Podcast 001 | Nasce uma pandemia

Eram 10h da manhã, em 23/01/2020, quando Wuhan, a capital da província de Hubei entrou em quarentena. A cidade de 11 milhões de habitantes é um hub importante para o país. O momento não poderia ser pior. Em meio ao maior feriado chinês: o Ano Novo Lunar. Uma média de 3 bilhões de jornadas são realizadas dentro e também para fora do país.

Três meses se passaram desde então e muito se fala que o mundo não será mais o mesmo.


Em nosso primeiro episódio, abordamos as dimensões política e econômica do surgimento da pandemia do novo coronavírus na China. Escute já no Anchor, Spotify, Breaker, PocketCasts, RadioPublic, iTunes e Google Podcasts.


Transcrição do episódio:

Eram dez horas da manhã, em 23 de janeiro de 2020, quando Wuhan, a capital da província de Hubei entrou em quarentena. A cidade de 11 milhões de habitantes, mais do que Nova Iorque ou Londres, é um hub importante para o país. Logo em seguida, uma a uma, outras cidades chinesas se juntaram à quarentena. 

O momento não poderia ser pior. Em meio ao maior feriado chinês: o Ano Novo Lunar, que garante folga no trabalho por uma semana e representa a única oportunidade que muitos trabalhadores migrantes têm de ir para casa. Uma média de 3 bilhões de jornadas são realizadas dentro e também para fora do país, de carro, trem, avião, ônibus.

Três meses se passaram desde então e muito se fala que o mundo não será mais o mesmo. 

VINHETA / MÚSICA BACKGROUND

Olá, esse é o primeiro episódio do Podcast da Shumian, uma plataforma de entendimento sobre China para brasileiros e brasileiras. Eu sou Jordy Pasa e o tema desse primeiro episódio não poderia ser outro: o novo coronavírus. 

E eu sou Júlia Rosa. Nesse episódio, vamos explorar qual o papel da China na pandemia, quais mudanças no cenário geopolítico podem vir disso tudo e quais lições podemos aprender com a resposta chinesa à crise.

No momento dessa gravação, o vírus já chegou no Brasil (só redução de contato social para forçar a gente a finalmente criar coragem para lançar este podcast). Ao mesmo tempo, a China anunciou que, por lá, o pior da doença já passou. Os famosos hospitais temporários construídos em menos de duas semanas para atender suas vítimas mais severas já fecharam. Medidas de quarentena e distanciamento social vão sendo aos poucos afrouxadas. Os esforços de retorno à normalidade e incentivo ao consumo estão a todo gás.

Foram mais de 80 mil casos diagnosticados na China, com mais de 3300 mortes pela doença registradas oficialmente no país. Os impactos indiretos ainda estão sendo mensurados: mortes de outras enfermidades por falta de espaço nos hospitais, suicídios, violência doméstica e trauma, além de questões como impacto na economia chinesa e mundial. 

Três pontos parecem claros por enquanto: 

  1. Na China e no mundo, foi impossível discutir o vírus sem que se discutisse política: o debate passou por assuntos como a capacidade do governo do país de responder a certas questões, bem como sobre o controle de informações e, ainda, a quem culpar pela epidemia (traduzindo: quais cabeças iriam rolar);
  2. A tecnologia teve um papel crucial: de comunicação nas redes sociais para se manter são durante a quarentena e compartilhar informações com o mundo até o controle estatal que surgiu com aplicativos e mapas, chegamos de fato ao famigerado “parece episódio de Black Mirror”;
  3. A China segue vista como um mistério: o vírus foi a prova de que pouca gente presta atenção no que está acontecendo por lá, pelo menos em termos de achar que isso tem alguma influência aqui no Brasil. Aconteceu no mundo inteiro: ninguém achou que a situação era digna de grande seriedade até chegar na Europa. Muita prevenção e controle de riscos poderia ter sido feita com antecedência e não foi. Não foi porque a China é o outro, é o estranho, é o distante. Chineses são vistos como os incivilizados que comem sopa de morcego. No Ocidente, esse tipo de coisa não aconteceria.

