Fotografia em cores de um celular na mão de uma pessoa; o aplicativo aberto no celular é o DeepSeek.

Foto de Solen Feyissa via Unsplash.

Edição 397 – Rodada de investimento para o DeepSeek

Política e economia

Esse foi fundo. Segundo relatos (não confirmados pela Reuters), a startup queridinha da galera DeepSeek fez história na sua primeira rodada de captação externa – conhecida como Série A. No começo de junho, a estimativa divulgada na NeoFeed falava em expectativa de captação de 50 bilhões de yuan (em torno de 7,4 bilhões de dólares) – o que, segundo o Pandaily, foi o que de fato ocorreu na conclusão da rodada no dia 16. Ela se torna a startup de IA chinesa mais bem avaliada, no caso em 400 bilhões de yuan (51 bilhões de dólares). Os valores “normais” de uma Série A nos EUA, em média, ficam nos 20 milhões de dólares, ainda que os hypados do mundo de IA sejam outro universo. Por exemplo, a OpenAI recebeu 1 bilhão de dólares na Série A há alguns anos atrás e quebrou alguns recordes nas fases seguintes. A matéria da NeoFeed também conta como a DeepSeek ainda não anunciou planos para abrir um IPO e como a sua fama surfou na lógica de baixos custos – e agora há maior demanda por altos gastos com o desenvolvimento de IA agêntica.

Além do valor altíssimo, chamou atenção no relato a estrutura de governança desses fundos. Sob a liderança do fundador Liang Wenfeng, o dinheiro não vai diretamente para a DeepSeek, mas sim um novo ente jurídico. Ademais, boa parte dos investidores não terá poder de voto de forma a proteger a empresa (e Liang) de futuras mudanças. As matérias relatam que o fundador colocou 20 bilhões de yuan do seu próprio dinheiro. E o destaque fica que o Fundo Nacional de Indústria de IA – do estado chinês – que colocou 1 bilhão de yuan na startup. Os principais investidores são a Tencent Holding, JD.com, NetEase e surpreendentemente a CATL (de baterias).

Internacional

Sem cabo para você. Em uma história muito surreal, o ministro do transporte e das comunicações do Chile perdeu o visto para os Estados Unidos por conta de negociações com a China sobre um cabo submarino, conta esta matéria da Rest of World. O plano era conectar a América do Sul a Hong Kong de forma direta com um novo cabo submarino, algo que estava em negociação no último ano. Contudo, em fevereiro de 2026, o então ministro Juan Carlos Muñoz e mais dois funcionários de alto nível foram informados que os seus vistos diplomáticos para os EUA foram cancelados sob o argumento de atividades que ofereciam perigo à infraestrutura crítica na região. Eles estavam analisando uma proposta da estatal China Mobile de um cabo de 500 milhões de dólares, que avançava nos trâmites. O ex-presidente Gabriel Boric deu um basta na proposta após tensões com o governo dos EUA. O desafio agora é do novo governo de José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março. No discurso, Kast é bastante alinhado à Trump, ainda que queira manter boas relações com a China. 

O Reino Unido condenou dois homens por espionagem para a China. Os cidadãos sino-britânicos Chung Biu “Bill” Yuen, e Chi Leung “Peter” Wai, ex-trabalhadores do serviço de fronteiras britânico, teriam monitorado as atividades de exilados honconguenses pró-democracia entre 2023 e 2024. A prisão de ambos ocorreu após uma tentativa frustrada de sequestrar Monica Kwong em sua casa em maio de 2024, operação que envolveu um terceiro cidadão britânico, Matthew Trickett, que foi encontrado morto no mesmo ano; Kwong é acusada em Hong Kong de desvio de fundos da empresa para a qual trabalhava. Yuen deve cumprir oito anos de prisão; Wai cumprirá dez anos, condenado também por usar suas credenciais profissionais para acessar dados pessoais dos alvos da espionagem. Esse é o primeiro caso de condenação de pessoas acusadas de espionagem para a China em solo britânico. Segundo a Embaixada chinesa em Londres, as acusações britânicas são caluniosas.

Sociedade

Aqui e na China, a vida das mulheres não é fácil. O jornal britânico The Guardian publicou uma série de quatro reportagens sobre as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres chinesas, mas também sobre as formas como elas mesmas têm respondido e tomado a agência de suas vidas. Um dos tópicos presentes na série de reportagens, como tinha de ser, é a questão dos casamentos forçados e dos abusos. O texto, o terceiro da série, fala sobre como ativistas chinesas têm agido nas sombras para proteger e resgatar vítimas de casamentos forçados. O primeiro dos quatro textos adota um tom de esperança, com foco na agência das mulheres e na história de Chengdu, que tem, cada vez mais, espaços exclusivos para elas. Sem dourar a pílula, mas apontando para saídas, a última publicação da série fala sobre como o humor tem sido um bálsamo para lidar com dificuldades. 

Uma agulha no palheiro. Num momento em que as condições climáticas e ambientais nos enchem de ansiedade e apreensão, sinais positivos vêm da recuperação do rio Yangtze, na China, um dos mais importantes do país e um dos mais longos do mundo. Há um ano, o TV Al-Jazeera tinha feito uma reportagem sobre esse processo. Estudos independentes e, claro, o próprio governo chinês, mostram que a situação melhorou em 2026, sobretudo graças ao banimento de pesca. Mas vale lembrar que mora no rio a usina das Três Gargantas, projeto de mega hidrelétrica que coleciona críticas ambientais. Para quem quer entender melhor a importância e os problemas do Yangtze para além do factual, o diretor chinês Jia Zhangke fez dois filmes brilhantes que contam as mudanças que a usina trouxe à região e à sua população em Still Life (2006) e Caught by the Tides (2025).

Zheng He

Chá ou café: este longo texto no Elephant Room vai até a província de Yunnan – terra do café na China e do chá pu’er – para aprender sobre plantações e origens do mundo do chá e do café. Prepare um chá ou um cafezinho para ler.

Devagar: em terra de trens rápidos, quem ainda pega os trens antigos e demorados (e baratos) na China? Este pequeno documentário entrevista pessoas durante o feriadão do Ano Novo Lunar. A versão transcrita para o inglês está aqui.

IAIAIAI: Um artigo recém-publicado por pesquisadores de Hong Kong e Estocolmo indicou que o uso de inteligência artificial acelerou e melhorou a execução de lição de casa de estudantes chineses – mas chegou a derrubar as notas nas provas em até 20%.

Análise: este artigo do Made in China Journal traz uma reflexão sobre a história da cientista Joan Hinton, que nasceu nos EUA e se mudou para a China em 1948 e se tornou uma grande amiga do regime maoísta. A figura de Hinton foi usada como garota propaganda do comunista e o texto reflete sobre quão integrada de fato foi a experiência dela e sua família no país.

 

Vídeo da Folha de S. Paulo sobre a história em quadrinhos Meus Fantasmas, uma autobiografia de Tessa Hulls. Apesar do nome, a premiada HQ de Hulls conta a história da avó chinesa que fugiu para Hong Kong durante a Revolução Cultural, da sua mãe que emigrou para os EUA e dela própria. O livro acaba de ser lançado no Brasil.