foto em preto em branco mostra homem com rosto semi coberto por capuz preto enquanto manipula dois computadores com a logo da Apple em destaque

Foto de Azamat E via Unsplash.

Edição 383 – Proposta de nova lei sobre cybercrime na China é alvo de críticas

Política e economia

A proposta de uma nova legislação sobre crimes cibernéticos pelo PCCh tem rendido críticas de que o governo chinês busca elevar o grau de vigilância e censura sob seus cidadãos. Como mostra o China Law Translate, Pequim vem buscando formas de se atualizar no combate ao crime quanto mais conectadas ficam nossas vidas e, consequentemente, quanto mais os crimes permeiam essa realidade. Um rascunho proposto pelo Ministério de Segurança Pública não chega a prever novas tipificações criminosas, mas foca em formas de combater ferramentas e meios que podem facilitar o cometimento de atividades ilegais.  Entre os pontos de destaque trazidos pelo China Law Translate, estão as obrigações de entes públicos e privados no combate ao cybercrime. Ainda não há a disponibilização da íntegra da proposta, mas pelo documento é possível notar que pontos sensíveis, e recheados de críticas, entram no rascunho: permissão de VPN, mecanismos de vigilância real e ela, a Grande Firewall. Outro ponto de controvérsia é a possibilidade de que o governo possa proibir pessoas que foram condenadas a deixarem o país em até três anos após o cumprimento da sentença .

Investimentos em capital humano. Em um texto detalhado, o China Policy mostra como Pequim tem buscado priorizar investimentos em capital humano como forma de impulsionar a economia. De acordo com o relato, que contempla estudos e dados dos principais centros de pesquisa da China, esse movimento governamental tem se dado no contexto em que o modelo anterior de crescimento, baseado em altos investimentos e mão de obra barata, se esgotou.  A nova abordagem, agora presente no núcleo das discussões de política econômica, enfatiza a expansão da educação, da qualificação profissional (com destaque para áreas como inteligência artificial e formação técnica), da saúde e da proteção social, com o objetivo de fortalecer o capital humano, sustentar um crescimento de maior qualidade e estimular o consumo doméstico. Entre as medidas estão subsídios para creches e pré-escolas, ampliação do acesso a universidades de ponta, desenvolvimento do setor de cuidados a idosos e políticas para elevar a renda e o poder de compra. A estratégia busca enfrentar desafios estruturais como o envelhecimento populacional, o desemprego juvenil e a fragilidade do consumo, embora sua implementação ainda enfrente limitações fiscais e desigualdades regionais. De acordo com estudiosos citados pelo China Policy, uma das metas com o investimento é elevar o consumo doméstico chinês, hoje abaixo de um patamar considerado relevante para impulsionar o crescimento do PIB. Apesar de o texto falar que essa mudança de investimento ter mudado “do aço e do concreto para as pessoas”, vale a leitura de um artigo publicado no início de janeiro no South China Morning Post sobre as dificuldades de Pequim em fazer essa mudança de forma substantiva.

Internacional

Tá tudo dominado. O mercado chinês de veículos elétricos está passando por uma guinada global. O mercado doméstico está marcado por uma acirrada guerra de preços, combinada com cortes nos subsídios do governo. Com isso,  os fabricantes passaram a buscar uma solução alternativa e focaram em exportações. O rest of the world mostra como os fabricantes chineses estão “inundando” mercados globais, que vão de locais como São Paulo a Dubai. A reportagem fala que essa virada de chave fez  com que as exportações de veículos elétricos chineses  aumentassem cerca de 70% em 2025, para 3,43 milhões de EVs. Essa pressão competitiva doméstica está levando muitas marcas a buscar sobrevivência no exterior, onde a combinação de preço baixo e escala de produção chinesa está reconfigurando a indústria automotiva global, forçando rivais e cadeias de suprimentos a se adaptarem rapidamente a uma China que agora domina a eletrificação mundial.

