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Edição 388 – Como a guerra do Irã afeta o mercado de combustíveis na China?

Pensando nos velhinhos. O desafio do envelhecimento da população tem sido algo que não sai da cabeça do governo chinês. Por causa disso, foi anunciada a criação de um sistema nacional de seguro de cuidados de longo prazo, que deve oferecer apoio financeiro e serviços básicos de assistência para idosos e pessoas com deficiência prolongada. A medida, formalizada pelo Conselho de Estado, busca aliviar a pressão sobre famílias, tradicionalmente responsáveis pelo cuidado, e fortalecer a rede de proteção social em um cenário em que o país pode chegar a 400 milhões de pessoas acima de 60 anos até 2035. Encarar o envelhecimento como uma questão de Estado significa colocar em jogo todo um sistema financeiro que é sustentado pelas contribuições de trabalhadores, empresas e subsídios públicos.
Startups de uma pessoa só são a resposta de diversas cidades chinesas para um conjunto de problemas: o desemprego no setor de tecnologia causado pela inteligência artificial, prédios e tecnologias ociosos e a dificuldade em desenvolver talentos usuários dessa solução. Como conta a Rest of World, cidades como Suzhou, Shanghai, Shenzhen, Zhejiang e Hangzhou oferecem programas com subsídios para computação, aluguel de escritórios e até mesmo moradia – tudo isso para empresas iniciantes compostas de uma ou, no máximo, três pessoas. Como já contamos por aqui, o governo chinês vêm colocando a tecnologia no centro dos planos econômicos e educacionais do país, enquanto o desemprego entre jovens aumenta; resta observar como empresas de uma pessoa só vão contribuir para a prosperidade comum.
O campo na era da tecnologia. Falando mais um pouco sobre o 16º Plano Quinquenal, o documento tem direcionado uma atenção importante para o tema da transição e modernização do uso da terra. A China Policy fez uma análise ampla sobre como, nas últimas décadas, a política agrícola chinesa operava muito no modo “apagar incêndio” e, nos próximos 5, anos Pequim quer sair do improviso e entrar de vez na lógica de modernização sistêmica do campo. O novo ciclo coloca no centro as chamadas “novas forças produtivas de qualidade” (basicamente uso de IA), drones, biomanufatura e automação, não mais como promessa, mas como ferramenta concreta de produção. Mas não estamos falando apenas de tecnologia hard, mas também de desenvolvimento social com ações aplicadas em temas como renda rural, uso da terra e demografia, que passam a ser tratados juntos, numa tentativa de evitar os trade-offs clássicos entre produtividade, sustentabilidade e renda dos agricultores. O movimento também revela uma mudança mais silenciosa, onde o campo dentro da economia chinesa passa a ser menos um setor completamente subsidiado e mais como parte ativa de uma engrenagem que conecta produção, inovação e consumo, ainda sob forte coordenação estatal, mas cada vez mais orientada por eficiência e integração de mercado.

Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, não faltam análises e especulações sobre como a China fica com isso. Passado um mês desde o início do conflito, é possível dizer que o país asiático se mantém atento e cauteloso. Na semana passada, Pequim decidiu voltar atrás na alta de preços de combustíveis, evitando repassar ao consumidor doméstico o custo elevado de produtos derivados do petróleo. O Signification traz uma análise mais detalhada sobre como o comando político chinês tem tentado dosar o posicionamento de Pequim diante do conflito. E por falar em conflito, o South China Morning Post mostra que Pequim decidiu socorrer Havana, que passa por uma forte restrição energética. Vale lembrar que nas muitas declarações que Donald Trump tem disparado quase que diariamente, Cuba consta na lista de próximo a país em que ele quer se meter.
Oceano como campo de batalha. Enquanto muito se fala no avanço técnico científico e climático, Pequim também tem concentrado esforços significativos nos seus mapas do mar. Uma matéria da Reuters mostra que dezenas de embarcações chinesas vêm realizando um mapeamento sistemático do fundo do mar em regiões estratégicas do Pacífico ao Índico e até o Ártico, coletando dados que podem ser decisivos em operações submarinas. Segundo comunicados oficiais, tratam-se de pesquisas oceanográficas; outros especialistas apontam que essas informações sobre as águas profundas são essenciais para navegação, ocultação e detecção de submarinos em caso de conflito – os levantamentos se concentram em áreas sensíveis como Guam, o estreito de Malaca e a chamada “Primeira Cadeia de Ilhas”, pontos-chave em um eventual confronto com os Estados Unidos. No fundo, talvez não seja só sobre o oceano e sim sobre quem conhece melhor esse terreno invisível pouco explorado.

Variedade é o tempero da vida e da repressão promovida pelo estado chinês. Na última sexta-feira (27), o maior sindicato de professores de Hong Kong, que chegou a representar 90% desses profissionais e que era uma parte importante da sociedade civil, anunciou seu encerramento oficial, após cinco décadas de operação; os motivos são os de sempre. Dias antes, na terça-feira, um livreiro da região administrativa especial e três funcionárias foram detidos sob a acusação de vender uma publicação sediciosa e violar a salvaguarda da Segurança Nacional; entre as obras apreendidas na livraria, está uma biografia de Jimmy Lai. Já na véspera, uma emenda à Lei de Segurança Nacional de 2020 deu à polícia local o direito de exigir a senha de celulares e computadores de qualquer pessoa suspeita de violar a LSN, sob penas que vão de um a três anos de cadeia e multa de 100 mil HKD (R$67 mil) a 500 mil HKD (R$335 mil). Em Macau, outra RAE chinesa, a Lei de Segurança Nacional local acaba de entrar em vigor, sob protestos da sociedade civil que ainda existe. Na mesma semana, na China continental, o advogado de direitos humanos Xie Yang foi condenado a cinco anos de prisão por “subversão do poder estatal”; segundo críticos à condenação, o julgamento não seguiu o devido processo.
Depois dos carros elétricos, a moda. Numa jogada de rebranding, marcas de moda chinesas têm investido pesado no mercado Ocidental. O Semafor conta como a expansão para países europeus e os Estados Unidos tenta fazer com que as fabricantes de roupas ganhem nova reputação para além da ideia de produção em massa e barata de peças de vestuário feitas no país asiático. Exemplos dessa expansão são a chegada da Anta Sports nos Estados Unidos em fevereiro deste ano, e da Urban Revivo em Londres e Nova York no ano passado. O Semafor menciona ainda a presença de marcas chinesas em semanas de moda de Paris e Milão.

Literatura: o Words Without Borders publicou um texto sobre o que tem sido produzido em matéria de ficção em Hong Kong após 2019. Ainda que o tema seja ficção, a produção literária está intimamente ligada com a realidade e a deterioração democrática na ilha.
Comunicado: o governo federal brasileiro anunciou que 2026 será o Ano Cultural Brasil-China. Ao longo do ano, serão realizadas atividades de diversas áreas das artes e da cultura para promover o conhecimento mútuo. Na Folha, o jornalista Igor Patrick escreveu sobre o anúncio e sobre a necessidade de equilíbrio.
O Islã na China: em linha com a nova lei de “unicidade étnica” aprovada na China, tema sobre o qual falamos recentemente, recomendamos este podcast do Made In China sobre como é ser muçulmano em solo chinês.
Neste vídeo do South China Morning Post, a chef Marina de Senna Fernandes e o professor Ahmed Abdel Fattah discutem (e degustam) a tradicional cozinha macaense, refletindo brevemente sobre os desafios de manter essa tradição culinária herdeira de Portugal e China.
