O aumento do e-commerce no pós-pandemia parece que será tendência mundial. Na China, há tempos acostumada com a ferramenta, ainda assim cresceu o uso do comércio digital. Um texto publicado no início do mês, por dois pesquisadores do John L. Thornton China Center, cobre o histórico do setor, a partir da ascensão do e-commerce no país, que ganhou força junto com a epidemia da SARS, em 2003. Os autores também discutem as principais empresas, a importância da democratização do acesso à internet (86% dos chineses têm acesso à banda larga), o crescimento de vendas por livestream, e o aumento da percepção da importância de privacidade de dados e do papel dos entregadores, que estão atuando na linha de frente, no país.

O artigo também fala sobre a expansão de empresas chinesas de e-commerce no mundo, outra coisa que vai se tornar mais comum. De fato, o esforço de sair do estereótipo de “empresa chinesa” para empresa “global” ganhou destaque recentemente na atuação de duas gigantes do setor. No fim de maio, a ByteDance, dona do TikTok, contratou um executivo que era da Disney+ para ser o novo CEO do app, bem como diretor de operações da ByteDance. Agora, a plataforma de streaming de vídeos iQiyi contratou um ex-executivo da Netflix (da área de políticas públicas para a Ásia-Pacífico) como vice-presidente de serviços internacionais para organizar seus planos de expansão.


Há algumas semanas, falamos sobre os planos de inclusão de vendedores de rua nos pacotes de estímulo econômico pós-pandemia na China. À época, o primeiro-ministro Li Keqiang elogiou a ação desses trabalhadores e prometeu apoio às suas atividades, que são importantes fontes de renda particularmente para as classes mais pobres. Muitos, porém, não responderam bem às declarações de Li. Um comentário divulgado pela estatal CCTV, por exemplo, alega que a decisão de direcionar estímulos a esse grupo seria um “retrocesso de décadas”. O também estatal Beijing Daily, por sua vez, publicou uma série de artigos em que classifica vendedores de rua como “barulhentos, obstrutivos e capazes de danificar a imagem da capital chinesa”. O conteúdo das críticas, evidentemente classista, expõe as divisões da sociedade da China e a hostilidade a grupos informais menos favorecidos.


As três maiores companhias aéreas estatais da China — Air China, China Eastern Airlines China Southern Airlines — receberam nessa semana suas primeiras aeronaves ARJ21, fabricadas pela também estatal Commercial Aircraft Corporation of China (ou COMAC). O ARJ21, com capacidade para 90 assentos, entrou em operação há quatro anos e foi o primeiro avião comercial projetado domesticamente, apesar de alguns itens, como motores, serem estrangeiros. Nos próximos anos, para além de dar prosseguimento às vendas para companhias aéreas locais, a COMAC deve finalizar o desenvolvimento de outras aeronaves mais amplas que podem colocar a empresa em competição direta com as gigantes Boeing e Airbus, além, é claro, da brasileira Embraer.

Afinal, a diplomacia do “guerreiro lobo” (wolf warrior diplomacy) funcionou? Para Xiang Lanxin, um renomado especialista em política internacional da China, a resposta é claramente “não”. Para ele, a diplomacia que deu manchetes nos jornais contribui para a desestabilização da ordem internacional e resgata heranças imperiais de uma suposta superioridade do modelo chinês — flertando, assim, com a defesa da primazia civilizatória chinesa em relação às demais nações do mundo. Xiang ressalta que os trabalhos de Martin Jacques (When China Rules the World) e Zhang Weiwei (The China Wave: Rise of a Civilizational State) podem ter contribuído para essa percepção dentre a elite política do país. Confira aqui a íntegra do argumento de Xiang — uma leitura digna de um bom cafezinho.


Por falar em diplomacia do “guerreiro lobo”… No último desenvolvimento das tensões fronteiriças entre China e Índia, Pequim anunciou que enviará 20 treinadores de artes marciais para o platô tibetano. Nenhuma explicação oficial quanto à decisão foi dada pela parte chinesa, mas espera-se que os treinadores trabalhem junto às forças terrestres do país na região. Observadores apostam que o recente enfrentamento entre as duas nações na área de Galwan, que, conforme já reportamos aqui na Shūmiàn, deixou pelo menos 20 soldados indianos mortos e dezenas de feridos, deva estar por trás da movimentação.


E o desejo de expansão global de empresas chinesas pode enfrentar dificuldades, talvez fruto dessas mesmas tensões. Hoje, o governo da Índia divulgou uma lista de 59 apps chineses banidos do país, incluindo o próprio TikTok, mas também outros aplicativos da ByteDance, QQ e Baidu, além de gigantes como o WeChat e Weibo. O argumento dado pelas autoridades foi preocupação com privacidade e segurança de dados de cidadãos indianos sendo enviados para servidores fora do país.


A expansão da pandemia da COVID-19 tem sido acompanhada, ao redor do mundo, por manifestações de hostilidade contra a China, os chineses e seus descendentes. Seja com na retórica do “vírus chinês” de Washington ou nas cada vez mais frequentes agressões contra o gigante asiático e seu povo vindas de Brasília, dentre vários outros exemplos, o preconceito contra a China, como elucida a pesquisadora brasileira Rosana Pinheiro-Machado, emerge na atualidade como uma força de importante consequências para o futuro do planeta.

Quer saber mais sobre o assunto? Acompanhe então a transmissão ao vivo no canal do YouTube do Radar China sobre sinofobia com a jornalista Janaína Camara da Silveira, o historiador Vinícius Wu e o professor Evandro Menezes de Carvalho. É hoje (29) às 16h de Brasília.


