Foto de estátua da deidade taoísta chinesa que atrai fortunas – um homem de cavanhaque, com trajes coloridos, portando um lingote de ouro.

Foto de Fenghua via Unsplash.

Edição 377 – China quebra recorde mundial de exportações, atingindo U$ 1 trilhão de superávit

Política e economia

Em uma guinada surpreendente em um ano de guerra comercial, a economia chinesa reforçou suas vendas internacionais, atingindo um recorde mundial: entre janeiro e novembro deste ano, o país acumulou um superávit comercial de US$ 1 trilhão (R$ 5,4 trilhões). A interpretação feita em uma reportagem do South China Morning Post é de que Pequim conseguiu se antecipar ao tarifaço imposto por Donald Trump e demonstrar resiliência econômica. A CNN também traz uma reportagem detalhada mostrando como a administração de Xi Jinping conseguiu fazer do limão uma limonada. O aumento de importações e exportações segue na meta do governo chinês para 2026, e a recente trégua comercial entre os países e as promessas de encontros no ano que vem entre Xi e Trump devem contribuir para mais sucesso. Neste fim de semana, Han Wenxiu, vice-diretor do Escritório-Geral da Comissão Central de Assuntos Financeiros e Econômicos, afirmou que o país seguirá com foco firme em comércio, apesar do cenário internacional adverso. 

Apesar da boa notícia no comércio, a economia doméstica não está tão bem assim. Nas últimas semanas do ano, Pequim estabeleceu um prazo para que os governos locais quitem os pagamentos devidos a empresas. A medida é  considerada essencial para a melhora do ambiente de negócios nacional em meio à desaceleração econômica do país. Débitos inferiores a 500 mil yuans devem ser pagos até o fim do ano, segundo autoridades econômicas que classificaram a quitação dessas dívidas como um “mínimo moral”. A orientação foi reiterada em conferências econômicas recentes, incluindo o encontro anual de trabalho econômico do Partido Comunista e do Conselho de Estado, que defendeu o aceleramento dos pagamentos devidos às empresas, especialmente às pequenas e médias (PMEs). 

O problema é antigo e afeta sobretudo o setor privado, que enfrenta dificuldades para receber por serviços prestados a governos locais e empresas estatais, em um contexto de desequilíbrios fiscais e complexas dívidas cruzadas entre empresas, governos e bancos. Para enfrentar a questão, Pequim vem reforçando a supervisão e aprovando novas normas, como a Lei de Promoção da Economia Privada, adotada em abril deste ano, e regras que obrigam grandes empresas a pagar PMEs em até 60 dias. As iniciativas buscam fortalecer um setor que responde por parcela significativa do PIB, do emprego urbano e da inovação no país, mas que há anos reclama de acesso limitado a mercados, favorecimento às estatais e aplicação arbitrária de sanções por autoridades locais. Nesta reportagem da Caixin, é possível notar a dificuldade econômica e o ambiente de negócios em baixa a partir da observação de que os mega edifícios da gigantesca Shenzhen têm uma série de escritórios vazios.

Internacional

A força da tua inveja é a velocidade do meu sucesso. Nesta segunda-feira (8), o governo de Donald Trump anunciou que autorizará a venda dos chips H200 para inteligência artificial da Nvidia para algumas empresas chinesas. Assim como aconteceu com os H20 em setembro, uma condição é o pagamento de uma taxa sobre os lucros das transações – desta vez, de 25%, ao invés dos 15% dos H20. A notícia animou o mercado, levando a um aumento de 2% nas ações da Nvidia; no entanto, analistas especulam que as big techs chinesas talvez até estejam interessadas, mas Pequim tem motivos para não abraçar a oferta: como tanto o czar de IA da Casa Branca quanto o estatal China Daily apontaram, as tentativas estadunidenses de reter microprocessadores para sabotar o desenvolvimento chinês levaram a um salto tecnológico do país. Hoje, os modelos chineses de IA já conquistam 30% do mercado global. Como observou o fundador da Huawei Ren Zhengfei em um discurso feito em novembro, a estratégia da China para essa tecnologia é gerar valor lidando com problemas reais, enquanto empresas estadunidenses gastam bilhões no desenvolvimento de modelos proprietários para lidar com questões especulativas. 

Parceiros até na Lua. Acumulando mais um setor para a já importante parceria entre o Brasil e a China, os dois países acabam de iniciar a construção de um laboratório conjunto de tecnologias espaciais.  O acordo foi firmado entre o Instituto de Pesquisa em Comunicações de Rede da estatal chinesa CETC e as universidades federais de Campina Grande e da Paraíba. A previsão é de que seja criado o Laboratório Conjunto China–Brasil de Tecnologia em Radioastronomia, voltado a pesquisas de ponta em observação astronômica e exploração do espaço profundo. A iniciativa ocorre em contraste com a pressão recente dos Estados Unidos sobre países latino-americanos para reduzirem vínculos com a China no setor espacial. Enquanto projetos chineses de telescópios no Chile e na Argentina foram congelados, o Brasil avança com o BINGO, que promete  ser o maior radiotelescópio da América do Sul, e deve ser concluído em 2026. Entre as previsões de uso para o equipamento está o monitoramento de satélites e de objetos próximos à Terra, tema que tem alimentado preocupações estratégicas em Washington sobre o uso dual dessas tecnologias.

