Fotografia em cores de um container verde claro com a palavra China escrita em destaque e alguns caracteres chineses.

Foto de Zalfa Imani via Unsplash.

Edição 380 – Economia e demografia frustram esforços governamentais

Política e economia

PIB déjà vu e população em declínio. O ano começou com a confirmação de que o PIB chinês bateu a meta oficial de crescimento de 6% no último semestre de 2025, um número que à primeira vista parece cumprir com o que prometeu. O dado, no entanto, circula acompanhado de um sentimento difuso de piora na qualidade de vida, enquanto análises iniciais indicam que o fôlego veio mais de exportações combinadas a estímulos estatais do que da almejada retomada do consumo interno – apesar do foco do governo. Se essa sequência de frases te parece familiar, é porque o cenário é exatamente o mesmo que há 12 meses – sério, pode conferir aqui –, quando o índice atingiu a meta de 5%. Para piorar, a população chinesa encolheu pelo terceiro ano consecutivo, com uma diminuição de 1,4 milhão de pessoas em relação ao ano anterior, pressionando as expectativas de crescimento e o sistema previdenciário. Iniciativas locais, como incentivos financeiros para pais em cidades do interior, mostram criatividade, mas pouco alteram o quadro estrutural. Fora da China, o Times of India foi com o dedo direto na ferida e preferiu dizer que a população chinesa não está apenas caindo, mas “colapsando.

Retrospectiva tec. Muita coisa aconteceu na China em 2025 no campo da tecnologia – e certamente muita coisa vai seguir acontecendo na China em 2026 no campo da tecnologia. Para aquecer sua memória, vale ler a retrospectiva do ChinaTalk sobre os temas de inteligência artificial que dominaram as notícias, do “momento DeepSeek” de janeiro e o boom da robótica, à regulação para IAs generativas. Na reta final de 2025, a Administração do Ciberespaço (CAC) lançou uma proposta de regras para lidar com sistemas de IA que imitam interações com seres humanos, como chatbots. Conforme explica e analisa Jeremy Daum (do China Law Translate), as regras cobrem temas bem amplos (visto que esses sistemas hoje permeiam tantos serviços), com foco em proteção de menores e de idosos, abordando a saúde mental dos usuários. Porém, a proposta oferece desafios para a privacidade e perigo de coleta excessiva de dados – assim como acontece em outros países que discutem soluções para a identificação de crianças online

A esteira da LSN não para. A pena de Jimmy Lai ainda nem foi definida, mas já começou um novo julgamento de alta relevância sob a Lei de Segurança Nacional em Hong Kong. Há pouco mais de uma semana, o ex-empresário comparecia aos tribunais para apelar sua sentença; já na última quinta-feira (22), foram iniciadas as audiências de três ex-membros do grupo responsável por organizar as vigílias anuais que memorializavam na cidade os acontecimentos da Praça da Paz Celestial em Pequim (Tiananmen). Os réus Chow Hang-tung, Albert Ho e Lee Cheuk-yan foram acusados de incitar a subversão do poder do Estado; Ho, um ex-membro do Conselho Legislativo de Hong Kong, se declarou culpado. O caso deve ser acompanhado de perto pela mídia local e internacional, mas quem quiser testemunhar as sessões vai ter que madrugar com antecedência do lado de fora da corte – tornaram-se comuns, em casos de alta visibilidade, as pai dui dong (“gangues da fila”): grupos de pessoas que não parecem especialmente envolvidas com os casos em julgamento, mas que convenientemente ocupam assentos em que poderiam estar pessoas envolvidas com o movimento democrático local.

Internacional

Brasil como novo mundo. Para um número crescente de empresas chinesas, o Brasil deixou de ser apenas destino de commodities e projetos de infraestrutura e passou a ocupar um lugar mais central na estratégia de internacionalização. Da indústria de veículos elétricos às plataformas digitais, passando por mineração, energia e serviços, o movimento é cada vez menos experimental e mais estrutural, com investimentos em produção local, cadeias de suprimento próprias e presença operacional permanente. O país também funciona como porta de entrada para a América Latina, oferecendo escala de mercado, recursos naturais e peso político regional, uma combinação perfeita para acesso ao mercado. Mas nem tudo são rosas: operar no Brasil impõe desafios como o sistema tributário fragmentado, legislação trabalhista rígida, volatilidade cambial e exigências regulatórias e ambientais elevadas, fatores que têm empurrado empresas chinesas para estratégias mais cautelosas, com maior dependência de equipes locais e adaptação contínua de produtos e processos. 

O resultado é uma presença menos orientada ao curto prazo e mais focada em aprendizado institucional, em contraste com fases anteriores da relação bilateral. Para quem observa de fora, se antes a China vinha ao Brasil para extrair ou vender, agora vem para aprender a operar, mesmo sabendo que o mercado pode ser grande, estratégico e pouco indulgente com erros.