Exceto que aconteceu e acontece. Essa não é a primeira pandemia que a humanidade enfrenta e muitos menos é prerrogativa chinesa. Ao longo da história, doenças de grandes proporções fizeram parte do controle de colonizadores sobre populações locais, foram causas de revoltas e tensões econômicas e políticas, e de redefinição de relações entre países. O mundo percebeu em 2020 o quão dependente é da China e o quão interligados estamos.

VINHETA / MÚSICA BACKGROUND

[1] Política em tempos de COVID-19

As manifestações da COVID-19 não começaram em janeiro. Os primeiros caso da doença se deram possivelmente em novembro ou no início de dezembro. Percebendo a semelhança com a SARS, médicos tentaram alertar para a seriedade das ocorrências. A SARS, ou Síndrome Respiratória Aguda Grave, para quem não se lembra, também se originou na China em 2003 e causou quase mil mortes pelo mundo. Esses médicos foram criticados e enfrentaram pressão policial para deixarem a história quieta. 

Um deles era Li Wenliang. Espantado com os novos casos de pneumonia severa que se multiplicavam em Wuhan, Li tentou sem sucesso alertar os chineses sobre os perigos do que na época já dava indícios de ser um novo e perigoso vírus. Censurado e difamada por autoridades locais, faleceu em decorrência da própria COVID-19 mais de um mês depois, no dia 7 de fevereiro. Sua morte sacudiu a sociedade chinesa. Instantaneamente, o médico transformou-se em um símbolo da frustração do povo chinês quanto à resposta de seu governo à crise.

A identificação oficial do novo coronavírus por parte de cientistas chineses só veio no início de janeiro. Na época, ainda não havia registro de nenhuma morte diretamente relacionada ao vírus – e também não parecia haver evidência de que ele pudesse se transmitir de pessoa para pessoa. Precaução era recomendada, mas ainda não havia – ao menos aos olhos do público – razão para alarde.

No fim do mesmo mês, porém, o tom mudou. Em sua primeira declaração pública sobre o assunto, Xi Jinping afirmou que o surto do novo coronavírus originado em Wuhan deveria ser levado a sério, e que a vida e saúde das pessoas seria colocada em primeiro lugar. A transmissão de pessoa para pessoa acabara de ser confirmada, os casos de infecção já estavam na casa dos milhares e as primeiras mortes em sua decorrência haviam sido registradas. 

Um mês depois, descobriríamos que Xi teria ordenado esforços para conter a epidemia já no início do janeiro. O líder chinês estaria, portanto, ciente da crise pelo menos duas semanas antes de alertar o público sobre a seriedade do assunto – potencialmente o implicando na problemática resposta inicial ao vírus. 

Pequim não aceitou qualquer parcela de culpa. Rápido em sua reação, o governo central do país logo destituiu algumas de suas principais lideranças na província de Hubei – onde fica Wuhan – de seus cargos. A mensagem era clara: as autoridades locais falharam em sua atuação no início do surto e, por causa de seus erros, a China estava agora condenada a enfrentar uma crise de grandes proporções. 

Nem todos, contudo, concordaram com essa interpretação. Apesar de reconhecer o descontentamento popular quanto à resposta local ao vírus, Zhou Xianwang, prefeito de Wuhan, destacou que a demora em divulgar informações e implementar medidas de contenção se deram, ao menos em certa medida, graças a entraves burocráticos impostos por Pequim.

Troca de farpas à parte, o punho de ferro chinês só começou a mostrar sua força de verdade contra o vírus no final de janeiro, quando o governo do país anunciou o isolamento da cidade de Wuhan e seus arredores. Dezenas de milhões de pessoas foram afetadas. Era a mensagem definitiva de que a crise era séria e de que Pequim estava disposta a lançar mão de todos os seus recursos para contê-la.

Também nessa época, os primeiros casos de infecção pelo novo coronavírus fora da China continental começaram a ser registrados. Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos, Hong Kong, Tailândia… No dia 30 de janeiro, a Organização Mundial da Saúde classificou a crise como uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Tornava-se, então, evidente que a crescente epidemia não era somente um problema chinês.