As tensões entre Japão e China ganharam novos capítulos. Nesta semana, caças japoneses foram acionados para monitorar uma patrulha aérea conjunta entre Rússia e China nas imediações de Okinawa, operação que Tóquio descreveu como uma clara “demonstração de força”. Mas, como tem acontecido com frequência nas últimas semanas, a escalada não ficou restrita ao campo militar. Acabou sobrando até para Hayao Miyazaki e o Studio Ghibli: uma grande exposição dedicada ao diretor foi adiada em Guangzhou, somando-se ao cancelamento de shows, lançamentos de filmes e outros eventos culturais japoneses na China, transbordando tensões diplomáticas para o cotidiano de ambos os países.

Visto para a Índia. Depois de anos de relações esfriadas, Nova Délhi deu um passo interessante para reaquecer as relações com Pequim. O governo indiano recentemente acelerou o processo de emissão de vistos para negócios de profissionais chineses, reduzindo o tempo de espera e eliminando camadas burocráticas. O gesto acontece num momento em que a Índia recalibra sua política externa diante das tarifas impostas por Donald Trump, tenta preservar sua estratégia de diversificação comercial “China +1” e, ao mesmo tempo, sinaliza aos investidores estrangeiros que o pragmatismo econômico começa a falar mais alto do que os impasses geopolíticos. Na semana retrasada, comentamos aqui como os dois países já estavam num processo lento de reabrir linhas diretas de vôos e outros ensaios de parceria.

Sociedade

A desapropriação feminina. O relato de mulheres dizendo que se sentem “inadequadas” é comum em culturas do mundo todo. Em seu texto para a série Being chinese (Ser chinês), do SCMP, Audrey Jiajia Li conta como em seu país meninas ainda são educadas desde cedo a serem “apropriadas”. Em outras palavras, isso significa que elas têm de  ouvir mais do que liderar e falar baixo em vez de ocupar espaço, por exemplo. Mas a boa notícia é que  esse padrão é cada vez mais questionado. A escritora chinesa Jiang Fangzhou, que voltou à cena pública após anos de silêncio, simboliza essa virada ao recuperar conscientemente sua voz por meio de um podcast literário autoral (aqui, em mandarim), no qual conduz o debate e define a agenda. Inspirando-se em Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf, Jiang vai além ao defender que mulheres não precisam apenas de um espaço privado, mas de um espaço público próprio — um lugar de fala que elas mesmas constroem. Em uma cultura patriarcal que valoriza a docilidade feminina, sua trajetória ecoa um movimento mais amplo: o de mulheres que deixam de esperar permissão, recusam o silêncio como virtude e passam a falar em seus próprios termos.

Se incentivos não bastam, vamos aos desincentivos. A partir da virada do ano, contraceptivos serão taxados em até 13% na China, deixando de ser isentos de impostos aplicados a outros produtos de valor agregado. A decisão de reverter a exceção que esteve em vigor por mais de 30 anos foi tomada em dezembro de 2024, mas voltou a receber atenção nas redes sociais e na mídia internacional agora que deve entrar em vigor. Especialistas alertam para um possível aumento nos casos de infecções sexualmente transmissíveis e de gestações indesejadas; mas o motivo da taxação parece óbvio para muita gente: reverter a tendência de queda no número de nascimentos e casamentos no país, que parece resistir a todo tipo de incentivo financeiro. O mais recente desses estímulos foi anunciado neste sábado (13): o governo chinês passará a cobrir integralmente os custos diretos do parto.

Zheng He

Opinião polêmica: em um artigo de opinião para o The Diplomat,  o analista Owen Au defende, à luz do incêndio recente em Hong Kong, que a governança na cidade não está se tornando igual à da China continental, mas sim pior, pelo vácuo causado pelo modelo Um país, dois sistemas.

No limite: um reality chinês sobre sobrevivência fala sobre a extrapolação dos limites dos participantes, de quem produz e quem assiste. O programa, acompanhado por milhões enquanto pessoas passam dificuldades nas montanhas de Hunan, virou assunto de controvérsias e teve sua temporada cancelada.

Sinal vermelho: está em fase de treinamento em Hangzhou um robô guarda de trânsito, numa parceria entre o governo local e o pujante cenário de tech na cidade. A matéria da Radii conta como o Hangxing N°. 1 está se saindo no emprego. A ideia é expandir para uma tropa de agentes de trânsito robôs.

 

A BBC World Service investigou “escolas” chinesas de disciplina militar que buscam “reabilitar” jovens rebeldes – crianças, adolescentes e até adultos que matam aula, fumam ou são LGBTQIAP+, por exemplo. A dinâmica é muito similar ao que ocorria em centros de reabilitação contra o vício em internet, encerradas pelo governo em 2009: as pessoas são sequestradas e expostas a isolamento, violências e humilhações