Pode pedir no Fantástico. O que a derrubada de (mais) um presidente do Peru tem a ver com a China? Mais do que se imagina. O presidente José Jeri estava há apenas 4 meses no emprego novo quando foi acusado de ser “moralmente incapaz” de exercer o seu cargo após o início de uma investigação sobre corrupção. Jeri era presidente do Congresso e atuava como presidente interino desde outubro, após a saída de Dina Boluarte (que não possuía vice-presidente). A investigação sobre corrupção começou após diversas reuniões extra oficiais tarde da noite com o empresário chinês Zhihua Yang, que possui diversas lojas no país e possui também a concessão para um projeto de hidrelétrica. O escândalo iniciou porque as reuniões não foram registradas no Portal da Transparência e ganhou o apelido de “Chifagate” – chifa é um termo para se referir à culinária sino-peruana. O encontro de Jeri e Yang vazou em vídeos meio suspeitos em que o então-presidente aparece de óculos escuros ou com um casaco com capuz. A versão inicial era de que a reunião fora no contexto de evento da amizade entre Peru e China, mas a Embaixada da China no país desmentiu. Jeri também ofereceu ingressos VIP para muitos representantes chineses que possuem contratos com o Estado para uma festa de final de ano de alto nível (inclusive Yang).

Sociedade

Livre apenas aos 98 anos. Na segunda-feira 9 de fevereiro, Jimmy Lai recebeu a sentença mais longa já proferida em um caso julgado em Hong Kong sob a Lei de Segurança Nacional: 20 anos. O dono do extinto jornal Apple Daily havia sido condenado em dezembro pela publicação de materiais sediciosos e por colaborar com estrangeiros contra a segurança nacional. Outros seis ex-editores e ex-jornalistas do Apple Daily receberam sentenças de seis anos a uma década. O desfecho do caso despertou muitas reações; críticos apontaram que a pena significa prisão perpétua para Lai, que tem 78 anos, e diversos jornalistas e órgãos defensores da liberdade de imprensa especulam que o caso deve deteriorar ainda mais a atuação dos profissionais de mídia no território. Em reação ao anúncio, o governo britânico declarou a expansão do programa de imigração para nativos de Hong Kong por mais cinco anos.

Do outro lado, o chefe executivo da região John Lee afirmou que a pena foi “profundamente gratificante” e um editorial no estatal China Daily declarou que o caso, julgado sob uma lei imposta por Pequim sobre Hong Kong em 2020,  foi uma demonstração de “independência judicial e do espírito do Estado de Direito”. Enquanto isso, juristas de Macau, outra região administrativa especial chinesa, discutem como a implementação da LSN em seu território viola a constituição local. 

Ele é o momento. Não teve os shows de sucesso na China como teve em São Paulo, mas logo na esteira da vitória no Grammy com o álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS (DtMF) e antes do Super Bowl – o cantor Bad Bunny (Benito para os íntimos ou 坏痞兔 huài pi tù em mandarim) também bombou em terras chinesas. O mercado notoriamente pouco adepto para cantores de fora do leste asiático recebeu o novo álbum de Bad Bunny com carinho e a canção DtMF levou ao topo do top 100 em fevereiro na Apple Music. Além disso, pelo visto está apoiando a onda toda de uma geração de jovens chineses a aprender espanhol. Viralizou no TikTok e no Instagram também o vídeo de um professor de canto conhecido como Master Wen nas redes ensinando idosos chineses a dançar o hit que dá nome ao álbum. Não tem China nos planos de shows do cantor, mas ele vai fazer sua estreia na Ásia com um show no Japão em março. Isso que é soft power, né?

Zheng He

Tem um custo: a pandemia incentivou o modelo “dark kitchen” na nossa alimentação – estabelecimentos que existem apenas para cozinhar para o delivery. O resultado é que muitas vezes a segurança dos alimentos fica comprometida, como conta o texto no Elephant Room sobre a situação na China, onde o governo publicou novas regulações para as dark kitchens no final de 2025. 

Tik Tok é coisa do passado: a ByteDance é agora responsável por uma nova sensação do momento, o Seedance 2.0. A ferramenta de IA da empresa chinesa inundou as redes com cenas improváveis geradas por IA, como Tom Cruise e Brad Pitt em combate e  Trump enfrentando lutadores de kung fu. Essas e outras cenas vieram do Seedance. 

Uma fase chinesa: a internet vive uma fase em que “becoming Chinese” ganhou reportagens, memes, stories e mudanças sérias de hábitos como trocar água gelada por água quente. Entenda o que esse viral significa e como o soft power chinês tem surfado essa onda. 

Entre medo e fascínio: vale um belo cafezinho para ler este texto e entender como o espelho cultural dos EUA revela tanto sinofobia quanto uma estranha admiração pela China.

 

O documentário Spring After Spring conta a história de três irmãs da diáspora chinesa em Vancouver e como a mãe delas ajudou a preservar a tradição da dança nas celebrações do Ano Novo Lunar.