Vem aí a  maior embaixada chinesa na Europa. Foi aprovada nesta terça-feira (20) a construção da megaembaixada chinesa no centro de Londres. O projeto para o terreno de 20 mil m2, adquirido em 2018, já havia sido reprovado há três anos e uma nova avaliação estava pendente por receios de vizinhos e políticos com riscos de espionagem e perturbações causadas por manifestantes ao redor do terreno. No entanto, lideranças das agências de inteligência britânicas vieram a público declarar que os riscos identificados podem ser mitigados e que não seria “realista” a expectativa de eliminar “todos e cada um dos riscos potenciais”. Pequim, que ainda não se pronunciou oficialmente sobre a aprovação, aguarda para os próximos dias uma visita do primeiro-ministro britânico  Keir Starmer – a primeira viagem de um líder britânico à China desde 2018. No entanto, o caso da megaembaixada pode não ter sido encerrado totalmente: moradores do bairro pretendem contestar a decisão na justiça com o apoio de políticos da oposição. 

Somos todos admiradores do Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era (aqui apenas “o Pensamento de Xi Jinping”). Em 2025, o estatal Global Times Institute realizou mais uma edição de sua Pesquisa Global Sobre Impressões e Compreensões sobre a China. Foram entrevistados mais de 50 mil adultos de 46 países, e a maioria dos resultados é perfeitamente razoável: o mundo reconhece a força do crescimento econômico chinês (80%), a visão positiva sobre a China aumentou (de 63% em 2024 para 69%),  e 90% dos entrevistados se interessa pelo país. No entanto, a mídia nacional destacou domesticamente os “altos níveis de reconhecimento pela comunidade internacional” do Pensamento de Xi Jinping, como é possível observar neste artigo do Global Times.

Embora os dados da pesquisa não tenham sido oficialmente disponibilizados, é fácil entender o mecanismo que resultou nesse sucesso: quando 70% dos entrevistados concordaram com a afirmação “os membros do partido governante em todos os países devem ser submetidos a padrões mais elevados do que os cidadãos comuns”, considerou-se que “os conceitos e práticas de governança da China, incluindo a implementação do espírito da decisão de oito pontos da liderança central do Partido sobre a melhoria da conduta no trabalho e a formulação de planos quinquenais, recebem reconhecimento internacional”. Como conta o China Media Project, a pesquisa visa menos entender as percepções globais sobre o país do que reforçar a legitimidade de suas políticas perante a própria população.

Sociedade

IA para pressão familiar. Em meio à queda persistente nos casamentos e à ansiedade demográfica, alguns pais chineses passaram a recorrer a vídeos gerados por IA para convencer filhos solteiros a casar e gerar netos. Esses vídeos viralizaram nas redes, mostrando mulheres por volta dos 40 anos, solteiras e sem filhos, chorando em corredores de hospital e lamentando escolhas passadas, quase sempre enquadradas como “erros” de vida. Mesmo identificados como conteúdos artificiais, os vídeos circulam sob a tag de “ferramentas educativas”, sobretudo entre uma geração que ainda associa casamento e filhos a uma forma mínima de segurança na velhice. Do outro lado, jovens reagem com sarcasmo e ironia, apontando tanto o viés moralista quanto o potencial de desinformação desses conteúdos.

Um retorno constrangedor. O reaparecimento de Jiangnan Chun, um raro rolo atribuído ao pintor da dinastia Ming Qiu Ying, reacendeu um dos episódios mais sensíveis do sistema cultural chinês recente. Doado gratuitamente ao Nanjing Museum pela família Pang em 1959, o trabalho foi posteriormente classificado como falsificação, retirado do acervo e vendido a preço simbólico, apenas para ressurgir anos depois no mercado de leilões com estimativa milionária. A trama envolve avaliações apressadas, descarte de obras públicas em lote e relações pouco claras entre dirigentes de museus, lojas estatais de antiguidades e colecionadores privados, um prato cheio para o que poderia ser um roteiro da Netflix, mas que levou autoridades centrais e provinciais a abrir investigações formais. Mais do que a autenticidade da peça, o episódio expôs um ponto sensível sobre como os museus estatais administram, avaliam e eventualmente se desfazem de bens que deveriam ser preservados em nome do interesse público, e o quanto essa zona cinzenta pode corroer a confiança de doadores e do público em geral.

Zheng He

RIP, diva. Faleceu aos 93 anos, no dia 04 de janeiro, uma das primeiras fotojornalistas da China. Pioneira no seu gênero, Xiao Zhuang documentou a formação da China moderna, principalmente na sua província de Jiangsu. Ela passou boa parte das últimas décadas organizando seus negativos, diversos dos quais viraram livros.   

Análise. O físico e pesquisador da Yale Law School Yangyang Cheng explicou, em artigo para o site The Nation, Como Taiwan virou a fábrica de chips do mundo.

Porcelana. Nos últimos dias de 2025, o hospital da Universidade de  Sichuan iniciou testes de uma vacina contra a acne. 

Cinema. Em parceria com a Chanel e o M+ Museum de Hong Kong, a Mubi adicionou ao seu catálogo uma coleção especial de filmes alternativos de países da Ásia, de diferentes épocas.

 

Não são apenas as mães solo chinesas que decidiram se unir: como mostra esse vídeo do South China Morning Post, mais mulheres chinesas têm buscado espaços de convivência sem a presença de homens, onde possam viver sem as pressões sociais impostas ao seu gênero.