Foto de Lai Man Nung via Unsplash.
Edição 376 – Incêndio de HK deixa 159 mortos e investigação é alvo de crítica

As buscas foram encerradas, e o total de vítimas dos incêndios no condomínio residencial Wang Fuk Court em Hong Kong é de 159 pessoas mortas e 79 feridas; entre animais, cerca de 300 foram resgatados, 70 encontrados sem vida, e quase 200 ainda estão desaparecidos. Sobreviventes tentam se reorganizar, buscando apoio psicológico, recebendo doações, e memorializando os prédios e a comunidade que lá habitava por meio de fotos e relatos sobre a vida antes do incêndio. O governo local anunciou na terça-feira (2) a criação de um comitê independente para investigar o ocorrido; críticos apontam que a escolha por esse tipo de formação em vez de uma comissão de inquérito legal seria um equívoco, uma vez que o comitê independente não tem poder legal para demandar dados e testemunhos. Mas as sugestões e expressões civis de senso de injustiça seguem sendo mal recebidas: mensagens de universitários sobre o assunto foram censuradas, e o Escritório de Salvaguarda da Segurança Nacional, um órgão de Pequim na cidade, chegou a convocar uma coletiva com a imprensa estrangeira neste sábado (6) para acusar alguns veículos de espalhar desinformação sobre a tragédia e de desacreditar os esforços do governo, “plantando discórdia”. Jornalistas foram alertados de que atitudes “anti-China” não seriam toleradas, e que os profissionais não poderiam dizer que não foram avisados.
Na ponta. Entre carros que estacionam sozinhos e um ecossistema de pesquisa que opera em modo 6ª marcha permanente, a China dá novos sinais de que a disputa tecnológica com o Ocidente entrou numa fase bem diferente daquela que moldou as últimas décadas. Esta reportagem do Financial Times mostra engenheiros alemães peregrinando até Hefei para aprender com equipes chinesas que entregam, em 18 meses, tecnologias que levariam quatro anos na Europa. Em paralelo, a DeepSeek, sim, aquela do open source baratíssimo, lançou uma nova versão que iguala o Gemini 3 Pro da Google DeepMind em tarefas de raciocínio, mesmo operando sob restrições severas de chips. E, para completar o pacote, o Harbin Institute of Technology oficializou uma tendência que ninguém no Ocidente admitiria em voz alta. Agora os doutorandos podem se formar entregando um produto funcional e não uma tese, como forma de destravar gargalos de engenharia na corrida contra os EUA.
Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo reforça a mensagem que Pequim quer transmitir: o foco agora é transformar o país em um laboratório completo, da banca de defesa ao mercado, reduzindo o tempo entre pesquisa, prototipagem e implementação e, claro, ampliando a distância para quem ainda está debatendo formulários, comitês e cortes de orçamento.
A mais recente sessão coletiva de estudos do Politburo focou no tema da governança da internet na China, olhando para o longo prazo. Realizada no dia 28, a sessão trouxe discussões sobre como melhorar a estrutura, enfrentar desafios atuais (como redes sociais e inteligência artificial) e, também, sobre a centralização da governança no Comitê Central do Partido. Um destaque especial foi dado para enfrentar a “supremacia ocidental”, que não reforçaria os valores socialistas, conta o SCMP. Xi Jinping reforçou que a internet deve ser uma frente para a “orientação ideológica, o cultivo moral e a sucessão cultural”, segundo a mídia estatal Xinhua. Vale ler o resumo e a declaração completa do Politburo lá na newsletter Sinocism.