Ainda no início de fevereiro, a doença causada pelo novo coronavírus ganhou o nome com o qual agora já estamos habituados: COVID-19, ou Corona Virus Disease 2019. Mais do que mera formalidade, a nova denominação representa a luta contra o estigma: não faz qualquer referência a lugares, pessoas e animais anteriormente associados ao vírus. 

Ao longo do mês, as fatalidades associadas a COVID-19 se espalharam pelo mundo: Filipinas, França, Itália, Coreia do Sul… O caso do Irã em particular espantou: sem saber apontar a fonte das contaminações, o país rapidamente se transformou em um grave ponto focal da epidemia – com taxa de mortalidade, vale notar, expressivamente superior à registrada na China.

No fim de fevereiro, a COVID-19 já havia escancarado as portas do ocidente. O agravamento da situação em Wuhan e as várias semanas que haviam se passado desde o estabelecimento das áreas de quarentena na China não foram suficiente para que a Europa se preparasse a tempo para a chegada do vírus. O caso da Itália se agravava rapidamente. Em países como França, Espanha e Inglaterra, o quadro também piorava. Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos logo seguiram caminho semelhante.

Neste mesmo período, o primeiro caso de contaminação pelo novo coronavírus chegava à América Latina: um brasileiro de 61 anos, residente de São Paulo, testou positivo após retornar de viagem da Itália. Ao longo do próximo mês, os casos no Brasil se multiplicaram, e outros foram registrados em países como Argentina, México e Uruguai. 

No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde finalmente classificou a crise do COVID-19 como uma pandemia, reconhecendo o que já havia se tornado claro: o vírus logo chegaria a todos os cantos do planeta.

No fim do mesmo mês, notícias ruins e boas: por um lado, a Itália ultrapassou a China em números de vítimas fatais em decorrência direta do coronavírus. Em questão de semanas o país europeu se tornou o novo epicentro mundial da pandemia. Logo logo Espanha e Estados Unidos também entrariam para o grupo de países atingidos mais severamente pelo novo coronavírus. 

A China, por outro lado, passou a registrar seus primeiros dias com poucos ou até mesmo nenhum novo caso de transmissão local do vírus. É verdade que o número de ocorrências importadas no país passou a crescer abruptamente. Temendo o início de uma segunda onda do surto, os chineses fecharam suas fronteiras a quase todos os estrangeiros – incluindo aqueles com vistos válidos – por tempo indeterminado. Ainda assim, o pior por lá parece já ter passado.

Em retrospecto, o desenvolvimento da epidemia no país – assim com as suas implicações políticas – são mais semelhantes do que agora se passa no restante do mundo do que muitos gostariam de admitir. 

Apesar dos avisos que sopravam da China há meses,  governos ao redor do planeta – democracias ou não – também foram, de modo geral, lentos em suas respostas ao novo coronavírus. E se em janeiro, o governo chinês foi criticado por reagir tardiamente ao novo vírus e, depois, por adotar políticas ditas draconianas ao impor quarentenas e controle de movimento e de aglomerações. Dois meses depois, boa parte do mundo se encontra na mesma situação – sob ordens de seus próprios governantes. 

A disputa entre poder central e autoridades locais observada na China também se repetiu em outros lugares, como Estados Unidos e Brasil. Aqui, foram os governadores que impuseram as restrições a contragosto do governo federal – e em cima da hora.

Em quase todo lugar, as discussões políticas em torno da crise são parecidas. Quem paga a conta da internação pela doença? Na China, o governo prometeu que cidadãos não vão arcar com os custos do tratamento, mas a realidade parece ser mais complexa que as declarações oficiais e não foram dados prazos concretos para reembolsos. A discussão de sistema de saúde universal tornou-se pauta central lá e no restante do mundo. 

