Foto de acervo pessoal da Júlia Rosa.
Edição 398 – Um até logo (e algumas notícias)
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Um acidente de avião pegou Pequim desprevenida na tarde de sexta-feira (26). A aeronave de pequeno porte atingiu o arranha-céu mais alto da cidade, a CITIC Tower, e posteriormente caiu próximo ao prédio. As vítimas foram 13 pessoas que sofreram machucados, além do piloto – que faleceu no impacto. O governo distrital de Chaoyang, o principal centro financeiro da cidade e onde fica o prédio, informou que apenas o piloto estava na aeronave. Uma série de vídeos circulou nas redes dentro e fora da China, e diversos rapidamente foram removidos, com silêncio da mídia estatal, e o espaço aéreo foi parcialmente fechado por algumas horas. Além disso, pouco se sabe sobre as causas, conforme conta a CNN. O acidente só foi confirmado pelas autoridades chinesas no dia seguinte. O espaço aéreo chinês é altamente controlado, especialmente na capital, e no começo do ano já havia restringido o uso de drones – que passaram a precisar de um registro especial para circular.
Grandes responsabilidades. O que separa um crime comum de um crime contra a segurança nacional chinesa em Hong Kong? De acordo com uma regulamentação aprovada pelo Conselho Legislativo local no dia 11 de junho (e em vigor no mesmo dia), essa resposta pode depender da opinião do líder da cidade. De acordo com o atual ocupante do cargo, John Lee, o poder de indicar quais casos aparentemente comuns ameaçam a nação visa tornar a Lei de Segurança Nacional “ainda mais clara” e “reduzir controvérsias e debates na corte”. O secretário de segurança local declarou que o mecanismo deve ser usado raramente; no entanto, a notícia causou reações negativas na opinião pública local e internacional, uma vez que casos sob a LSN estão sujeitos a penas mais longas e liberdade provisória limitada; além disso, tais julgamentos são comumente acusados de viés pró-governo – a taxa de condenação nesses casos, de acordo com dados oficiais, é de 80%. Por outro lado, em um editorial no China Daily deste domingo (28), o advogado e político pró-Pequim Christopher Wong defende que a Lei de Segurança Nacional vem provando seu valor nos seis anos desde sua aprovação, “punindo poucos e protegendo a maioria”.
Novos tempos. A crise empregatícia enfrentada pelos jovens chineses só se tornou mais preocupante em tempos de inteligência artificial. Um desafio que se mostra global, a China tem nos últimos ensaiado políticas, incluindo redesenhando grades curriculares e encerrando alguns cursos de graduação, para acompanhar o ritmo e alinhar as universidades com o projeto de desenvolvimento nacional. Esta matéria da Rest of World conta como uma nova pesquisa em 70 universidades mostra cortes (como suspensão de turmas) em cursos de alguns idiomas (japonês e alemão), em marketing, gestão de logística, e gestão pública. Contudo, a pesquisa mostra que até engenharia da computação teve matrículas suspensas. Os ajustes parecem também cobrir um certo reequilíbrio após o boom. Ao mesmo tempo, a matéria indica que novos cursos foram criados trazendo IA de forma importante em alguns currículos da área de Humanidades, como cursos de tradução – um ponto também analisado no china policy.

