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Edição 382 – Mudanças na relação do agro brasileiro com a China

O que significa consumo? Com os velhos motores de crescimento chinês dando sinais de cansaço, Pequim começou a tratar o consumo doméstico como o colchão amortecedor final da economia nacional, como temos comentado bastante por aqui. Segundo este texto do China Policy, durante a Conferência Central de Trabalho Econômico de 2025, realizada em dezembro, Pequim reconheceu que o problema deixou de ser produzir e sim vender. Mas esse é um problema difícil de resolver: na prática, “estimular o consumo” segue significando planejar a demanda, já que o Estado define quais setores devem absorver gastos, direciona crédito, cria subsídios e redesenha produtos; mas sem renda suficiente, não há engenharia social que sustente o consumo. Por isso, 2026 começa com um deslocamento importante – menos incentivo a bens específicos, mais planos formais para elevar renda e reduzir insegurança social, tratando salários e proteção social menos como bem-estar e mais como infraestrutura econômica.
Xi pode lidar com a corrupção; jornalistas, não. A detenção do jornalista investigativo Liu Hu e da repórter Wu Yingjiao em Sichuan no domingo passado (1) escancara, mais uma vez, os limites estreitos do jornalismo independente na China. Após publicarem no WeChat uma reportagem que escrutinava autoridades locais, ambos foram acusados de “falsas denúncias” e “operações comerciais ilegais”, categorias jurídicas amplas e frequentemente mobilizadas contra vozes incômodas fora dos canais oficiais. A reação da ong Repórteres Sem Fronteiras foi imediata, pedindo a libertação dos jornalistas e alertando para um ambiente em que investigações independentes são tratadas como ameaça política. O caso também reforça uma tensão estrutural sob Xi Jinping: enquanto o combate à corrupção é apresentado como prioridade central do Partido, qualquer tentativa de fiscalização autônoma tende a ser enquadrada como desordem, desinformação ou violação legal.

Pequim tem calibrado o agro brasileiro? O ano começou com a China limitando as importações de carne bovina brasileira por preocupação com a pressão sobre produtores locais, volatilidade de preços e dependência externa em um momento de desaceleração econômica. Desde então, Pequim tem reiterado que o objetivo não é punir parceiros específicos, mas administrar o ritmo das importações dentro de uma estratégia mais ampla de segurança alimentar e fortalecimento da produção doméstica. Sendo assim, não foi surpresa a recusa, nesta semana, do pedido brasileiro para redistribuir cotas não utilizadas por outros exportadores. Ao manter o teto anual e aplicar tarifas adicionais aos volumes excedentes, a China sinaliza (mais uma vez) que a prioridade não é maximizar a oferta externa, mas reduzir a dependência estrutural de fornecedores estrangeiros, mesmo ao custo de alguma pressão inflacionária no curto prazo.
Mas pra não falar que tudo é problema, neste domingo (8) o Brasil deve enviar sua primeira carga de DDG para a China. A abertura do mercado chinês para o DDG e o DDGS brasileiros, insumos estratégicos para a ração animal, indicam uma reconfiguração da dependência externa, (vocês ouviram isso primeiro aqui) deslocando o risco da proteína final para a base interna da cadeia produtiva. No ano passado, os pesquisadores Guilherme Campbell (nosso redator) e Ana Julia escreveram sobre a abertura do mercado chinês para DDGS, no contexto dos acordos firmados durante a visita do presidente Lula à China, vale revisitar. No fim das contas, carne e DDG fazem parte da mesma equação e a China segue disposta a comprar do Brasil, mas cada vez mais nos termos que melhor sirvam à sua lógica de planejamento industrial, agrícola e geopolítica.
Como anda a relação entre Xi Jinping e Donald Trump? Na última quarta-feira (4), os dois líderes realizaram uma ligação na qual teriam discutido o desejo dos Estados Unidos de que a China se afaste do Irã e importe mais da sua soja, e a expectativa chinesa de que Washington não se envolva na questão de Taiwan. Pequim não revelou muito sobre o que houve durante a conversa, enquanto Trump declarou em suas redes sociais que a relação entre os dois países e sua relação com Xi são “extremamente boas”. Cabe debate: nesta mesma semana, a Reuters revelou com exclusividade que o governo Trump é a barreira impedindo que a Nvidia exporte seus chips H200 para a chinesa ByteDance; embora a autorização tenha sido anunciada em dezembro, o desejo de Washington de controlar os termos de uso dos componentes coloca a Nvidia como mediadora entre os interesses do país e a empresa chinesa.

Os líderes das grandes inteligências artificiais chinesas se encontraram no começo de janeiro, quando a Universidade Tsinghua sediou um evento da Zhipu, a startup unicórnio de IA que nasceu na lá. O encontro teve como pauta IAs generativas e LLMs, reunindo empresas chinesas de tecnologia como Moonshot AI, Alibaba e Tencent – mas sem a presença do pessoal do DeepSeek, como destacou a newsletter ChinaTalk. Outras pautas foram infraestrutura e investimento, capital humano, “espírito empreendedor”, software aberto e acesso a dados, um recurso essencial para IAs generativas. A última sessão, com o professor Zhang Bo, foi a única que tocou na questão de ética e responsabilidades das máquinas, e da governança delas pelos pesquisadores e usuários – muito havia sido dito sobre a necessidade de arriscar mais para desenvolver a tecnologia, mas pouco sobre limites dos modelos de negócios. Alguns desses limites já preocupam o próprio governo que financia essas atividades: esta matéria da Rest of World relata como dezenas de empresas de dados recebem subsídios para criar centros de treinamento específicos para o avanço da robótica, onde trabalhadores realizam tarefas repetidamente para “ensinar” os robôs. O receio é que a escala cause uma bolha.
Falando em IA e ética, apesar do bloqueio ao X e ao Grok no país, a China também lida com torrentes de vídeos e fotos com deepfakes e fraude envolvendo pornografia não autorizada facilitada por ferramentas gratuitas (ou muito baratas) de IA, como conta esta matéria da Caixin. Existem regulações para restringir os usos de deepfakes desde 2022, mas a implementação não tem acompanhado a velocidade de acesso e avanço da tecnologia.

Infográfico. O New York Times publicou um infográfico interativo sobre as mudanças nas lideranças militares chinesas desde 2023, um assunto recorrente por aqui.
Ai Weiwei. Depois de uma década sem visitar seu país, o artista Ai Weiwei passou três semanas na China, no final de 2025. Ele compartilhou a experiência com a CNN.
Entrevista. O site de notícias editoriais Publishnews publicou uma entrevista com Yuan Nan, vice-presidente do maior grupo editorial chinês. Um dos assuntos foi o intercâmbio editorial entre Brasil e China
Recomendamos na semana passada e hoje destacamos aqui o vídeo da Sixth Tone sobre músicos que moldaram a cena do jazz em Shanghai nas décadas de 1920 e 1930