A provisão de serviços públicos e as interferências governamentais na economia também entraram em pauta. Conforme empresários e cidadãos exigem subsídios para sobreviverem à crise, o discurso do Estado mínimo perde força em diversos países. Na China, a participação estatal na vida econômica não é novidade. Incentivos fiscais para pequenos empresários e produtores rurais, adiamento de pagamento de dívidas para pequenas e médias empresas, redução de pagamentos de impostos para microempreendedores, redução de contribuição para seguros pagos ao Estado em troca de não demissão de funcionários: para combater os impactos da pandemia, Pequim lançou mãos de todas as suas ferramentas. As contas de luz, água e gás vieram com desconto. Muitas dessas decisões já estavam na mesa desde o início de fevereiro no país. 

Por lá (e, no futuro, provavelmente também por aqui) permanece o desafio de como incentivar o consumo junto ao relaxamento das medidas de distanciamento. Respostas, por enquanto, incluem reduzir os impostos sob as importações de alguns bens, aumentar a disponibilidade de mercadorias sem impostos em portos de entrada e saída do país (as famosas duty frees), fortalecer o combate a preços abusivos ao consumidor, e intensificar a atuação na proibição da venda de itens falsificados ou de contrabando. Certamente veremos respingos dessas medidas sobre a cadeia de suprimentos de comerciantes informais brasileiros.

Durante os últimos meses, o papel da imprensa na China – com destaque para mídias locais – foi de protagonismo. Cobertura de pequenos e médios veículos ganharam destaque nas redes sociais e demonstraram a importância do jornalismo livre em tempos de crise. A censura, contudo, logo se levantou. Ocultar informações tidas como sensíveis se tornou prioridade do governo. Ainda assim, portais como a Caixin continuaram a fazer coberturas diretamente de Wuhan, com jornalistas na linha de frente da pandemia tanto quanto profissionais de saúde. Particularidades à parte, o fenômeno não é único: também encontra paralelos nas experiências de outros países em suas lutas contra o vírus.

VINHETA / MÚSICA BACKGROUND

[2] Tecnologia no controle 

A tecnologia também desempenhou papel de destaque durante a crise. Já não é de agora que a discussão sobre privacidade de dados e vigilância é uma das pautas mais populares no mundo moderno. Na China não é diferente. Há anos, diversos analistas já chamam o país de “ditadura digital”, um termo que se popularizou quando o sistema de crédito social ainda em elaboração ganhou atenção da mídia em 2016. A escala de processamento de dados à qual o governo chinês teria acesso com tantos cidadãos vivendo ativamente online, especialmente em um super app como o WeChat, ou com os avanços na construção de cidades inteligentes deram origem a milhares de discussões sobre política, tecnologia e direitos humanos. 

As urgências que a pandemia trouxe adentram amplamente essa discussão. Quanto de nossa privacidade estamos dispostos a sacrificar para garantir a segurança nesse cenário? Por quanto tempo? Essa discussão perpassa legislações, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), aprovada no Brasil, que entra em vigor provavelmente só ano que vem. É uma discussão que existe num contexto de desigualdade: de acesso e de informação. E que pode alimentar essas mesmas desigualdades, à medida que pessoas mais vulneráveis vão ceder informações sem muitas vezes saber para o que serão usadas. Qual a finalidade dos dados sendo coletados agora? Quais serão os usos desses dados depois que a pandemia acabar? Quão anonimizadas são as informações? Quão confiáveis são as autoridades que controlam elas? Você é obrigado a usar um certo aplicativo? E quem lucra diretamente com isso?

Essas são discussões que todos os países estão tendo, e a China já está alguns passos à frente. É a primeira pandemia que enfrentamos enquanto humanidade na era da hiperconectividade. Dez ou vinte anos atrás, na época da SARS e H1N1, apesar de já termos redes sociais, a realidade não era a mesma. Nunca estivemos tão grudados aos nossos smartphones, o iPhone não era o que é hoje, a internet não era o que é hoje, e nem era a nossa relação com ela. 

O uso de dados para lidar com a crise é impressionante. A cada dia brotam, às vezes de maneira desorganizada, iniciativas em empresas, startups, governos e sociedade civil para resolver algum dos muitos problemas que apareceram. Aprendizado de máquinas, inteligência artificial, visualização de dados, modelos matemáticos, dashboards e dashboards. A produção ligada ao uso de dados é quase uma pandemia em si.    

