Edição 393 – Encontro Xi e Trump gera memes, virais e pouco avanço

Sentença sem reprise. Acusados de crimes de corrupção, dois ex-ministros de Defesa da China, Wei Fenghe e Li Shangfu, foram condenados a penas mais brandas do que a pena de morte. Na última quinta-feira (7), uma corte militar do país determinou que ambos fossem punidos com pena de morte com suspensão de dois anos. Na prática, passados dois anos sem novos crimes, a pena de ambos será automaticamente convertida em prisão perpétua. Ambos foram considerados culpados de suborno e tiveram todos os bens pessoais confiscados. Segundo a Xinhua, Li teria sido acusado por ter recebido e oferecido propinas, além de não cumprir responsabilidades políticas. Wei comandou a pasta de defesa entre 2018 e 2023; Li o sucedeu em março de 2023, sumiu da vida pública em agosto daquele ano e foi formalmente afastado em outubro, após pouco mais de seis meses no cargo. As decisões se somam à onda recente de afastamentos no alto escalão militar chinês, que incluiu nos últimos meses até o general Zhang Youxia, militar mais graduado da Comissão Militar Central. Em fevereiro, Xi Jinping fez uma rara menção pública ao processo, dizendo que as Forças Armadas haviam “passado por uma têmpera revolucionária no combate à corrupção”. Analistas leem a cruzada anticorrupção em curso desde 2012 como uma combinação de saneamento institucional e de consolidação política e, no caso das Forças Armadas, as duas dimensões costumam aparecer entrelaçadas.
Cidade x Campo.Junto com os vice-prefeitos chineses que viralizam no Douyin dançando em arrozais, a onda de funcionários influencers ganha corpo desde que Xi Jinping promoveu essa estratégia. As cenas idílicas que esses livestreams projetam, com paisagens, produtos artesanais, oficiais bonzinhos servindo refeições a idosos, ajudam a reforçar uma visão romantizada do interior que circula há tempos nas cidades chinesas: a ideia de que o camponês tem terra para “se virar”, uma casa só sua, e ainda por cima com um custo de vida baixo. É justamente esse imaginário urbano que uma conversa recente entre o jornalista Peng Yuanwen e o ativista Zhou Jian, traduzida pelo China Digital Times, busca discutir. Zhou conta que ao percorrer mais de 3 mil aldeias em 150 condados pobres, ele tentou derrubar as crenças urbanas sobre o campo. Segundo o texto, o camponês não vive da terra, seu trabalho rende, no máximo, o equivalente a R$ 800 a R$ 1.500 por ano, “o suficiente para uns poucos meses de remédio de pressão”; a terra não é de fato dele (o que existe é direito de uso coletivo, sem poder vender, herdar ou usar como garantia); o terreno em que ele mora vale menos do que se imagina; e o “baixo custo de vida” rural é um mito. Entre o campo do algoritmo e o do cotidiano ainda há uma boa distância, e o relato de Peng e Zhou fala, no fundo, sobre tentar encurtar essa narrativa.