Um grupo de 50 especialistas independentes ligados à ONU emitiu um comunicado relatando preocupação e pedindo que o governo chinês garanta o respeito aos direitos humanos no país, especialmente em relação à situação em Hong Kong, Xinjiang e Tibete. O grupo pede que Pequim não implemente a nova legislação de segurança nacional em Hong Kong. O texto completo, com a lista de nomes dos especialistas que foram seus autores (e não recebem remuneração financeira da ONU), está disponível aqui.

Diversas comunidades rurais na província de Shandong estão sendo demolidas, enquanto famílias são realojadas como parte de um grande projeto de redução da pobreza no país. A iniciativa está dentro do escopo do plano de Construção de Novas Comunidades Rurais (BNRC, em inglês) e consiste em urbanizar zonas rurais e promover o desenvolvimento industrial a partir de dois objetivos. Em primeiro lugar, ao demolir as dispersas comunidades rurais e centralizá-las em um reassentamento único, é possível aumentar a produção alimentar e reaproveitar diversas terras abandonadas, frutos de uma intensa urbanização que deslocou cerca de 200 milhões de chineses para os centros urbanos. Em segundo lugar, o BNRC tem como meta melhorar as condições de vida no campo, já que a construção de novos lares está atrelada à necessidade do governo em investir em infraestrutura — como ruas, saneamento básico, eletricidade e hospitais.

A realidade, no entanto, segue outro ritmo. Nos relatos recentes das comunidades rurais de Shandong, por exemplo, há exposição de remoções forçadas e de indenizações financeiras quase simbólicas, incapazes de servirem para entrada em um novo imóvel. Em alguns casos, famílias foram removidas sem terem para onde ir, já que o novo lar sequer estava pronto. Em comunidades rurais ao norte do país, houve um aumento expressivo de desemprego após as remoções — sem terra para trabalhar, a mão de obra do campo, não-escolarizada, fica à mercê da sorte.


Já comentamos aqui na Shūmiàn sobre as fortes chuvas que vêm atingindo o sul da China e deixando centenas de milhares de pessoas desalojadas. Após o Ministério de Recursos Naturais do país, dentro do esforço de contribuir com a contenção de desastres, ter enviado equipes de especialistas para as regiões mais atingidas, foi a vez do próprio Xi Jinping se pronunciar sobre o assunto. No último domingo (28), o líder chinês clamou que autoridades locais concentrem sua atenção nas respostas às emergências trazidas pelas recentes inundações. Xi destacou, ainda, que a prioridade do momento é aderir a uma abordagem centrada no auxílio às pessoas em meio à estação atual de cheias.

boatos de que a hidrelétrica das Três Gargantas estaria com risco de colapso por causa dessas chuvas estão rondando a mídia ocidental. O governo chinês nega os rumores sobre aquela que é a maior hidrelétrica do mundo. Contudo, em entrevista para a RFI, o especialista sino-alemão Wang Weiluo disse que o risco de falhas no projeto é real e seria “catastrófico”, segundo ele, para residentes da parte mais baixa do rio Yangtze.


Já falamos aqui sobre a recente aprovação da lei contra a violência doméstica chinesa. Uma cidade chamada Yiwu inaugurou uma política que permite que residentes possam conferir se há registros policiais de violência domésticas ligados aos seus parceiros ou parceiras. Só existem registros desde 2017 e, apesar de essa legislação significar um passo positivo, não é o suficiente: sem contar os casos que não são denunciados, muitos são rejeitados pela polícia (34%, segundo dados de Xangai) ou retirados pelas vítimas (12%, idem).


Shen Jilan, a legisladora mais velha da China, faleceu no domingo, aos 91 anos. Shen participou de todos os encontros do Congresso Nacional do Povo, desde a sua criação em 1954. De origem camponesa, já no começo das reuniões ela pautou a cobrança por salários iguais entre homens e mulheres, que foi incluída na legislação do país, e recentemente ficou notoriamente famosa por afirmar nunca votar contra nas sessões parlamentares. “Se sou contra, eu me abstenho”, ela disse em 2011.


Três professoras chinesas contam sobre o clima de tensão que têm sentido para discutir certas questões em sala de aula nos últimos anos. A matéria de Alice Su conta com entrevistas de acadêmicas chinesas que lecionam sobre a Revolução Cultural, a exemplo de Guo Yuhua (da Universidade Tsinghua), que receberam punições por discursos considerados impróprios, sendo muitas vezes denunciadas pelos próprios alunos.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Prepare a pipoca: uma lista com nove filmes chineses com temática LGBTQIA+ para assistir online. Não deixe de dar uma olhada também no Gagaoolala, o “netflix queer da Ásia”.

Para colocar na agenda: o Grupo de Estudos Brasil-China da UNICAMP abriu as inscrições para o 4º Seminário “Pesquisar a China Contemporânea”. Não deixe de se inscrever, será online e gratuito! Acesse o site aqui.

Fotografia: o famoso fotógrafo chinês Li Zhengsheng faleceu em Nova Iorque no dia 23 de junho. Trabalhando pelo Heilongjiang Daily, ele registrou imagens impressionantes da Revolução Cultural, conseguindo esconder os negativos das autoridades. Leia essa entrevista com ele (de 2012), e veja as fotos aqui também.

Mobilidade concentrada: o professor de antropologia de Oxford, Xiang Biao, escreveu sobre (e o excelente Reading the China Dream traduziu) as questões relacionadas aos trabalhadores migrantes e da economia chinesa focada na gig economy, considerando a maneira desses trabalhadores em lidar com o novo coronavírus.

Podcast: é fato que a China investiu pesado na infraestrutura do setor energético no continente africano. Qual o futuro dessa relação no contexto de crise pós-pandemia? É o tema do novo episódio do The China-Africa Podcast.

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