Em meio ao caos que o fechamento de uma cidade inspira, ao redor do mundo as comunidades perceberam que – além dos trabalhadores de saúde – serviços essenciais eram realizados por aqueles que estão nos supermercados e entregando comidas e pedidos. 

A China tem um dos serviços de delivery mais extensos e avançados do mundo. Não é à toa que o e-commerce chinês é gigante. Quem já residiu no país sabe que praticamente qualquer coisa pode ser entregue à sua porta em questão de horas. Para atender as demandas dos moradores trancados em casa, outros precisaram sair das suas residências. Foi a maneira que muitas famílias viram de se sustentar. O governo, por sua vez, incentivou empresas que iriam fechar suas portas a emprestarem seus funcionários para esses setores agora tidos como essenciais.

Jogos online, já bastante populares no país, nunca fizeram tanto sucesso. League of Legends e Honor of Kings da chinesa Douyu quase duplicaram em números de acessos em relação ao ano anterior. Aplicativos de vídeos também se fortaleceram. Foi na partida de League of Legends ou no registro do Tik Tok diário que muitos afastaram a solidão e contaram as suas experiências. Grandes estúdios escolheram lançar alguns dos seus filmes online – e até de graça. 

Mas não é só de tele entrega e entretenimento que se alimenta o setor de tecnologia. A gigante Alipay, Tencent e Baidu trabalharam arduamente para entrar na briga pela área de health tech – similar com o que Google e Apple estão fazendo agora. Essa área cobre desde análise por algoritmo de tomografias computadorizadas, telemedicina, processamento de dados genéticos, simulações de intervenções feitas em pacientes ou grupos.  

O uso do aplicativo Alipay Health Code, que emite códigos de liberação entrou muito em pauta quando foi implementado na China. Três cores são alocadas para usuários (verde, amarelo e vermelho), cada uma ligada a um nível de liberação para frequentar espaços públicos. Os dados são enviados para as autoridades, inclusive a polícia. Muita preocupação surgiu dessa escolha e da arbitrariedade que os códigos às vezes são emitidos, sem muito espaço para questionamento. 

Logo depois, Alemanha, Índia e Itália estão discutindo a emissão de passes para pessoas imunizadas (que tiveram o vírus). A velocidade com que soluções que fazem uso de dados estão sendo aplicadas por muitos países, às vezes atropela discussões importantes. O método de contact tracing, que é a ideia de rastrear pessoas contaminadas ou suspeitas tem sido considerado um das principais maneiras de deter a expansão do vírus, com a atuação da Coreia do Sul em destaque – divulgando dados anonimizados de proximidade a esses casos. Mas as autoridades têm acesso inédito ao dado com a identificação, incluindo localização, pagamentos, histórico médico.    

É inegável que a vida pós distanciamento vai intensificar a nossa relação com tecnologia e acelerar pautas sobre uso de dados e transformação digital. Tem muita coisa interessante acontecendo pelo mundo, forçando serviços públicos e privados a transformarem sua relação com tecnologia e com seus clientes. Ao mesmo tempo, a pressão para abdicar de certas questões de privacidade e vigilância de movimentos preocupam especialistas. Os mais vulneráveis nesse cenário são sempre os que sofrem com políticas de uso de dados que sejam arbitrárias ou mal feitas. E existem muitas surgindo, na ânsia de oferecer uma sensação de maior segurança nesse período. Na China, trancas digitais por reconhecimento facial já começaram a ser usadas em prédios residenciais, para evitar que as pessoas toquem nas portas. Reconhecimento facial apressado é passível de erro, e mesmo quando dá certo, os moradores precisam saber quem fica com aqueles dados e se eles são usados para outras coisas.

Como sempre, é preciso lembrar que a tecnologia é uma ferramenta e pode ser usada para coisas boas e não tão boas assim. As pessoas estão sedentas por mais informação e parecem estarem dispostas a cederem parte da sua privacidade em troca de uma sensação maior de segurança. Mas, quando a pandemia passar, essas políticas de vigilância nem sempre vão embora. É preciso pensar desde já nessas consequências.

