Fotografia em cores de criança tibetana lendo um livro que não está escrito em mandarim.

Foto de 和 平 via Unsplash.

Edição 386 – O projeto chinês de unidade étnica

Política e economia

Um bilhão de vozes? Em mais uma tentativa de forçar uma “união étnica”, o governo chinês aprovou uma controversa legislação que, na prática, obriga que todas as crianças chinesas sejam educadas em mandarim desde antes do jardim de infância até o fim do ensino médio – até então, era  possível que muitos alunos estudassem a maioria do currículo obrigatório em suas línguas nativas, como tibetano, uigur e mongol. A polêmica lei foi apresentada com o objetivo de “promover a integração” entre os 56 grupos étnicos reconhecidos no país. Críticos alertam para o risco de que a medida resulte num apagamento de línguas e culturas que compõem o que hoje é compreendido como o território chinês. A lei foi aprovada durante as “Duas Sessões”, principal reunião política do governo chinês. A BBC fez um texto sobre as motivações de Pequim para aprovação do projeto.

O tema é bastante problemático e aparece com bastante frequência aqui na newsletter. Para quem quiser se aprofundar mais, vale lembrar a série de ações do governo central contra a região autônoma de Xinjiang, cuja população é formada pela etnia uigur. Outro caso é o Tibet, também habitado predominantemente por outra minoria étnica, e cuja história remonta episódios de violência, resistência e busca por independência de Pequim. Vale ainda relembrar esta edição, na qual falamos sobre a multiplicidade que línguas presentes na China. 

Lá em 2022, o governo de Hong Kong decidiu que a cidade seria um hub de criptomoedas. Em junho de 2025, uma atualização da política até então vigente para os ativos digitais buscou acelerar o desenvolvimento de stable coins lastreadas na moeda local, algo visto com bons olhos por Pequim (que estuda fazer o mesmo com seu yuan) e avaliado como um movimento para competir com o cenário favorável a esse mercado nos EUA sob Donald Trump. Testes com as stablecoins foram iniciados em 2024 e, ao que tudo indica, HSBC e Standard Chartered devem ser licenciados para emissão ainda neste mês. Segundo o governo, 36 empresas se candidataram a ser emissoras, e a prioridade será dada a quem já faz parte do sistema monetário local, como esses dois bancos, que imprimem notas de dólar de Hong Kong.

Internacional

Soja, inspeção e diplomacia agrícola: Uma missão do Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil deve viajar à China entre 20 e 29 de março para discutir protocolos sanitários e fitossanitários ligados ao comércio agropecuário, em um momento de impasse envolvendo a fiscalização de cargas destinadas ao mercado chinês. Na última semana, a trading Cargill interrompeu temporariamente embarques de soja do Brasil após mudanças nos procedimentos de inspeção adotados para atender exigências sanitárias da China. Segundo relatos do setor, ao menos vinte navios carregados aguardam liberação nos portos, e outras tradings também enfrentam dificuldades operacionais. Para o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, o endurecimento das verificações busca garantir o cumprimento dos protocolos acordados com Pequim, especialmente após notificações chinesas sobre pragas e irregularidades em carregamentos brasileiros. O episódio ilustra como, mesmo em uma relação comercial extremamente consolidada, detalhes técnicos continuam sendo peças centrais na diplomacia agrícola.

A guerra é um bom negócio. Enquanto Pequim e Washington cuidam dos preparativos para a visita de Donald Trump a Pequim, Taiwan aguarda. Como acontece de tempos em tempos, embarcações chinesas se movimentam no Mar da China Oriental e animam especulações, a população taiuanesa segue sua vida normal e o governo trabalha: após a visita de Trump a Pequim, o estadunidense deve assinar um acordo de venda de U$14 (R$74,63) bilhões em armamentos para Taipei; uma parte da compra já foi aprovada por parlamentares de situação e de oposição do estreito, em um momento de rara união. Embora Taiwan já tenha sido muito dependente dos EUA para seus armamentos, hoje também é um fornecedor internacional de veículos aéreos usados majoritariamente para esse fim; seu maior argumento de vendas é o fato de não usar componentes “inteligentes” chineses e de estar a caminho de ser 100% livre de peças da China até 2027. Como revela esta análise do The Economist, a produção desse tipo de veículo foi de 10 mil unidades em 2024 para 120 mil em 2025, tendo quase tudo sido exportado; só neste começo de ano, foram 85 mil unidades despachadas. Os principais destinos são República Checa, Polônia, EUA e Alemanha; drones de Taiwan também são usados pela Ucrânia, que inspirou o desenvolvimento dessa indústria.

