Fotografia em cores de pessoas, encobertas por grama alta, segurando uma grande bandeira da China.

Foto de Q via Unsplash.

Edição 395 – Hukou: uma mudança que pode beneficiar 357 milhões de chineses

Política e economia

Discriminação contra a população LGBT+ pode finalmente ter critérios claros na China, conta a Folha. Uma suposta resposta da Suprema Corte chinesa à uma petição no começo de maio indica alguns critérios para que a discriminação contra pessoas LGBT+ seja considerada ilegal. Mais especificamente, o texto fala em discriminação e violação de direitos com base em orientação sexual, identidade de gênero e expressão de gênero – e cita o ambiente de trabalho, escolas e ambiente público (no caso de insultos, por exemplo). Contudo, como explica o Pekingnology, esse formato de resposta à petição não é formalmente uma mudança de legislação ou política, mas sim um possível entendimento. No caso, a resposta do órgão (disponível no link acima em mandarim e inglês) indicaria ao Departamento de Pesquisa da Corte para coletar e resumir casos pelo país, oferecendo uma resposta padronizada sobre o tema.

Faca de dois gumes. Pelo terceiro ano consecutivo, o Relatório Anual de Trabalho do Governo chinês menciona explicitamente a inteligência artificial, e no que diz respeito ao setor energético, a aposta é particularmente concreta: a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma estabeleceu que, até 2027, pelo menos cinco modelos de linguagem especializados estejam profundamente integrados à rede elétrica e à geração de energia. Algoritmos já são usados em Xangai, Xinjiang e Pequim para prever a produção de renováveis e otimizar a distribuição, e usinas virtuais com IA no “cérebro” devem aliviar a demanda de pico em 2026, segundo reportagem da Dialogue Earth. Os limites, contudo, são estruturais, uma vez que especialistas ouvidos pela publicação apontam que a rede chinesa é organizada para priorizar estabilidade, e não eficiência. Somam-se o apetite dos próprios data centers, estimados em 3% a 5% de todo o consumo elétrico chinês até 2030, e o fato da maioria deles ainda estar no leste, longe das fontes renováveis do oeste. Para acomodar o paradoxo, Pequim lançou em março uma política que obriga novos data centers nos hubs nacionais a extrair 80% de sua energia de fontes verdes, sinalização que, se cumprida, pode destravar novos investimentos em solar e eólica. 

Sem passaporte. O governo chinês começou a impor restrições de viagem ao exterior a profissionais de inteligência artificial considerados estratégicos para o país. Segundo reportagem da Bloomberg, pesquisadores, executivos e fundadores de startups em empresas privadas como Alibaba e DeepSeek precisam agora obter aprovação das autoridades antes de embarcar. A Reuters não conseguiu verificar a informação. Pequim há anos mantém esse tipo de controle sobre cientistas nucleares e executivos de estatais (que costumam ter os passaportes guardados pelas próprias empresas), mas a extensão da medida ao setor privado é a novidade, e a inclusão de nomes se dá menos pela hierarquia funcional e mais por uma avaliação caso a caso da “importância crítica” da pessoa para o país. A movimentação vem na esteira da disputa em torno da Manus, startup chinesa de IA cuja aquisição de US$2 bilhões pela Meta foi barrada por Pequim, com dois cofundadores impedidos de deixar o país durante a investigação. Segundo as fontes ouvidas pela Bloomberg, a nova política não está diretamente ligada ao caso, mas reforça o mesmo objetivo declarado de evitar vazamentos tecnológicos, e pode acabar dificultando o recrutamento e a retenção desse talento, empurrando engenheiros com ambição global a deixar a China mais cedo na carreira.

Internacional

Corrida de três pernas. Muito se fala em “corrida de IA” e disputas geopolíticas pelo controle da tecnologia, colocando China e Estados Unidos de forma concorrente. Porém, ao mesmo tempo em que a Huawei abertamente compete para desenvolver tecnologia contra as sanções dos EUA, o argumento de Viola Zhou neste texto para a Rest of World é que a realidade é mais complexa e ambos estão mais interligados do que parecem perceber a nível de setor privado. Ela argumenta com base nesta longa matéria sobre os pesquisadores e fundadores chineses (ou de segunda geração) que há anos estão envolvidos com o que acontece de mais importante no Vale do Silício. Entre idolatrar os mesmos ídolos (Elon Musk e Jensen Huang), ouvir os mesmos podcasts, trabalhar nas mesmas empresas e sonhar em ficar milionário, parece estar todo mundo meio que na mesma vibe otimista sobre o desenvolvimento de IA e a pressão em acumular o máximo de dinheiro durante a bolha. Ao mesmo tempo, os chineses que escolhem o Vale do Silício como residência enfrentam desafios de xenofobia em um momento cada vez mais tenso das relações bilaterais.

