupante. Isso ficou claro na fala de Wang Yi, que diz que esse conflito jamais deveria ter acontecido. Mas trazemos aqui também um levantamento do Whats On Weibo sobre como o assunto tem sido comentado por lá, seja na imprensa oficial, seja pelos internautas. A The Economist mostra a diferença com que a imprensa local e estatal cobriu os protestos anti regime em dezembro, com extremo cuidado e evitando que o assunto fosse de amplo conhecimento e como isso se deu agora: ao vivo e com detalhes claros, indicando que Pequim vê como muito grave uma intervenção estrangeira para a retirada de um líder.
Mais uma semana conturbada nas relações entre China e Reino Unido. Na última quarta-feira (4), o governo britânico deteve três assessores políticos suspeitos de realizarem espionagem para um governo estrangeiro, em violação ao ato legislativo de segurança nacional britânico; entre eles, o marido da deputada Joani Reid – agora afastada do cargo, após declarar nunca ter ido à China ou se envolvido com questões relativas a esse país. Os assessores receberam liberdade provisória até maio. Ainda nesta semana, uma mulher londrina foi condenada em Hong Kong. Em fevereiro de 2024, Isabel Rose denunciou à polícia local um compatriota que a teria estuprado e oferecido dinheiro em troca de seu silêncio. Na semana seguinte à denúncia, o homem foi libertado pela polícia e a denunciante detida. Após dois anos aguardando o julgamento do processo sem poder deixar o território, Rose foi condenada por extorsão e obstrução da justiça e aguarda sua sentença, que pode chegar a 7 anos de prisão, para o final de julho; o homem segue em liberdade. O caso foi acompanhado pela mídia britânica e uma ONG londrina que apoia mulheres negras e caribenhas vítimas de violência doméstica e sexual exigiu o envolvimento do governo britânico.

Vintage. Um pequeno mercado dominical em Shanghai está atraindo uma geração que cresceu quase inteiramente dentro do universo digital. O Fu You Tao Bao Mall, que funciona como um mercado de antiguidades improvisado, reúne objetos, livros usados, contas de oração, pinturas em tinta tradicional e até fotografias de famílias desconhecidas. Nos últimos meses o espaço passou a receber um público maior de jovens que montam suas próprias bancas ou circulam entre os vendedores mais antigos em busca de tesouros perdidos das gerações passadas. O fenômeno dialoga com tendências mais amplas entre a juventude urbana chinesa, como a recente onda 复古热 (fugu re ou retro fever), o interesse por objetos analógicos e a busca por estilos de vida mais lentos associados à ideia de 慢生活 (man shenghuo, slow life). Em uma economia cultural dominada por algoritmos de recomendação, live commerce e plataformas digitais, esses mercados tem oferecido algo raro, uma forma de nostalgia material em uma cidade que perdeu grande parte de sua memória urbana ao longo das últimas décadas de reconstrução acelerada.
Não esquecemos da corrupção. Bem às vésperas das Duas Sessões, a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CPPCC) votou pela remoção de três generais aposentados de suas fileiras, poucos dias depois de a Assembleia Popular Nacional (APN) também ter expulsado 19 delegados, incluindo nove militares. Embora os motivos das remoções não tenham sido divulgados, as medidas se inserem em uma campanha anticorrupção mais ampla conduzida por Xi Jinping que, nos últimos anos, passou a atingir com maior intensidade setores das Forças Armadas chinesas.
Entre diplomas e bicos: Uma nova reportagem na China chama atenção para o crescimento do chamado flexible employment, termo cada vez mais usado para descrever a expansão do trabalho temporário e por tarefas, conhecido globalmente como gig economy, entre jovens recém-formados. O caso de Li Yun ilustra bem essa realidade; formada em educação e literatura em 2025, ela atualmente passa os fins de semana trabalhando em um centro infantil de simulação de carreiras, interpretando profissões como dentista ou comissária de bordo por cerca de 100 yuans (cerca de R$ 75) por dia. Já comentamos em edições anteriores sobre como a transição da universidade para o mercado de trabalho na China tem se tornado cada vez menos linear, com jovens alternando entre estágios, plataformas digitais e ocupações temporárias enquanto aguardam oportunidades mais estáveis. Estimativas oficiais indicam que mais de 200 milhões de chineses já participam de algum tipo de emprego flexível, que inclui desde entregadores e motoristas de aplicativo até freelances e trabalhos ocasionais.

Cavalo: no ano do cavalo, cabe perguntar se esses animais são nativos da China ou vieram de outro lugar. Para desvendar este “mistério”, deixamos esta reportagem do Sixth Tone.
Identidade: a revista Made in China traz uma edição que coloca a questão queer como uma lente para entender a política, cultura e a vida cotidiana da China contemporânea. Passe um bom café e boa leitura!
Plim plim chinês: depois de anos com pouca (ou quase nenhuma) cobertura da China sob olhos e ouvidos de correspondentes brasileiros, parece que a imprensa brasileira decidiu mudar isso. Além de O Globo e Folha, a TV Globo agora terá um correspondente no gigante asiático e, nesta coluna, Igor Patrick conta por quê isso é uma boa notícia para o Brasil.
Dia Internacional da Mulher: para não dizer que falamos de flores, trouxemos essa história do Radii China, de como um grupo formado 100% por mulheres está revolucionando a indústria de reparos na China.
O Radii preparou este vídeo sobre como a pimenta tomou conta da comida chinesa. Spoiler: tem a ver com o as grandes navegações, com colonização e as Américas
