Foto de Júlia Rosa.
Edição 379 – O que você perdeu sobre China desde dezembro

Clima tenso nos altos escalões. O combate à corrupção segue sendo tendência. O expurgo começou cedo e segue avançando no coração do complexo militar-industrial chinês. Nesta semana, o Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CPPCC) confirmou a remoção de oito integrantes do órgão, entre eles quatro ex-presidentes e executivos de peso de estatais ligadas à defesa, aviação, satélites e armamentos. A exclusão foi feita por revogação de mandato e não por renúncia, sinalizando suspeitas graves de violações disciplinares ou corrupção, ainda que nenhuma acusação formal tenha sido anunciada até agora. A lista inclui nomes centrais para a estratégia tecnológica e militar de Pequim, como o ex-chefe da Aero Engine Corporation of China, peça-chave na busca por motores aeronáuticos autóctones, e o ex-presidente da China Satellite Network Group, criada para rivalizar com a Starlink americana. Pelo jeito, tudo indica que a campanha anticorrupção de Xi Jinping não vai alcançar apenas as forças armadas, mas bate na porta também fornecedores estratégicos e setores de alta tecnologia.
Girando a economia apesar das birras. Em um pano de fundo de alívio nas tensões comerciais com Washington, o yuan foi fixado pelo Banco Central chinês no nível mais forte frente ao dólar em mais de um ano, se aproximando novamente da simbólica barreira dos 7 yuan por dólar. A valorização, sustentada pela trégua comercial sino-americana e pela redução de juros, ocorre ao mesmo tempo em que Pequim tem apostado em cotas, tarifas e diversificação de fornecedores pelo resto do mundo. No agro, isso ficou claro em duas frentes com os anúncios das últimas semanas. A China apertou o controle sobre a importação de carne bovina ao impor cotas tarifárias, onde volumes dentro do limite seguem com tarifa padrão, enquanto o que ultrapassar a cota enfrenta uma sobretaxa pesada de até 55%. A medida ainda não mexeu nos preços, mas já acendeu o alerta para o Brasil visto uma possível antecipação de embarques ao longo de 2026, num movimento clássico de exportadores correndo antes que a tarifa mais alta entre em cena. De outro lado, Pequim bateu recorde de importação de soja em 2025, ampliando compras no Brasil e na Argentina como estratégia de redução de risco ainda durante o auge da guerra comercial com os EUA, antes de retomar parcialmente as aquisições norte-americanas após as negociações de outubro.
As chamas do Wang Fuk Court não ardem mais, mas há muito a ser feito em relação ao incêndio que paralisou Hong Kong no final de novembro. Nesta semana, após a identificação dos últimos restos mortais pendentes, o número final de vítimas humanas chegou a 168. Entre os ex-moradores sobreviventes, o desafio é chegar a um acordo com o governo sobre as propostas de realocação. Mudanças regulatórias começaram a ser propostas no primeiro encontro do Conselho Legislativo, na quarta-feira (14); elas vão da criação de um órgão dedicado à fiscalização de reformas ao banimento total de cigarros em construções e mais oportunidades para que donos de imóveis participem de decisões sobre as obras. No caso do Wang Fuk Court, a omissão dos moradores não foi um problema: como relata esta comovente reportagem do The New York Times publicada no final de dezembro, muitas denúncias foram realizadas e ignoradas ao longo dos últimos anos.
Sem um entendimento sobre o que causou a tragédia, é difícil entender como ela poderia ter sido evitada. Outros países e territórios estão atentos para aprender com o episódio: membros do Parlamento de Singapura têm acompanhado os relatórios do governo de Hong Kong para definir como melhorar suas próprias regulações para o setor. Enquanto não há respostas, o governo honconguense atua no que já é de conhecimento: a corrupção no setor. Nos primeiros dias de 2026, 21 pessoas associadas a tríades locais foram presas por coordenarem esquemas de manipulação de contratos de reforma.

Se a gente esperava um começo de ano tranquilo, não foi o que aconteceu. Em 3 de janeiro, militares dos Estados Unidos invadiram a Venezuela em uma missão clandestina, bombardearam Caracas, deixaram mais de 100 mortos e sequestraram o presidente Nicolás Maduro, que foi levado para Nova York para julgamento – junto com a sua esposa. Pequim, um dos poucos vocais aliados do governo venezuelano, e Moscou deram declarações no mesmo dia, condenando as ações dos EUA. O governo chinês se declarou chocado com o claro uso de força de um país contra outro e uma flagrante violação do direito internacional. No dia 04, domingo, o ministro das relações exteriores Wang Yi falou com a imprensa sobre a invasão e criticou que países achem quem podem ser policiais ou juízes do mundo. Uma série de declarações foram feitas nos dias seguintes pela porta-voz de Pequim. O governo da Venezuela, via vice-presidente (e agora presidente interina) Delcy Rodriguez agradeceu a Pequim pelas palavras e já se reuniu com o embaixador chinês em Caracas, Lan Hu. A preocupação também cobre a questão da importação de petróleo – que, ao que tudo indica, seguirá fluindo sem maiores dramas.
O texto de Jacob Mardell para o The Diplomat analisa o que os intelectuais chineses estão falando na mídia ou nas redes sociais sobre a invasão – e, de modo geral, a discussão tem sido bem branda. Mesmo aqueles nacionalistas mais vocais estão criticando os Estados Unidos, mas são pouco enfáticos sobre qual o papel da China na situação; apareceram também críticas/comparações com as ações russas na Ucrânia. Vale ler este e também a discussão entre especialistas no ChinaFile.
BYD construiu seus sonhos. A ultrapassagem da BYD sobre a Tesla como maior vendedora de carros elétricos do mundo em 2025 deixou de ser sobre automóveis e passou a ser muito mais sobre geopolítica e política industrial em tempo real. Enquanto a empresa de Elon Musk sentiu o baque da retirada de subsídios a veículos elétricos nos EUA e de um ambiente regulatório cada vez menos amigável, a chinesa seguiu acelerando, apoiada por um ecossistema que combina escala, competição doméstica feroz e integração de tecnologias. O dado simbólico aqui é que o carro elétrico deixou de ser apenas uma aposta tecnológica e virado talvez um termômetro de capacidade estatal. Na China, transição energética, inovação e mercado parecem estar caminhando juntos com as políticas estatais; no Ocidente, a discussão por enquanto oscila entre incentivos que vão e vêm, disputas políticas internas e a esperança de que IA e robótica compensem a perda de terreno industrial.

