Official White House Photo by Shealah Craighead - July 08, 2017
Edição 392 – Planejamento do encontro entre Xi e Trump está a todo vapor

Sem culpar a IA. O Tribunal Popular Intermediário de Hangzhou decidiu no fim de abril que empresas chinesas não podem demitir funcionários sob a justificativa de que foram substituídos por inteligência artificial. No caso analisado, Zhou, profissional de controle de qualidade em uma tech do leste do país, encarregado de checar as respostas de modelos de linguagem, foi rebaixado com corte salarial de 40% quando sua função foi automatizada, e demitido ao recusar a proposta. Para a corte, “progresso tecnológico” não é base legal para a rescisão unilateral, e a decisão reforça um precedente aberto em dezembro por outro tribunal contra uma empresa de mapeamento.
O recado, divulgado pela Fortune, vem alinhado com a prioridade do Partido Comunista de manter a estabilidade do mercado de trabalho em meio à desaceleração econômica e ao desemprego juvenil elevado, mesmo enquanto Pequim pressiona o setor tecnológico a liderar a corrida global da IA. Na prática, a régua é outra. Esta reportagem da Rest of World mostra que o Alibaba cortou 34% do quadro em 2025, o Baidu reduziu cerca de 7% e a BYD enxugou perto de 10%, números que aparecem nos relatórios anuais, mas que as empresas raramente anunciam publicamente, preferindo atribuir os cortes a pressão econômica e ao ajuste após o boom da internet, justamente para não bater de frente com o discurso oficial. Analistas argumentam que o resultado é uma demissão silenciosa, em ritmo acelerado. Ou seja, vai cortar, sim, mas sem dizer que foi a IA que mandou.
Sem notícias. Mais um ano, mais um ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Na lista de 2026, Hong Kong continua a ocupar a posição 140 entre 180 países avaliados – em 2019, antes da Lei de Segurança Nacional, a região administrativa especial ocupava o 73º lugar. A RSF destacou como ponto baixo no último ano a condenação do ex-dono do extinto Apple Daily, Jimmy Lai, que recebeu, no final de abril, o Prêmio de liberdade de expressão da alemã Deutsche Welle. O veículo local Hong Kong Free Press mantém um levantamento das ocorrências que explicam a deterioração da prática jornalística na região. A China continental aparece em 178º lugar no ranking.

Agora vai. Depois de rumores e expectativas, nesta semana, os presidentes Donald Trump e Xi Jinping se sentam para conversar – mais especificamente no dia 13 de maio. Este é o segundo encontro entre eles desde que o republicano voltou à Casa Branca. Em outubro passado, os dois chefes de Estado se reuniram na Coreia do Sul, mas num cenário muito diferente do atual. Esta é a primeira vez que o líder estadunidense vai à China desde que venceu o segundo mandato como presidente. O novo encontro entre Xi e Trump acontece num mundo marcado pela guerra do Irã, iniciada pelos Estados Unidos e Israel e que, para além da destruição e das mortes, provoca uma crise energética global. Reportagens do mundo todo colocam a pauta energética como ponto central: cerca de 13% das importações de petróleo da China vêm do Irã. Além disso, pautas clássicas nas relações entre as duas maiores economias globais devem estar à mesa: tarifas e comércio, Taiwan e acesso a minerais críticos, além de Inteligência Artificial. Trump será acompanhado por uma delegação de empresários que possivelmente inclui representantes da Meta, Boeing, Visa e o próprio Elon Musk, conta Bill Bishop. No meio de tudo isso, também se fala sobre a China exercendo algum nível de mediação no cessar-fogo para a guerra no Oriente Médio, negociação na qual já teria tido um papel em abril.

O jornalismo não pode, mas a literatura tenta responder aos tempos em Hong Kong – seja localmente ou em exílio. A edição de março-abril da revista digital de literatura traduzida para o inglês Words Without Borders foi dedicada às narrativas honconguense pós-2019. As estórias, selecionadas por duas autorias locais identificadas apenas por suas iniciais, transitam entre os grandes acontecimentos políticos da cidade na última década e seus desdobramentos nas vidas íntimas dos personagens. Esses também são os grandes temas das obras de ficção e não-ficção analisadas em um artigo de Louisa Lim na edição de maio da The New York Review; Lim caracteriza a produção deste período como “literatura do trauma”, e a conecta com obras influenciadas pela Revolução Cultural chinesa dos anos 60/70; no entanto, destaca uma diferença importante entre os dois momentos: ao contrário das obras chinesas daquele período, a literatura contemporânea de Hong Kong não contempla um futuro otimista para seus protagonistas.
Uma discussão sincera sobre queerness na China. Como é ser gay no país? Neste recente episódio do podcast de Gateway to Global China, com o professor Hongwei Bao (autor do livro Queer Comrades) e o pesquisador Darius Longarino, ambos especialistas num tema que ainda é tabu na China. A partir de uma discussão de história e cultura, como o poeta Qu Yuan, a conversa questiona o argumento de que identidades LGBSQIAP+ são uma “importação” do Ocidente, perpassa questões de legislação, saúde mental e as chamadas “terapias de conversão” e do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Especial: a revista Valor Econômico publicou em final de abril um especial sobre a China e o Brasil com várias matérias e entrevistas com especialistas.
Pequim: falando em especial, o Jornal Nacional lançou uma série sobre cidades chinesas. A que fala de Pequim também conta um pouco da história política do país – como a estreia de Felipe Santana e Lucas Louis, os dois correspondentes novos da Globo no país. A série também visitou Shanghai, Hangzhou e Cantão.
Cerâmica: uma entrevista com a ex-desenvolvedora e hoje ceramista Chang Liu e o seu trabalho.
Chilli pop: além da icônica marca de óleo apimentado Laogan Ma, Ghizou, segundo reportagem do SCMP, é onde toda a cultura dessa iguaria chinesa começou.
No ano passado, o The Guardian fez um mini documentário sobre duas mulheres chinesas com mais de 30 anos lidando com o desafio de congelar óvulos no exterior, já que a prática é proibida na China.
