Narrativas de libertação feminina no cinema chinês dos anos 1960: Destacamento Vermelho de Mulheres

Crédito da imagem: Cena do filme, disponível no canal do Instituto CPFL.  

Por Thais Craveiro*

 

O ano de 1961 foi marcado por alguns fatos importantes para a então jovem República Popular da China: o aniversário de 40 anos do Partido Comunista Chinês (PCCh), o 12º ano da vitória da Revolução Chinesa e o lançamento do premiado longa-metragem Destacamento Vermelho de Mulheres, de Xie Jin, um dos maiores diretores da história do cinema chinês. 

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Pôster do filme, em mandarim.

O longa narra a história de um dos episódios de libertação da província de Hainan entre os anos de 1930 e 1932, onde uma tropa feminina do Exército Vermelho com cerca de 120 soldadas participou ativamente das batalhas contra os nacionalistas do Kuomitang (KMT). A protagonista Wu Qionghua é uma jovem camponesa castigada por suas inúmeras tentativas de fuga da propriedade do cruel senhor Nan Batian. Seu desejo por liberdade e vingança é conhecido pelo protagonista masculino do filme, o secretário do PCCh Hong Changqing, que sob o disfarce de um rico comerciante frequenta a casa de Nan, compra Qionghua, evitando que ela fosse vendida para um bordel, e a envia para o soviete. A caminho do acampamento do Exército Vermelho, Qionghua conhece Fu Honglian, personagem feminina secundária do filme, com quem desenvolve uma relação de irmandade devido à sua identificação de classe. 

No soviete, as personagens iniciam seu processo de transição: são alfabetizadas, recebem treinamento militar e educação política. A farda comunista e o cabelo curto apagam seus passados de exploração, revelando novas mulheres fortes. Wu Qionghua no início não entende que sua vontade de se vingar de Nan Batian deve ser uma causa coletiva e não individual. Em sua trajetória heroica, a protagonista aprende a lutar contra suas atitudes impulsivas individuais, entendendo que o comunismo ajudaria a libertar a China inteira. 

A trajetória heroica da protagonista se dá em torno de seus ideais revolucionários, aperfeiçoados conforme a personagem desenvolve ainda mais a sua educação política. Sua admiração por Hong Changqing, ao contrário do que imaginamos, não se torna um romance. Qionghua o admira porque ele é comunista, e foi através do comunismo que ela se salvou da escravidão. Quando ele é capturado e morto pelos nacionalistas — mesmo momento em que a protagonista descobre seus documentos de admissão ao PCCh, Qionghua conduz sua tropa com responsabilidade, vencendo a batalha contra os nacionalistas e levando a luta revolucionária adiante. Já sua “irmã” Honglian se casa com outro soldado do Exército Vermelho e dá à luz uma menina, simbolizando a continuidade da revolução através das novas gerações — mais que isso, através das novas gerações de mulheres. 

Se dividirmos o filme em dois blocos temáticos, chegaremos a dois ambientes que simbolicamente representam a velha sociedade e a nova sociedade em construção. A velha sociedade é a propriedade rural e os seus costumes “feudais”: concentração de poder e riqueza nas mãos de um só homem, trabalho escravo, castigos físicos, exploração do campesinato, pobreza e desumanização das mulheres. A nova sociedade é representada pela China dos sovietes, onde homens e mulheres trabalham lado a lado e em condição de igualdade, guiados pelos preceitos comunistas. 

 

Devemos lembrar que Destacamento Vermelho de Mulheres é um filme que reflete o período histórico e político em que foi produzido: o governo Maoísta. Portanto, a representação da mulher da Nova China no cinema, um dos principais veículos midiáticos e educacionais para os países socialistas, deveria ser necessariamente marcante. A narrativa de Destacamento Vermelho… cumpre essa função ao revelar a trajetória da protagonista Wu Qionghua, de camponesa escravizada por um senhor de terras à heroína revolucionária membro do Partido Comunista. 