Significa? Mais dias tensos para os observadores dos mares ao redor de Taiwan que tentam divinar o que significam os movimentos chineses na região. Na última terça-feira (23), o Fujian, porta-aviões mais avançado da China, atravessou o estreito, segundo o governo local. Desde meados de junho, a guarda-costeira de Pequim já vem patrulhando a região, medida tomada em reação a declarações de Japão e Filipinas sobre a revisão dos limites de seus territórios marítimos. Taipei considera que a movimentação indica que um ataque chinês ao território é iminente, e iniciou simulações de contra-ataque; Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha se declararam contrários à atitude de Pequim, que afirmou apenas exercer sua jurisdição e pediu que os países respeitem sua soberania.
Menos de um ano após a inauguração da sua fábrica na Bahia, a BYD anunciou que vai acelerar a produção de baterias no Brasil, além de ter divulgado que realizará investimentos de R$ 500 milhões no sistema de armazenamento de energia em baterias para participar do primeiro leilão de baterias a ser realizado no final do ano no país. O objetivo é ter até 50% da produção dos veículos de passeio realizada localmente até 2027, conta a matéria da CNN. Nos últimos meses, a empresa chinesa tem enfrentado uma série de críticas: em março, foi acusada nas redes sociais de trazer 10 mil trabalhadores chineses em vez de contratar funcionários localmente, o que não se confirmou. A empresa desmentiu e anunciou que os novos alojamentos que está construindo são para brasileiros – que obrigatoriamente devem ser 70% da mão de obra da fábrica. A mão de obra chinesa que chegou no começo do ano seria de funcionários temporários. Em abril, foi incluída durante três dias na “lista suja” de trabalho análogo à escravidão a partir da autuação do Ministério Público do Trabalho em 2025. Em maio, uma matéria da BBC brasileira contou mais detalhes sobre a operação.

É um negócio complicado. A sustentabilidade da estratégia de pequenas cidades chinesas de viralizarem nas redes e atraírem turistas é questionada neste texto da jornalista Zeng Shi. Nos dias de hoje, não é incomum que governos locais tentem nutrir e surfar em vídeos de influenciadores turistas – mas os altos investimentos nesses momentos é pouco sustentável e não garante o retorno que promete, principalmente pela falta de investimento em infraestrutura e serviços no longo prazo. Governos tendem a apostar em locais “instagramáveis” e que cansam rápido, replicando e padronizando o que já viralizou (sobre o tema, vale relembrar essa excelente discussão na falecida Chaoyang Trap sobre wanghong). Em tempos de economia da atenção, todo dia algo viral acontece e o que foi viral ontem é rapidamente esquecido.
Ética. Em tempos de debate sobre divulgação de bets no Brasil, a ética da profissão de influenciador também vem sendo pauta na China. Lá em março, um influenciador de livros (booktoker, como são conhecidos) dedicou 25 minutos de vídeo a criticar as práticas de alguns colegas de profissão; um deles, não identificado, foi acusado de manipulação ao falar do mesmíssimo jeito sobre muitos dos 700 livros que recomendou ao longo de um único ano. Hoje, na China (e em muitos países), editoras usam influenciadores e principalmente booktokers para divulgar livros e criar buzz em torno de obras – mas, apesar de muitos trabalharem de forma honesta, embora precária, escândalos assim colocam em xeque a credibilidade ao mesmo tempo em que a lógica do mercado coloca pressão na comunidade, como discute este texto do site The World of Chinese.

Origem: como que o lying flat virou a tendência que virou nos últimos anos? Tem comunicado do Ministério de Segurança Estatal (onde fica o aparato de inteligência do Partido Comunista) que diz que é influência estrangeira para desanimar a galera, mas os netizens seguem afirmando que é apenas o capitalismo tardio.
E o jovem a fiar: esta matéria da Sixth Tone mostra como manualidades envolvendo costura, crochê, tricô e afins com lã, estão crescendo em popularidade entre jovens chinesas.
Miau: através da lente do fotógrafo holandês Marcel Heijnen, a conta Chinese Whiskers registra diversos belíssimos gatos, principalmente chineses. Heijnen já lançou um livro de gatos das lojas e mercados de Hong Kong e publicou um de gatos de mais de 20 cidades na China. Agora, vai lançar quatro volumes com a mesma temática. Excelente.
Opa: sabe aquele look tradicional chinês que você viu no brechó? Talvez seja de uma cerimônia funerária.
Não é porque a China não está na Copa do Mundo de futebol masculino que as empresas chinesas não podem surfar essa onda. Um bom exemplo, como mostra o vídeo, é o sucesso da nova e nonsense campanha internacional do chá Wang Lao Ji, que tem quase dois séculos de tradição: o garoto propaganda da vez é o boleiro norueguês Erling Haaland.