Xi recebe Trump. Na semana passada, Beijing recebeu o presidente Donald Trump para sua primeira visita de Estado à China em nove anos. Como tinha de ser, o encontro com Xi Jinping não decepcionou em termos de drama e simbolismo. As duas maiores economias do mundo concordaram em criar conselhos de comércio e investimento, reduzir tarifas de forma recíproca e estabelecer um mecanismo para gerenciar disputas. Também saíram acordos concretos: a China comprará pelo menos 200 aviões da Boeing , mas esse número pode mais do que triplicar e chegar até 750, mas isso só se determinadas condições forem atendidas. Apesar do tom cordial, os resultados, na prática, foram modestos: nenhum grande avanço, apenas uma estabilização das relações e um esforço para evitar que a rivalidade entre as superpotências saísse do controle.
Para além das relações entre Pequim e Washington, Xi e Trump trataram de temas que preocupam o mundo: a situação de Taiwan, as guerras no Irã e na Ucrânia e o papel e ameaça da Coreia do Norte. Quanto ao Irã, os dois líderes concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto. Xi também deixou um recado pouco sutil ao perguntar a Trump se EUA e China conseguiriam superar a “Armadilha de Tucídides“, a teoria de que potências em ascensão inevitavelmente entram em conflito com as estabelecidas, e criar um novo paradigma para as grandes potências. Com seu típico “otimismo”, Trump respondeu no Truth Social dizendo que Xi estava falando do declínio americano causado por Biden, não pelo seu governo. E para coroar a visita com aquele toque de entretenimento que só essa dupla proporciona, um vídeo viral mostrou Trump dando uma espiadela no caderno de Xi assim que o líder chinês se afastou (recomendamos ver o nosso vídeo da semana).
Outro momento pitoresco da visita ficou por conta do Secretário de Estado Marco Rubio: sancionado pela China duas vezes quando ainda era senador, Rubio só conseguiu entrar no país porque Beijing simplesmente trocou uma letra do seu nome em mandarim, transformando “卢比奥” em “鲁比奥” (Lubiao), ambas têm a mesma pronúncia, caractere diferente, problema resolvido. Do lado chinês, o embaixador Xie Feng aproveitou o encontro para publicar um artigo em tom solene no People’s Daily, defendendo que “cooperação beneficia os dois lados, enquanto confronto prejudica ambos” e que os EUA deveriam abandonar a mentalidade da Guerra Fria e tratar a China como parceira.
E o assunto azedou com Taiwan. Após uma cúpula de dois dias em Pequim com Xi Jinping, Donald Trump alertou Taiwan a não declarar formalmente sua independência e disse, em entrevista à Fox News, que “não está buscando que alguém vá ser independente” e o que quer mesmo é que “a China se acalme”. A resposta de Taipei veio no sábado pela porta-voz presidencial Karen Kuo, que afirmou ser “evidente por si só” que Taiwan é um país soberano, independente e democrático, mas reforçou o compromisso da ilha em manter o status quo, sem declaração formal e sem unificação, postura já sustentada pelo presidente Lai Ching-te, para quem não há necessidade de declarar o que já se considera fato. No mesmo encontro, Trump disse que decidirá em breve sobre um pacote de venda de armamentos de US$11 bilhões para a ilha, sinal de que, mesmo evitando atrito imediato com Pequim, Washington segue obrigado por lei a fornecer meios de autodefesa a Taipei.
Uma batalha atrás da outra. Poucos dias depois da cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump em Pequim, é a vez de Vladimir Putin desembarcar na capital chinesa, visita confirmada por Moscou e Pequim no último sábado, se trata da primeira vez do líder russo ao exterior em 2026. A agenda inclui encontro com Xi para reforçar a “parceria estratégica abrangente” entre os dois países, a possível assinatura de uma declaração conjunta e conversas separadas com o primeiro-ministro sobre cooperação econômica e comercial. A coincidência de calendário, segundo analistas, não foi orquestrada. A visita russa já vinha sendo articulada há meses, mas ganha peso simbólico extra, uma vez que 2026 marca o 30º aniversário da parceria estratégica sino-russa e o 25º do Tratado de Boa Vizinhança, cuja renovação deve entrar em pauta. Entre os temas esperados estão o gasoduto Power of Siberia 2, a guerra na Ucrânia, e a crise no Estreito de Ormuz. O comércio bilateral entre os dois países somou mais de US$228 bilhões em 2025, com Pequim se consolidando como principal comprador de petróleo e gás russos.
Pressão. A famosa RightsCon – a maior conferência de direitos humanos digitais – teve a sua edição de 2026 cancelada. O evento iria acontecer em Lusaka, capital da Zâmbia, entre 5 e 8 de maio. Contudo, a 15ª edição foi cancelada sem muitas explicações duas semanas antes da data para o choque e prejuízo financeiro de muita gente. A nota final de explicação do cancelamento, a organização do evento citou interferência estrangeira. Não demorou muito e questionamentos passaram a surgir sobre isso ter relação com pressão do governo chinês, dado o crescente relacionamento entre a China e a Zâmbia, e o fato da edição de 2025 ter sido realizada em Taipei. Ao que tudo indica, o país asiático exigiu que participantes taiwaneses não comparecessem, e a discussão é elaborada nesta análise no China Digital Times.

Violência contra mulheres chinesas fora da China. Em abril, um tribunal de Munique proferiu uma sentença que chocou a Europa e reacendeu o debate sobre violência sexual e o papel das plataformas digitais. Zhongyi J., um estudante chinês de 28 anos, foi condenado a 11 anos e três meses de prisão por duas tentativas de homicídio e sete estupros agravados contra a sua vizinha, a quem drogou e agrediu sexualmente pelo menos sete vezes entre fevereiro e dezembro de 2024. O réu filmou cada agressão e armazenou os vídeos em um HD externo; em um dos casos, o ataque durou mais de três horas. O caso foi imediatamente comparado ao escândalo Pelicot, que abalou a França em 2024 — e o juiz descreveu os crimes como “atos monstruosos”, declarando que “entramos em território jurídico inexplorado.” Mas o que torna o caso ainda mais perturbador é o contexto coletivo: o julgamento em Munique faz parte de uma investigação mais ampla sobre oito homens que integravam um grupo no Telegram chamado “Autoschule” (Escola de Direção Alemã), no qual coordenavam e compartilhavam imagens dos crimes. O caso levanta questões urgentes sobre a responsabilidade das plataformas de mensagens na proliferação desse tipo de conteúdo — um debate que, infelizmente, ainda está longe de ter uma resposta.

Mo Yan, IA e literatura: o nobel de literatura chinês Mo Yan, disse em evento no Brasil ver na Inteligência Artificial uma esperança para a superação de barreiras linguísticas. Confira como foi a visita dele por aqui.
Taishanese: o Radii China conta por que um “misterioso” idioma falado no filme Sinners está dando o que falar até hoje.
Old school: dois vídeos viralizaram na internet chinesa recentemente exatamente por não usarem inteligência artificial. Esta matéria da Sixth Tone conta como o drama ENEMY e o filme Ji Shi Yi Dao não usaram IA generativa para os efeitos visuais e chamaram atenção pela qualidade da produção.
Veja o vídeo aqui.
A internet quase quebrou com o que teria sido Trump bisbilhotando uma pasta de Xi Jinping. Não foi bem assim, e a CNN conta o que aconteceu.
