Foto de Saradasish Pradhan via Unsplash/,
Edição 384 – Trump e Xi entre IAs e chips de Taiwan

Governança global com selo Xinhua. A Xinhua lançou em Genebra um relatório defendendo o que chama de “solução chinesa” para a governança global. O documento sistematiza a Global Governance Initiative apresentada por Xi Jinping em 2025 e organiza a proposta em cinco pilares: igualdade soberana, primazia do direito internacional, multilateralismo, foco nas pessoas e ação concreta. Segundo o texto, o mundo atravessa um período de turbulência marcado por unilateralismo, protecionismo e falhas crescentes no sistema internacional, o que exigiria reformas para fortalecer a ONU e torná-la mais representativa. Na prática, o relatório reforça uma linha já conhecida da diplomacia chinesa: criticar hegemonias, defender a centralidade das Nações Unidas e apresentar Pequim como voz do Sul Global e provedora de bens públicos. Mais do que um exercício intelectual, a publicação funciona como uma peça de posicionamento estratégico.
Eles só pensam naquilo. O ano novo lunar na China também tem política e torta de climão. Pelo menos é o que esta reportagem da BBC mostra sobre o assunto que movimenta os jantares da principal celebração do ano: casamento e filhos. No mês passado, Pequim divulgou que o país atingiu um novo recorde de baixa na taxa de natalidade do país: 5,63 nascimentos por mil habitantes, o nível mais baixo desde 1949, quando o Partido Comunista Chinês chegou ao poder. O Escritório Nacional de Estatísticas anunciou o nascimento de 7,92 milhões de chineses no ano passado, abaixo do esperado. Além disso, pela quarta vez seguida, o número de mortes superou os nascimentos e a população total encolheu em 3,4 milhões de habitantes. Além da pressão familiar nos jantares festivos para que os jovens sigam se reproduzindo, o governo tem tomado medidas controversas como elevar impostos para camisinhas e pílulas contraceptivas. Isso, claro, gerou preocupação com a possibilidade de que doenças sexualmente transmissíveis cresçam no país.

Vai ser no improviso. Faltando poucas semanas para um provável encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, alguns canais afirmam que os preparativos estão aquém do esperado. Segundo fontes familiares com o processo, há poucos canais bilaterais ativos, coordenação limitada em Washington e risco de entregas frágeis, tudo comprimido em um cronograma acelerado. Parte do problema, apontam ex-oficiais, estaria no estilo de Trump: avesso a delegar e pouco afeito a processos longos, ele aposta mais em negociação direta e “instinto” do que em meses de engenharia diplomática. O contraste cultural também pesa: Pequim prefere encontros meticulosamente roteirizados, enquanto a Casa Branca, especialmente sob Trump, tolera mais improviso. Para especialistas, a China vê no encontro uma oportunidade estratégica; o lado americano, ao menos até aqui, parece menos engajado em fazer algo acontecer de fato.
Robô que rouba robô… Depois da OpenAI, agora a Anthropic está acusando a chinesa DeepSeek de roubar enormes quantidades de dados para treinar o seu modelo, conta o The Guardian. A empresa dos EUA acusa mais duas firmas chinesas: a Moonshot AI e a MiniMax – dizendo que as três teriam adquirido dados de forma ilícita pelo bot Claude da Anthropic. Assim, as empresas teriam reduzido seus custos ao usar milhões de contas falsas para puxar respostas do Claude e rotear o treinamento para outras regiões, circunavegando as limitações do uso de chips da Nvidia em território chinês. Recentemente, a OpenAI reforçou as acusações à competidora DeepSeek sob a expectativa de algum anúncio bombástico da startup chinesa na época do Ano Novo Lunar, e provavelmente para minar o seu acesso a chips da Nvidia, como analisa esta matéria da Rest of World. No fim, parece que o medo vinha também de outro lugar: a Reuters informou na terça (24) que a DeepSeek usou os novos chips do modelo Blackwell para treinamento dos seus produtos – apesar do banimento de exportação dos EUA. Todos os envolvidos, até a Embaixada da China, negaram a história.
De onde vêm os chips. A possibilidade de que Pequim invada Taiwan não é assunto de hoje nos jornais estadunidenses. Mas recentemente, o The New York Times publicou um texto alarmante envolvendo o estreito e a indústria de semicondutores. O jornal parte do pressuposto de que Taiwan é responsável pela produção de 90% dos chips de ponta, dos quais os EUA estão cada vez mais dependentes à medida que a inteligência artificial se torna o maior foco de investimento do país. Segundo uma análise de 2022 da Semiconductor Industry Association, caso Taiwan não possa mais fornecer os componentes, tanto estadunidenses quanto chineses estariam diante de uma crise comparável à Grande Depressão, derrubando indicadores econômicos em 11% e 16%, respectivamente. Diante dos números, ainda que nenhuma ação militar chinesa pareça estar à beira de ocorrer, o jornal julga que o Vale do Silício tem tratado do assunto de modo negligente, e que as tentativas de Joe Biden e de Donald Trump de reduzir essa dependência têm falhado. Será que isso vai mudar?