China e Paquistão. O primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif esteve em Pequim na segunda-feira (25) e firmou, junto a Xi Jinping e ao premiê Li Qiang, o que ambos os países descreveram como um “novo amplo consenso” sobre o aprofundamento da parceria estratégica, justo no ano em que se celebra o 75º aniversário das relações diplomáticas sino-paquistanesas. Segundo a Reuters, o comunicado conjunto prevê a retomada do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), projeto-vitrine da Iniciativa Cinturão e Rota, além do esforço para transformar portos e rodovias em rotas modernas. Em contrapartida, Islamabad reforçou medidas para proteger trabalhadores e investimentos chineses no país, após uma sequência de ataques de militantes a cidadãos chineses em solo paquistanês. O componente diplomático veio igualmente carregado: segundo a Xinhua, Sharif reafirmou o princípio de “uma só China” e o apoio paquistanês às posições de Pequim em Xinjiang, Tibete, Taiwan e questões marítimas, e ambos os lados se manifestaram contra a atuação do Tehreek-e-Taliban Pakistan e do Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, se referindo ao tema sensível para a vigilância chinesa sobre Xinjiang. Pequim ainda agradeceu o papel de Islamabad como mediador no recente cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, sinal de que o Paquistão segue se posicionando como interlocutor útil para a China tanto no flanco econômico quanto no diplomático. 

O conflito EUA-China em vigilância e defesa. Não é só no comércio direto que Estados Unidos e China disputam espaço e poder. Uma reportagem recente publicada pelo The New York Times indica que a influência em sistemas de defesa e vigilância nacionais também se faz importante nessa concorrência: o texto do principal jornal estadunidense fala sobre como a China tem exportado seu sistema de vigilância para além de suas fronteiras e, neste caso específico, para as Ilhas Salomão, no Pacífico, onde cidadãos têm seus dados pessoais coletados por policiais chineses em nome de aumento de proteção e segurança. Essa aproximação não está isolada, e textos recentes dão conta de explicar que ilhas do Pacífico estão em meio às disputas das maiores economias do mundo: os EUA têm acordo de defesa com as Ilhas Salomão e, recentemente, um adversário da China foi eleito primeiro-ministro. Para quem quiser se aprofundar um pouco mais no assunto, este texto, publicado pelo Carnegie em 2022, aborda as contradições da política estadunidense para a região do Pacífico.

Sociedade

Novos ventos soprando para migrantes. Em um movimento recente, o governo chinês anunciou a flexibilização do hukou, abrindo mais espaço para a migração interna no país. Esse sistema foi criado no fim dos anos 1950 por Mao Zedong e é usado para tentar conter movimentos internos no país. Na prática, o hukou limitava o acesso de cidadãos a serviços públicos, como o sistema de saúde, a educação, a moradia e até o registro de bebês, impactando negativamente pessoas que estivessem vivendo e trabalhando fora de seus lugares de origem. A mudança anunciada em maio amplia o acesso de trabalhadores migrantes a esses serviços públicos. Apesar de dificultar, e muito, a vida dos chineses, na prática, o sistema não chegou a impedir as migrações, como mostra o South China Morning Post, mencionando um censo que aponta para a existência de 357 milhões de migrantes no país. 

Zheng He

Podcast: esta série de oito episódios aborda a relação moderna da China com os seus vizinhos terrestres e marítimos – e como o país está lidando de forma “criativa” com essas dinâmicas. O projeto é liderado pela pesquisadora Nadège Rolland. 

Literatura: o podcast China Talk conversou com o autor e tradutor de ficção científica chinesa Ken Liu. Os temas foram de inteligência artificial ao Taoísmo.

Nostalgia: também na China, os anos 1990 estão em alta – pelo menos na internet.

 

Mais um épico histórico chinês chega aos cinemas – mas, desta vez, a narrativa parece estar muito mais interessada em apontar para o futuro: A Batalha de Penghu (澎湖海战), com estreia prevista para 25 de julho, vem gerando muitos comentários sobre sua mensagem a respeito das relações entre China continental e Taiwan. A batalha que dá nome ao filme, ocorrida em 1683, marcou a conquista de Taiwan pela dinastia Qing.