Vitória (por enquanto). Na província de Guizhou os moradores conseguiram, ao menos temporariamente, barrar tentativas do governo local de impor a cremação obrigatória em substituição aos enterros tradicionais. Desde novembro, residentes de áreas rurais passaram a vigiar cemitérios, confrontar autoridades e bloquear acessos após relatos de que funcionários tentavam exumar corpos já enterrados. Embora a cremação seja prática consolidada nas cidades chinesas, sendo, inclusive, defendida pelo Estado como mais “moderna”, econômica e eficiente no uso da terra, em muitas regiões rurais o sepultamento segue sendo um ritual central de respeito aos mortos. O episódio ocorre num contexto de aumento de protestos locais desde 2025, impulsionados por crises econômicas, desemprego, e pressões fiscais sobre os governos regionais.
Não mostrem isso para o Felca. Provavelmente todo mundo aqui já passou por aqueles filmes curtos na vertical que prendem sua atenção por longos minutos e você não tem a menor ideia de onde continuar assistindo. Pois bem, a China deu um passo largo para apertar o regulação sobre este tipo de conteúdo, desta vez mirando justamente no boom desses ultrashort (como são chamados), protagonizados por crianças. A Administração Nacional de Rádio e Televisão, órgão responsável por esse setor, publicou novas diretrizes que proíbem a chamada “adultificação” de atores mirins, vetando roteiros que coloquem crianças em papéis de CEOs autoritários, personagens manipuladores ou tramas baseadas em rivalidades artificiais e conflitos extremos. A medida responde ao crescimento acelerado desse tipo de conteúdo em plataformas como o Douyin, e a preocupações públicas sobre jornadas de trabalho excessivas, exploração comercial e o descompasso entre os temas encenados e a experiência real das crianças.
É impossível ler isso e não fazer um paralelo com o caso recente que ganhou força no Brasil depois das denúncias feitas pelo influenciador Felca sobre a exploração de crianças na produção de conteúdo digital no Brasil, ou a decisão da Roblox de remover o chat de voz para menores após críticas envolvendo exposição indevida e riscos de interação não supervisionada. Mais do que um debate moral, o movimento revela como Pequim enxerga o setor de entretenimento digital: não apenas como indústria criativa, mas como espaço formador de valores sociais. Ao exigir consentimento formal dos responsáveis, coibir taxas abusivas de “treinamento” e reforçar a necessidade de conteúdos educativos e ancorados na realidade, o governo sinaliza que a lógica de viralização não pode se sobrepor à proteção infantil.
GOV.br é você? A nova tendência na China poderia ser copiada pelo INSS. O app Sileme, que possivelmente faz um trocadilho com o nome Eleme do aplicativo de entregas e que em mandarim significa perguntar “você está com fome?” (e também como uma versão de “tudo bem?”) pode ser traduzido como “você ainda está vivo?” e tem uma função bem simples: verificar se pessoas que moram sozinhas estão vivas, através de um check-in diário e notificação para um contato de emergência em caso de não resposta. O Sileme viralizou no começo do ano e análises explicam a popularidade em meio a um contexto de crescente aumento de residências de apenas uma pessoa. Como plano de negócio, a equipe de desenvolvedores do aplicativo (todos Gen Z) pretende melhorar o sistema de notificações e as funcionalidades para o público idoso, conta Zeyi Yang para a Wired. Infelizmente, eles decidiram também mudar o nome do aplicativo de Sileme para Demumu, que era o seu nome internacional, em uma tentativa de tirar um suposto desconforto e atrair mais usuários, inclusive de outros países.

X也: vem aí um caractere Unicode (U+323BF) para representar o pronome neutro em escrita chinesa. Isso pode facilitar um pouco a vida de pessoas queer, ao menos quando se comunicam por chinês escrito. Já falamos sobre o assunto aqui.
Retrospectiva das telas: o Sixth Tone fez uma análise de como foi o público dos cinemas chineses em 2025. Os espectadores compareceram bastante para ver filmes na telona, mas algumas preferências parecem estar mudando – inclusive com crescente força dos filmes que ganham popularidade no boca a boca.
Decoração: o trabalho em ferro nas casas era comum em terras brasileiras antes da padronização da arquitetura da última década, e pelo visto o alinhamento Sul-Sul também se deu nessa pauta. Este post da Radii mostra obras muito legais, inclusive com caracteres chineses e que infelizmente também estão se perdendo na China.
Ano do cavalo: falta otimismo para o novo calendário, seja ele gregoriano ou lunar. Essa foi a sorte de uma fabricante que acidentalmente inverteu o focinho de um cavalo de pelúcia, transformando a versão infeliz do representante do ano em um sucesso que jamais seria atingido por um equino feliz.
Uma alcatéia de leões e dragões dançantes baixaram em Hong Kong para um festival nos primeiros dias de 2026. Grupos de diversos países demonstraram suas técnicas e contaram histórias por meio de música e acrobacias, sob o olhar avaliador de juízes.