Wellness com características chinesas. Está crescendo na China continental uma rede de bares criada por estudantes da Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai, a Niang Qing. Nos estabelecimentos, o cliente passa por uma breve consulta com um médico especializado e recebe a indicação de um drink que mistura ervas e álcool – um ingrediente já previsto na prática tradicional, vale destacar. Segundo os responsáveis entrevistados, o bar atrai muitos jovens exaustos e cada vez mais estrangeiros, ambos interessados em uma forma diferenciada, mais “equilibrada” de socialização; o médico responsável pela unidade de Shanghai, no entanto, destaca que a proposta não é oferecer tratamentos, mas bem-estar. Talvez seja uma tendência, talvez seja apenas a multiplicação de uma única reportagem da Agence France-Presse; mas em Hong Kong, uma cafeteria também está oferecendo drinks baseados na TCM, como conta esta reportagem da Zolima. Quem sabe a tendência não vira produto de exportação?
Apostando contra o firewall. A plataforma cripto de mercados preditivos Polymarket está de olho na China, mesmo bloqueada pelo Grande Firewall. Segundo notícias, a empresa contratou uma equipe fluente em mandarim, prepara uma interface em chinês e passou a listar apostas temáticas ligadas ao Ano Novo Lunar, tudo numa tentativa de atender usuários que acessam o site via VPN. Não se tratou de um interesse simples, já que visitantes vindos da Ásia já movimentariam “centenas de milhões” de dólares por mês. O detalhe é que a China mantém proibições rígidas tanto a jogos de azar online quanto ao comércio de criptomoedas, e entidades offshore são formalmente impedidas de oferecer serviços cripto a residentes no país. Ainda assim, entusiastas compartilham estratégias e algoritmos em redes como o Xiaohongshu, tratando os mercados preditivos quase como extensão das finanças tradicionais. Oficialmente, a chance de a Polymarket operar legalmente na China é próxima de zero. Extraoficialmente, o apetite especulativo parece atravessar qualquer bloqueio.

Solar. A universidade de Yale publicou um ensaio fotográfico fascinante de Chu Weimin sobre a descomunal escala das instalações de energia solar na China. Seja porque você é nerd de fotografia e paisagem, ou seu interesse é voltado para energias renováveis, vale conferir.
Literatura. Can Xue, autora da obra que discutiremos no nosso Clube do Livro de Literatura Chinesa em 30 de março, concedeu uma entrevista à revista literária Quatro Cinco Um.
Esporte e política. Não é a primeira vez que Eileen Gu, atleta nascida nos EUA que decidiu competir pela China, chama atenção nas olimpíadas de inverno. Nesta edição dos jogos, ela responde a críticas que tem recebido dizendo que, enquanto estadunidenses odeiam a China, ela dá vitórias ao país asiático.
Irreal. É imperdível o trabalho do fotógrafo Zhang Xiao, que retratou cenários da China rural com foco folclórico, onírico e irreal. O Radii China fez um post sobre isso, mas vale conferir o site do artista e acompanhar seu perfil no Instagram.
A Gala do Festival da Primavera é sempre assunto de muitas análises, e neste ano as atenções (críticas e elogiosas) se voltaram todas para as apresentações de kung fu (a partir do minuto 4 do vídeo acima) realizadas por robôs humanoides. O tema da celebração foi “uma celebração emocionante da humanidade e do patrimônio cultural”.