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[3] A China no mundo e como o mundo vê a China

Pelo restante do mundo, a pandemia avançava. Pequim não assistiu parada. Enquanto lideranças tradicionais preocupavam-se com o agravamento da crise dentro de suas próprias fronteiras, os chineses lançavam mão de sua experiência acumulada para tomar a frente dos esforços de cooperação internacional pelo combate à pandemia. Em sua maior iniciativa de ajuda humanitária internacional desde de 1949, a República Popular da China – aliada a algumas de suas maiores empresas – anunciou doações volumosas de equipamentos médicos e de proteção individual a países espalhados por todo o planeta, da Ásia à África passando pelas Américas e pela Europa. Equipes de especialistas também foram enviadas para fortalecer a luta contra o vírus da COVID-19 em escala global.

A conjuntura, é claro, apresentava uma oportunidade para que a China consolidasse sua posição de protagonismo no âmbito internacional e ainda reforçasse seus laços com antigos e novos aliados. Para muitos, o apoio chinês foi e ainda é fundamental. Nem todos, porém, ficaram felizes. Não faltaram acusações que a China estaria instrumentalizando uma das mais graves crises da história recente a seu favor. Teve até quem sugerisse que Pequim fabricara a pandemia para prejudicar seus rivais (particularmente aqueles no ocidente). 

A relação do gigante asiático com os Estados Unidos, em particular, parece, ao menos no princípio, ter se deteriorado com a crise do novo coronavírus. A insistência inicial de Donald Trump e membros de sua administração em se referir ao novo coronavírus como “vírus chinês” e de culpar Pequim pela sua disseminação pelo planeta não agradou a China. Já as insinuações de oficiais e veículos da mídia estatal chinesa de que os Estados Unidos poderiam ser a verdadeira origem do vírus, é claro, também não pegou bem com Washington. 

Coincidentemente ou não, a postura de Trump frente aos chineses se abrandou expressivamente após os Estados Unidos se tornarem o país com o maior número registrado de casos e vítimas fatais da COVID-19 no mundo. No Twitter, o presidente estadunidense elogiou o entendimento de Pequim sobre o vírus – ao qual finalmente não se referiu mais como “vírus chinês” – e afirmou que as duas maiores economias do mundo estavam trabalhando conjuntamente para combater a pandemia. 

O clima de desconfiança, porém, persiste: em relatório secreto escrito à Casa Branca no início de abril, serviços de inteligência dos Estados Unidos teriam sugerido, como disseram informantes à Bloomberg, que os chineses teriam ocultado a dimensão da pandemia em seu território, falsificando números oficiais de contaminações e mortes. A China, é claro, nega, defendendo que vem se mantendo completamente transparente durante a crise. 

E a tensão também se estendeu ao Brasil: adotando retórica curiosamente semelhante à dos estadunidenses, Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro, culpou a China pela pandemia, traçando um paralelo entre a reação do país ao novo coronavírus e àquela da União Soviética ao acidente nuclear de Chernobyl no fim dos anos de 1980. 

O embaixador chinês ao Brasil não gostou nada das acusações, classificando-as como “insulto maléfico” e exigindo um pedido de desculpas. Ernesto Araújo, ministro das relações exteriores do Brasil, ficou ao lado de Eduardo. Já os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado emitiram pedidos de desculpas à China. 

Inicialmente, Jair Bolsonaro negou a existência de uma crise diplomática entre os dois países. Ainda assim, o presidente buscou entrar em contato com Xi Jinping. Após pelo menos uma tentativa mal sucedida, o chefe de estado brasileiro reafirmou, em ligação com Xi, a relação saudável entre os dois países, além de assegurar o fortalecimento de iniciativas de cooperação conjuntas.  

A crise entre os dois países, porém, não parou por aí. Em resposta às acusações de Eduardo Bolsonaro, Li Yang, cônsul da China ao Rio de Janeiro, escreveu uma carta em que lembrava o deputado federal da amizade entre chineses e brasileiros, aconselhando o filho do presidente a não se deixar levar por seus amigos em Washington.

