Foto do alto de Pequim mostra prédios no centro dos negócios da cidade ao amanhecer

Foto de Li Yang via Unsplash.

Edição 381 – Partido Comunista chinês retoma diálogo com oposição taiwanesa

Política e economia

Sabe o  meme 2016 > 2026? Chegou a hora de integrantes do Partido Comunista Chinês (PCCh) e do Kuomintang (KMT), principal partido de oposição de Taiwan, de atualizarem a foto. Depois de quase uma década, as duas partes devem se encontrar em Pequim este mês. Com isso, Taipei e Pequim retomam um fórum de diálogo político suspenso desde 2016, em meio ao agravamento das tensões no estreito de Taiwan. O encontro funciona como um canal partidário, não governamental, criado em 2006 para discutir temas de interesse comum entre os dois lados. Segundo autoridades chinesas, a agenda incluirá turismo transestreito, cooperação industrial e questões ambientais. Além de representantes partidários, especialistas e acadêmicos são esperados no encontro. Analistas ouvidos pelo South China Morning Post apontam que a retomada do fórum pode abrir caminho para um encontro de alto nível entre a liderança do KMT e o presidente Xi Jinping, o que teria forte peso simbólico em um momento de persistente tensão militar e diplomática. A iniciativa também reforça a estratégia de Pequim de manter canais alternativos de interlocução com Taiwan, contornando o atual governo da ilha, de orientação mais crítica em relação à China continental.

Privilégio exorbitante. Nesta semana, o ex-investidor Cheah Cheng Hye (já considerado o “Warren Buffett da Ásia”) fez um discurso em um fórum sobre o mercado de capitais em Hong Kong. Cheah afirmou que garantir estabilidade poderia tornar a cidade grandiosa novamente e defendeu a administração atual e seu foco em “restaurar” a lei e ordem pré-protestos de 2019. Até aí, normal: o título de seu discurso era, em tradução livre, “O privilégio exorbitante de Hong Kong: reconhecê-lo, sustentá-lo e garantir que faça sentido para a China continuar com o acordo.” Mas Cheah também propôs que a cidade deveria superar o foco atual em Segurança Nacional e realizar mudanças econômicas e sociais, apontando como solução uma reforma eleitoral baseada no sufrágio universal para eleição do cargo de chefe executivo; para que não haja equívocos, ele desenhou: o ideal seria voltar à proposta apresentada nos protestos de 2014, que a seu ver seriam uma versão “não ocidental, mas híbrida” de democracia. Mais de 300 pessoas acompanharam seu discurso, entre elas diversos representantes do governo chinês e seu órgão responsável pela aplicação da Lei de Segurança Nacional na região. Não houve até o momento nenhuma declaração do governo local ou nacional sobre as declarações do bilionário.

Lealdade antes da prontidão. A queda de Zhang Youxia, vice-presidente da Comissão Militar Central e até então um dos homens mais próximos de Xi Jinping, lançou mais incerteza sobre a liderança das Forças Armadas chinesas. Oficialmente investigado por “graves violações de disciplina e da lei”, Zhang se soma a uma longa lista de generais que caíram em sucessivas campanhas anticorrupção no último ano, mas seu caso chama a atenção pela posição central que ocupava e pela experiência de combate, rara entre a atual cúpula militar. Analistas apontaram que o episódio reforça uma mensagem já conhecida do sistema de Xi, em que a lealdade política passou a pesar mais do que a prontidão operacional. Há quem argumente que a queda de Zhang do governo sinaliza algo diferente de outros momentos da campanha anticorrupção e aponta para questões de sucessão — visto os argumentos de traição à liderança ao supostamente vazar segredos nucleares para os EUA. O efeito colateral dessa dinâmica de demissões militares tem sido uma cadeia de comando cada vez mais homogênea e menos disposta a contradizer o líder máximo, o que levanta dúvidas não apenas sobre a eficácia militar, mas também sobre o risco de erros de cálculo em temas sensíveis como Taiwan.

Internacional

Um sinal verde condicionado. Pequim deu aval para que ByteDance, Alibaba e Tencent importem mais de 400 mil chips H200 da Nvidia, encerrando semanas de incerteza regulatória em torno do componente mais avançado hoje acessível à China. A autorização, no entanto, veio com condições ainda pouco claras e reflete um equilíbrio delicado, em que ou se atende à fome imediata por poder computacional, essencial para data centers e modelos de IA, ou se compromete o objetivo de fortalecer a indústria doméstica de semicondutores. Discussões sobre cotas obrigatórias de chips nacionais e limites de adoção indicam que o sinal verde está longe de ser irrestrito. Mais do que um recuo na política de autossuficiência tecnológica, a decisão sugere uma priorização pragmática das big techs chinesas, vistas como peças-chave na competição global em IA, mesmo que isso implique conviver, ao menos por enquanto, com a dependência de hardware estrangeiro.