Enfrentando as consequências de um desastre. Dez meses depois do rompimento de uma barragem de rejeitos na Zâmbia, agricultores locais decidiram processar a empresa Sino-Metals em 80 bilhões de dólares no que se tornou um dos maiores processos ambientais do país africano. A ação pede a compensação de 30 mil famílias. O processo, que coloca a empresa chinesa na mira da Justiça, tem sido apontada como uma possível referência para outros países africanos onde a China tem atividades na área de mineração. Em fevereiro de 2025, um acidente ambiental atingiu o rio Kafue ou Cafué, o maior rio inteiramente dentro do território zambiano, após um vazamento ligado ao complexo de mineração da Sino-Metals Leach Zambia – subsidiária da estatal chinesa China Nonferrous Metals Industry Group.
Na época, o governo da Zâmbia fez diversas declarações demonstrando preocupação, sinalizando que a Sino-Metals iria arcar com custos de reparação e o presidente da empresa pediu desculpas publicamente, mas em setembro a mineradora foi acusada de estar acobertando o tamanho do dano. O rio é essencial para milhões de pessoas. Por exemplo, os 700 mil que vivem na cidade de Kitwe tiveram o seu suprimento de água fechado por dias. Um estudo feito por especialistas locais indica que pelo menos 50 mil litros foram derramados no rio, que após o acidente demonstrou detecção de arsênico, urânio e outros metais pesados. A Embaixada da China no país questiona a extensão do dano reportado. Os investimentos chineses em mineração no continente africano sofrem críticas há tempos, e há inclusive acusações sobre a famosa “armadilha da dívida” sendo parte da dinâmica entre os dois países.
Segurança alimentar, promessa de ano novo? Pequim não quer mais depender só da “promoção do mês” no mercado global. Este texto do China Policy descreve o novo “atlas” da segurança alimentar chinesa. Basicamente, em vez de comprar sempre de quem oferece o preço mais baixo, Pequim está redesenhando rotas e fornecedores para blindar o país de tarifas, sanções e crises logísticas. Em 2025, o Documento Central nº 1 formalizou essa guinada com um mecanismo de coordenação entre comércio e produção agrícola. O documento é responsável por estabelecer as prioridades da estratégia rural e agrícola para o ano de 2025, e já havia vinculado os volumes de importação às metas domésticas de grãos e proteína animal. Na prática, isso significa diversificar fornecedores (menos EUA, mais Brasil, Rússia, ASEAN e outros países do Sul Global) e amortecer choques de preço via estoques estratégicos e liquidar contratos em renminbi.
Ao mesmo tempo, o debate interno está longe de ser só geopolítico. A preocupação com importações baratas derrubando os preços de milho, soja e carne bovina, corroendo a renda rural nacional e o “entusiasmo” dos agricultores locais em plantar e engordar gado. A resposta oficial passa por um pacote de seis frentes: regulação setorial mais coordenada entre ministérios, monitoramento em tempo real da cadeia com ferramentas digitais, melhor articulação produção–logística–exportação e reconversão produtiva para quem está no campo. Em outras palavras, o novo mapa de segurança alimentar da China combina um cinturão de fornecedores “amigos” lá fora com um colchão regulatório e financeiro para manter, dentro, o agricultor suficientemente motivado a continuar colhendo.

Comunidades que se escondem em condomínios fechados são cada vez mais comuns ao redor do mundo, e com certeza na China também. Mas talvez algo que você não pense tanto é no aumento das pessoas que são contratadas como seguranças nesses prédios. A antropóloga He Wapi escreveu para a Sixth Tone sobre o seu trabalho acompanhando esses profissionais desde 2018, que se reflete num entendimento de que a “proteção” que eles oferecem não é tanto no âmbito de problemas de segurança pública. Para os mais de 6 milhões de guardas que trabalham para empresas de segurança no país, o trabalho se relaciona muito à garantia do status de classe média e alta de quem mora nesses prédios, que temem a desvalorização das suas propriedades.
A telinha também vicia. Pais e mães preocupados com o tempo de tela dos filhos podem considerar relógios inteligentes uma boa alternativa – afinal, com eles é possível acompanhar a localização da criança, fazer ligações e até realizar pagamentos. Mas vale checar o que está acontecendo na China, onde um terço das crianças entre 5 e 12 anos tem um desses relógios, a maioria da marca Xiaotiancai. Acontece que os acessórios têm uma rede social que é, claro, movida a curtidas – quanto mais delas, mais popular o usuário. Como conta a revista estadunidense Wired, o Xiaotiancai já tem suas próprias celebridades, e é comum que elas monetizem sua fama vendendo bots e outras maneiras de burlar o sistema para ter mais curtidas. Diante da obsessão dos jovens e sua vulnerabilidade a golpes nessa rede, uma organização de apoio aos pais foi criada, e o governo está rascunhando um texto para definir padrões seguros para os relógios inteligentes voltados para crianças. Pode ser que o resultado seja bom: em dezembro de 2022, o governo chinês declarou o fim do vício em jogos entre menores de idade, resultado de uma legislação de 2021 que limitou o tempo que jovens jogam videogames online.

Luxo: como já comentamos, o mercado de luxo na China está aquecido para estratégias de marketing diferentes. No caso, a Chanel acabou de inaugurar a sua primeira biblioteca pública sobre arte e design contemporâneos no país asiático. A obra fica em Shanghai e o prédio é assinado pelo arquiteto Kazunari Sakamoto, em parceria com o museu Power Station of Art.
Finanças verdes: este working paper lançado por um centro de pesquisa da London School of Economics analisa o papel do Banco Central da China na política monetária sustentável e como a instituição tem se destacado nesse sentido.
Quente: esta matéria da Radii mostra as belíssimas caixas de fósforo do último século, especialmente o trabalho de ilustração e design – e também propaganda política – que apareceram entre 1940 e 1960.
A última banca de jornal de Shanghai abre todos os dias às 6h da manhã há 38 anos, sob o comando de Jiang Jun.
