Fotografia em cores de Vladimir Putin e Xi Jinping apertando as mãos. Bandeiras da China e da Rússia estão ao fundo.

Kremlin.ru, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

Edição 394 – No embalo de Trump e Putin, quem vence é a China

Política e economia

Até agora são 82 mortos no pior acidente em uma mina de carvão chinesa dos últimos 16 anos. A explosão de gás aconteceu na sexta-feira (22) na cidade de Changzi, na província de Shanxi (a principal para a mineração de carvão) e a mina contava com 247 trabalhadores no momento, que ficaram presos nos escombros. Ainda há pessoas desaparecidas e cerca de 120 estão hospitalizadas. As operações de resgate seguem, inclusive com apoio de robôs para a detecção de gases e câmeras. O caso será investigado para que se descubra a causa da explosão, inclusive para identificar qual a responsabilidade da empresa já que análises iniciais indicam violações de padrões de segurança. Xi Jinping solicitou uma operação ampla para o resgate e apoio às vítimas e seus familiares, especialmente em casos de idosos. 

O molho secreto do sucesso da China na disputa pela liderança em Inteligência Artificial talvez vá além dos investimentos pesados e da regulação rápida. Um relatório recente da Stanford University revelou que o otimismo da população chinesa em relação à nova tecnologia é excepcional e contrasta diretamente com os sentimentos dos estadunidenses: mais de 85% das pessoas consultadas na China acreditam que a IA é mais benéfica que maléfica, contra 45% dos respondentes nos EUA. Muito foi especulado sobre o assunto, e diversos comentaristas atribuem o humor dos chineses à confiança que têm em seus legisladores; por outro lado, há quem acredite que a grande diferença está na perspectiva histórica: ao contrário do que vêm acontecendo na história recente da China, os trabalhadores dos Estados Unidos vêm vivendo relativa calmaria e estabilidade em suas relações trabalhistas e modo de produção, o que os deixaria menos abertos às grandes mudanças que a IA promete trazer.

Internacional

É os guri. Logo depois da partida de Trump, Xi Jinping mal trocou o terno e já recebeu o líder russo Vladimir Putin no dia 19. A visita já estava marcada há algum tempo, então, dizem, foi apenas coincidência o timing – ainda que não deixe de ser . Pequim e Moscou assinaram uma série de acordos, incluindo economia digital, isenção de vistos, educação, satélites, e desenvolvimento de biofármacos, no contexto da celebração de 30 anos da parceria estratégica sino-russa. Contudo, o acordo mais esperado, envolvendo a distribuição de gás pelo gasoduto Power of Siberia 2, não foi finalizado. No Tracking People’s Daily um compilado do discurso oficial sobre a visita de Putin, inclusive a declaração conjunta sobre um novo mundo multipolar. Sobrou também preocupação com o crescente investimento em defesa europeu e uma crítica ao bloqueio do comércio transnacional (uma referência possivelmente ao Estreito de Ormuz). Se você é fã de jogo dos sete erros, vale este texto do The Guardian comparando a recepção aos dois líderes. Na conclusão das análises, o grande vencedor talvez seja Xi Jinping.

As cortinas já se fecharam no Festival de Cannes deste ano, e além dos premiados, o destaque também foi para o soft power chinês. Na abertura do festival na costa francesa, a renomada atriz Gong Li anunciou a abertura em inglês e mandarim, junto com Jane Fonda. Com um pavilhão dedicado ao cinema chinês, o país também teve na seleção oficial dois curtas-metragem feitos por IA e a estreia de A Girl Unknown, da diretora Zou Jing sobre a política do filho único e seu impacto nas meninas chinesas. Além disso, o longa-metragem Adeus, Minha Concubina (que venceu a Palma de Ouro em 1993) teve uma exibição na sessão de clássicos e o sucesso de bilheteria Dear You ganhou uma estreia francesa. A China Night, um evento oficial do Festival de Cannes que reuniu cerca de mil convidados entre atores, diretores, produtores e exibidores, foi realizado no espaço conhecido como Cannes Marché du Film, onde os filmes são negociados e vendidos entre produtores e distribuidores. A China Night também incluiu demonstrações de tecnologia para o cinema, como realidade aumentada, robótica e muita inteligência artificial. Vale assistir esta palestra realizada no mês passado com o pesquisador Paulo Menechelli sobre o cinema chinês e o soft power.

Sociedade

Literatura chinesa no holofote global. As últimas semanas foram animadas para os apreciadores de literatura chinesa. No começo deste mês, a autora nascida na China Yiyun Li – cujas obras publicadas no Brasil foram discutidas no nosso Clube em 2023 e 2024 – ganhou o Prêmio Pulitzer na categoria Memória ou Autobiografia com o livro Things in Nature Merely Grow, lançado no ano passado e ainda não publicado no Brasil. Yiyun escreve suas obras diretamente em inglês, ao contrário da taiwanesa Yang Shuang-zi; a tradução do romance mais recente de Yang, Taiwan Travelogue (sem previsão de chegar por aqui), realizada por Lin King, recebeu na última semana o International Booker Prize; esta foi a primeira obra traduzida do mandarim a receber o prestígio. Por fim, em meados de abril, a ilustradora chinesa Cai Gao foi reconhecida com o Hans Christian Andersen, o maior prêmio para autores e ilustradores de livros infantis. Vale conferir o dossiê que a premiação preparou para sua candidatura.

Por fim, bora falar de literatura chinesa que chega ao Brasil: Mo Yan, publicado no país pela Cosac e pela Companhia das Letras, esteve por aqui em maio para participar da celebração de 50 anos da Unesp. O Prêmio Nobel fez um discurso na abertura do evento e participou da mesa “A literatura sem fronteiras – Brasil e China – paralelos e confluências”. Vale conferir também a mesa “A nova literatura chinesa”, com participação dos escritores Suonan Kairang e Yang Zhihan. Se você assistir às gravações e ficar interessado em conhecer a obra de Mo Yan, fique atento: no final do ano, vamos discutir em nosso Clube, pela segunda vez, As Rãs.

Para a surpresa de muitos, o tradicional jogo chinês de Mahjong ganhou uma popularidade nova entre jovens, especialmente nos EUA (que tem até a sua versão alternativa do jogo). O Mahjong surgiu no final do século XIX e é extremamente popular na China, Hong Kong, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e diáspora – especialmente entre idosos. Este texto discute essa nova ascensão, que tem sido muito apoiada pelos algoritmos, mas também como o jogo surge como uma resposta para a construção de comunidade e ao mesmo tempo como há, em alguns casos, uma apropriação cultural sobre essa nova onda de jogadores.

Zheng He

Podcast: neste episódio d’O Assunto, a entrevistada é a especialista Larissa Wachholz sobre a estratégia chinesa para a autossuficiência alimentar. 

Pintura: a Sixth Tone entrevistou Hong Jian, pintor que há 20 anos tem uma série de obras registrando a arquitetura histórica de Shangha

 

Curta o som da dupla indie de Chengdu Deep Water com o novo EP Have a Good Time.

 

 

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