Horas depois, foi a vez de Abraham Weintraub, ministro da educação do Brasil, entrar na confusão: primeiramente em postagem no Twitter e depois em transmissão ao vivo junto a Eduardo Bolsonaro, Weintraub acusou a China se de beneficiar da pandemia da COVID-19 e recorreu a simplificações problemáticas da cultura chinesa para supostamente explicar o surgimento do novo coronavírus. 

Em resposta, a embaixada da China no Brasil classificou as declarações de Weintraub como absurdas e racistas e exigiu um pedido de desculpas. Se os próximos passos dessa história apaziguarão ou acirrarão os ânimos entre Brasília e Pequim, resta esperar para ver. 

O surgimento de discussões sobre a origem do novo coronavírus,e assim a procura por um culpado pela sua pandemia, não são, é claro, fenômenos exclusivos ao Brasil e aos Estados Unidos. Críticas e indagações relevantes à parte, dois componentes importantes nestes debates são velhos conhecidos: o sentimento anti-chinês e o desconhecimento sobre a China que persiste ao redor do mundo. 

Primeiro, quanto à sua origem: por um lado, a maior parte dos especialistas parece acreditar que o vírus surgiu, de fato, na China. Vale lembrar, porém, que um vírus não tem nacionalidade e que, como lembramos anteriormente, epidemias não são prerrogativa chinesa.

Por sua vez, insinuações de que Pequim teria fabricado o vírus para atingir o ocidente parecem ter pouco ou qualquer fundamento nos fatos. A prosperidade econômica é, desde as reformas liberalizantes dos anos de 1970, a principal base de sustentação da legitimidade do regime do Partido Comunista Chinês. A COVID-19 atingiu a economia chinesa em cheio – justamente em um momento em que o país enfrenta um de seus piores quadros de desaceleração econômica em décadas.

Os dados falam por si mesmo. No primeiro trimestre deste ano, o PIB chinês despencou quase 7% em comparação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e fevereiro, as vendas do varejo na China caíram em mais de 20%. Já produção industrial do país se contraiu mais de 13%, enquanto o investimento em ativos fixo, por sua vez, reduziu-se em quase 25%. 

Não bastasse isso, responder apropriadamente ao vírus representou, ainda, um dos maiores desafios políticos às lideranças do país em sua história recente. Julgar que o governo da China teria se lançado propositalmente a tal cenário para prejudicar rivais ocidentais não nos parece razoável.

[4] Conclusão

Em momentos de crise severas, é de se esperar que, por diversas razões, todos queiram apontar dedos. Em diversos cantos do mundo – incluindo na China -, sentimentos de nacionalismo se fortalecem junto à caçada por culpados. No caso da pandemia da COVID-19, essa busca é infrutífera. Poucos irão defender que a resposta chinesa ao vírus foi perfeita. Houve, como apontamos, erros e acertos. E quanto à resposta de outros países? Igualmente. Assim como na China, o que observamos no restante do mundo foi uma reação mista de efeitos positivos e negativos à pandemia.

Fosse a China uma democracia, teria sua resposta sido necessariamente melhor? Novamente, não. Democracias ao redor do mundo diferiram consideravelmente em suas reações à COVID-19. Algumas, como os Estados Unidos e o Brasil, tentaram, assim como a China, abafar, ao menos momentaneamente, a gravidade da pandemia. Outras, como Coreia do Sul, Nova Zelândia e Argentina, reagiram de maneira notavelmente mais ágil e eficiente ao problema. 

Inicialmente, a resposta chinesa a um vírus que até então nenhum de nós conhecia pode, de fato, ter sido mais consequencial ao restante do mundo. Ao ultrapassar as fronteiras do país, porém, o novo coronavírus tornou-se responsabilidade de todos os povos por ele atingidos. Hoje, vitórias e derrotas em sua contenção não dizem mais respeito a somente uma ou outra nação. Não há mais como encontrar no outro um culpado: a responsabilidade é de todos nós. 

[5] Despedida

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Eu sou o Jordy Pasa, e eu sou a Júlia Rosa, e esse foi o nosso episódio de hoje. Esperamos que tenham gostado e que nos encontremos de novo em nossa próxima edição. Até mais!

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