Quando o mercado fala mais alto que a lei. Passando pra indicar este artigo de Jiang Yifan que argumenta que o desmatamento na Amazônia não é apenas um problema ambiental ou técnico e recoloca a questão ao falar sobre a combinação entre violência, grilagem e um Estado incapaz de responder a algumas demandas básicas. O ponto mais provocador, porém, não está na denúncia, já conhecida, mas na constatação de que mudanças estruturais no uso da terra brasileira historicamente não vieram apenas das pressões domésticas, mas principalmente de choques externos de mercado. Ao mostrar como exigências chinesas aparentemente técnicas (idade do abate, padrão de qualidade) geraram ganhos de produtividade e reduziram a pressão por novas áreas, o artigo ressalta justamente esse caminho desconfortável para muitos: sem uma grande demanda internacional, como é o caso do regulamento de desmatamento da união européia (EUDR), disposta a pagar por legalidade e rastreabilidade, a engrenagem do problema seguiria girando. A aposta, portanto, não é que a China “salve” a Amazônia, mas que seus próprios interesses de segurança alimentar, estabilidade de cadeias e risco climático passem a alinhar mercado e conservação de forma mais eficaz do que décadas de promessas políticas.

Talita (pandas)> A crise política afetou a diplomacia dos pandas.  Na semana passada, cidadãos japoneses correram para se despedir de Xiao Xiao e Lei Lei, os pandas chineses que voltaram para casa deixando os fãs dos animais conhecidos como símbolo da “diplomacia fofa” chinesa. De acordo com a imprensa local, em meio a uma crise diplomática com Pequim, Tóquio não receberá novos representantes em substituição aos dois pandas que voltaram à China. A CNN explica que, embora Xiao Xiao e Lei Lei tenham nascido em solo japonês, a China permanece sendo a dona dos animais. Essa, segundo a reportagem, será a primeira vez em cinco décadas que a capital do Japão ficará sem pandas no zoológico de Ueno.

Sociedade

Queda no valor do diploma? Dados recentes indicam um aumento no número de jovens chineses que, mesmo com nota suficiente para ingressar na universidade, optam pelo ensino técnico/vocacional. Com diplomas universitários perdendo tração como passaporte automático para bons empregos, famílias e estudantes estão fazendo contas mais frias, colando na ponta da caneta questões como tempo, custo e chance real de inserção no mercado. O ensino técnico deixa de ser visto apenas como “plano B” e passa a funcionar como atalho pragmático para renda, experiência e estabilidade relativa. Não significa que o prestígio das universidades de elite tenha desaparecido, longe disso, mas indica que, fora desse topo estreito, o valor simbólico do diploma já não compensa tanto quanto antes. Num mercado de trabalho mais apertado, habilidade concreta voltou a valer mais do que status educacional abstrato.

Barro, sol, mulheres. Em Hainan, no sul da China, a etnia Li preserva uma tradição de cerâmica com cerca de 6 mil anos que nunca passou pelas mãos dos homens, literalmente. A produção do barro, a modelagem sem roda, a secagem ao sol e a queima em fogueiras abertas sempre foram práticas transmitidas exclusivamente entre mulheres, num sistema ligado a um passado matriarcal e a crenças segundo as quais a presença masculina poderia “desequilibrar” o processo. Mais do que ritual, a cerâmica era também um símbolo de autonomia, já que dominar a técnica garantia às mulheres meios próprios de subsistência em uma economia de troca. Hoje, com utensílios industriais substituindo o barro no cotidiano, o ofício deixou de ser necessidade e virou preservação cultural, reconhecida oficialmente como patrimônio imaterial desde 2006. Um “fóssil vivo”, como descrevem pesquisadores, que sobrevive menos por função prática e mais como memória material dos mais velhos e de um arranjo social que já não existe, mas ainda molda identidade.

Zheng He

Ano Novo: de acordo com o calendário lunar chinês, 2026 será o ano do cavalo. E para entender como a celebração leva em conta as superstições, memes e tendências em tempos conectados, vale ver o que tá rolando nas redes sociais nessa preparação. 

O Oscar e a China: se o nome de Chloe Zhao (nascida em Pequim) volta ao Oscar, pelo menos nas indicações. Desta vez, a diretora vencedora da estatueta com Nomadland em 2021 tem seu belíssimo Hamnet na disputa.  Qual vai ser a reação de Pequim esta vez? Há 5 anos, a vitória de Zhao não foi uma festa em terras chinesas.

Taoísmo: a revista Zolima contou a história (ou estória?) do Imperador Chun Kwan, um guerreiro, administrador e feiticeiro que viveu durante a Dinastia Song (1127–1279) e hoje é celebrado em Hong Kong com um templo decorado com neons.  

Música: o Sixth Tone fez uma matéria bem interessante (em texto e layout) sobre diversos dos músicos que moldaram a cena do jazz em Shanghai nas décadas de 1920 e 1930. Vale conferir e procurar as músicas no YouTube, como Drizzle de Li Minghui e Li Jinghui, e assistir ao vídeo curto que acompanha o texto.

 

Para quem é fã do diretor Wong Kar Wai (ou para quem está precisando de um novo diretor favorito), vale conferir o trailer de Blossoms Shanghai, a primeira série televisiva do diretor de renomados filmes como In The Mood of Love