As formas de representação feminina na cultura visual da era Maoísta (1949-1976) tiveram diversas fases e abordagens, exemplificadas nos cartazes de divulgação dos filmes desse período. Se por um lado a figura da heroína revolucionária dos anos 1960 e 1970 foi alvo de críticas pela jovem geração de feministas chinesas que surgiu durante a era das reformas da década de 1980 (como, por exemplo, Li Xiaojiang); por outro lado, durante a consolidação do socialismo na China, essas figuras femininas fortes tiveram uma grande importância para as mulheres chinesas das gerações anteriores, como Bai di e Wang Zheng. Aqui, vale a pena lembrar que as mulheres chinesas da “velha sociedade” não possuíam direitos básicos, e as mulheres que viveram durante o período republicano (1911-1949) também sofreram as consequências por lutarem por sua liberdade. 

O filme de Xie Jin é fortemente influenciado pela estética do realismo socialista soviético e pela narrativa melodramática hollywoodiana, transformada aqui em um melodrama revolucionário. Outras grandes novidades apresentadas ao povo chinês foram as paisagens coloridas e tropicais de Hainan, o povo local Li, e, sobretudo, as mulheres soldadas, representadas no filme pela protagonista Wu Qionghua. 

O filme foi um grande sucesso de público na China, tornando-se dez anos mais tarde uma das obras-modelo mais importantes da Revolução Cultural, sob o formato de um filme de balé. O elenco também despontou para o estrelato (star system) socialista chinês em 1962 e foi premiado nos festivais de cinema do bloco socialista, que integrava o mundo polarizado da Guerra Fria. O filme recebeu quatro prêmios 100 Flores na primeira edição do prestigiado festival chinês Galo de Ouro, criado pela Associação de Cinema da China e patrocinado pela revista de cinema Dazhong Dianying, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (para a protagonista Zhu Xijuan) e Melhor Ator Coadjuvante (para Chen Qiang). A obra também recebeu o prêmio Bandung na terceira edição do Festival de Cinema Afro-Asiático em Jakarta, em abril de 1964.

Uma característica marcante deste título é seu caráter intermidiático. O filme é uma obra vasta que foi representada de diversas maneiras: uma reportagem no final dos anos 1950, uma primeira ópera de Hainan no mesmo período, balé e ópera de Pequim (com formatos fílmicos), histórias em quadrinhos e sinfonias. Amplamente conhecida por diversas gerações de chineses, a obra de Xie Jin teve seu balé remontado entre os anos 1990 e 2000, entrando em turnê mundial. Um parque temático foi lançado em Hainan na mesma época e foram feitas séries de TV e novas histórias em quadrinhos, dentre outros formatos, revelando sua importância no legado cultural contemporâneo chinês.

O filme Destacamento Vermelho de Mulheres levanta interessantes debates acerca da igualdade de gênero na China Maoísta e traz importantes questões sobre a existência ou não de um feminismo chinês, a importância da ideologia marxista-leninista para a libertação feminina naquele período e a importância da arte cinematográfica para o desenvolvimento das diretrizes culturais e políticas do PCCh. Além disso, se trata de uma obra que adiciona beleza e novidades estéticas ao realismo socialista emprestado da ex-URSS, sendo um dos mais belos filmes de Xie Jin, o diretor chinês que dedicou sua vasta obra às personagens femininas. 

 

*Thais Craveiro é bacharela em História pela Universidade Federal de São Paulo (2015), mestre em Cinema pelo programa de Meios e Processos Audiovisuais da Escola de Comunicação e Artes pela USP (2019). Tem experiência na área de História, com ênfase em História Contemporânea chinesa, imigração chinesa na cidade de São Paulo, imigração chinesa no Rio de Janeiro no século XIX, e produção cinematográfica chinesa do período revolucionário.

Este texto é fruto de uma parceria entre a Shūmiàn 书面 e o evento 5º Seminário Pesquisar a China Contemporânea, organizado pelo Grupo de Estudos Brasil China da Unicamp.  

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