China puxa Pyongyang. A China parece estar reconstruindo gradualmente sua influência sobre a Coreia do Norte após alguns anos de distanciamento relativo. Dados comerciais mostram que as exportações para Pyongyang atingiram US$2,3 (R$12,14) bilhões em 2025, o maior nível em seis anos; ao mesmo tempo, existem sinais diplomáticos visíveis, com encontros de alto nível entre Xi Jinping e Kim Jong Un e declarações oficiais falando em “um novo capítulo” nas relações bilaterais. A China anunciou a retomada dos trens de passageiros entre Pequim, Dandong e Pyongyang, suspensos desde a pandemia, enquanto obras em portos e postos de fronteira indicam preparação para ampliar o comércio bilateral. Analistas veem o movimento como parte de um cálculo estratégico mais amplo de Pequim: o vizinho aprofundou sua cooperação com Moscou, enviando armas e tropas para apoiar a guerra da Rússia na Ucrânia em troca de combustível e alimentos, e Donald Trump sinaliza interesse em retomar negociações diretas com o regime norte-coreano. Em outras palavras, quanto mais a Coreia do Norte voltar os olhos para a China, maior será o peso de Pequim em qualquer tentativa de reabrir o diálogo nuclear na península coreana.

Sociedade

Ninguém quer ser a próxima Summer Yue. Nos últimos dias, filas se formaram no escritório da Tencent em Shenzhen; nelas estavam pessoas interessadas em instalar o agente de inteligência artificial OpenClaw, um software open-source que roda diretamente no dispositivo e executa tarefas de forma contínua em arquivos locais e aplicativos de mensagens. O entusiasmo inicial, porém, começou a esfriar após autoridades chinesas alertarem para possíveis riscos de segurança, afirmando que as configurações padrão do programa seriam frágeis e poderiam levar a interpretações equivocadas de comandos, incluindo a exclusão acidental de arquivos importantes – preocupação que não é descabida. O alerta lembra episódios recentes envolvendo agentes de IA que executam tarefas diretamente em sistemas do usuário, como o caso amplamente discutido da diretora de alinhamento da Meta, Summer Yue, que relatou ter perdido grande parte de seus e-mails após o software ter executado comandos de forma equivocada e apagado centenas de emails importantes. 

Já ouviu a palavra anti-IA hoje? Então vale saber um pouco sobre os resultados de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Tsinghua. Após a análise de dados de mais de 41 milhões de artigos acadêmicos publicados nos últimos 50 anos, foi possível identificar alguns padrões: pesquisadores que usam inteligência artificial em sua produção triplicam o número de publicações, sendo citados 4.84 vezes mais do que colegas não-usuários e se tornando líderes de projetos mais rápido. No entanto, os tópicos de pesquisa são quase 5% menos diversos e envolvem 22% menos colaboração com outras disciplinas. A tendência à homogeneização não deve ser uma surpresa para quem entende o que é IA e quem já testemunhou outras ondas de pesquisas motivadas menos pelo assunto a ser explorado do que pela disponibilidade de ferramentas e dados, como explicou para o China Daily Li Yong, líder da pesquisa.

Zheng He

Amor à flor da pele. Para os fãs do filme do Wong Kar-wai, recomendamos esta publicação sobre as misteriosas mensagens de amor escritas à mão por toda Hong Kong.

O que há num nome? No Brasil, é comum usarmos hashi para falar de todos os pauzinhos que usamos para comer culinária do leste asiático; mas este vídeo explica a diferença entre os instrumentos chineses, japoneses e coreanos.

Literatura. O prêmio Nobel de Literatura Mo Yan virá ao Brasil em maio deste ano para um evento que celebra 50 da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Nós já lemos Mo no nosso Clube do Livro de Literatura Chinesa e recomendamos (e muito) ler seus romances. 

Dance com emoção. A jornalista e escritora Yi-Ling Liu lançou recentemente o livro The Wall Dancers: Searching for Freedom and Connection on the Chinese Internet (ainda sem versão em português), que acompanha cinco personagens navegando – ou dançando – entre os limites e liberdades da internet chinesa. Vale conferir a entrevista dela sobre o livro para o ChinaTalk.

 

Usar os super contemporâneos vídeos curtos para divulgar tradições culturais quase esquecidas é o trunfo de diversos dos influenciadores chineses mais populares do momento, como conta esta reportagem da Sixth Tone. Neste vídeo, Shi Haifeng vai à província de Hubei aprender a fazer pratos decorativos de laca – depois de subir a montanha para extrair ele mesmo o material.