Ant Group, dono do método de pagamentos Alipay e braço financeiro do Alibaba, estava estimado em quebrar o recorde mundial de IPO (oferta inicial de ações) durante a semana passada. Seria histórico, por ser também nas bolsas de Shanghai e Hong Kong — e não na de Nova York. Mas o sonho acabou, e rápido: o governo chinês emitiu ordens para que a oferta fosse cancelada em meio a novas regulações de instituições financeiras. O Ant Group terá que devolver 2,4 trilhões de dólares para investidores que já haviam participado do IPO. O podcast Pagode Chinês falou um pouco sobre a treta. Coincidência ou não, Jack Ma, fundador do Alibaba, fez um discurso controverso dias antes, criticando o sistema nacional de regulação de bancos e instituições financeiras.

Quem aplicou para lançar o IPO com mais sucesso foi o app de vídeos curtos Kuaishou, na bolsa de Hong Kong. Ainda em rodada de captação, é um lançamento que vinha sendo especulado há alguns meses e que ocorreu antes que a ByteDance (dona do competidor Douyin/TikTok) lançasse o seu IPO. Especula-se que a ByteDance está em negociação com investidores para preparar o lançamento em breve.


As exportações chinesas cresceram 11,4% no mês de outubro em comparação ao mesmo período do ano passado. O número é bom e supera o crescimento registrado em setembro, que havia sido de 9,9%. As importações também cresceram, mas menos do que no mês anterior — foram 4,7% de expansão, enquanto o número de setembro havia sido de 13,2%. Destaque para as vendas aos Estados Unidos, que cresceram mais de 22% no período. Dentre as explicações para a boa performance das exportações chinesas, figuram a retomada das atividades econômicas do país mais cedo do que em boa parte do restante do mundo (a pandemia do novo coronavírus, afinal, parece estar largamente sob controle na China) e também a grande demanda internacional pelos equipamentos médicos e de proteção individual produzidos pelo gigante asiático.


A China lançou na última sexta-feira (06) um novo foguete ao espaço, o Longa Marcha 6, que por sua vez colocou com sucesso 13 novos satélites em órbita. Desses, 10 são satélites de sensoriamento remoto da empresa argentina Satellogic, 2 são satélites comerciais chineses e, por fim, 1 é resultado de um projeto educacional de alunos do ensino fundamental de uma escola na província de Shanxi, no norte do país. A China já lançou mais satélites que quaisquer outros países do mundo em 2018 e 2019, desbancando, por exemplo, Rússia e Estados Unidos, e isso deve se repetir também em 2020: no total, o país já lançou 32 foguetes neste ano e espera-se que até dezembro o número de lançamentos chegue a 40.

Que semana. As eleições nos Estados Unidos foram um dos assuntos mais comentados no Weibo na China. Para começar, milhões (isso mesmo) de memes e piadas circularam na internet, como se fosse um grande evento da cultura pop. Muita gente também debateu sua preferência por um dos candidatos e a lentidão do sistema eleitoral estadunidense. O que a vitória de Joe Biden, porém, pode significar para as relações entre os dois países?

A começar, o perfil mais moderado de Biden sinaliza uma retomada de comunicações de alto nível e maior profissionalização do corpo diplomático em temas relacionados à China. A administração Biden também deve dar maior espaço à cooperação nos esforços para combater a pandemia, com o destaque para as vacinas. Em relação à disputa tecnológica, é possível que ela foque mais em setores específicos — como o aeroespacial e inteligência artificial  — ao invés de ser generalista, como fez a administração Trump ao incluir o TikTok e WeChat para a lista de banimentos. Saiba mais aqui.


Qin Hui, ex-professor de História da prestigiada Universidade Tsinghua e considerado um dos maiores intelectuais e liberais da China, escreveu um longo — e não menos polêmico — artigo sobre a globalização após a pandemia. Qin pondera as ações bem e mal sucedidas tomadas pela China e pelo Ocidente (leia-se: Europa e Estados Unidos) e discute como muitas democracias, apesar de darem alto valor a direitos humanos, falharam em conter o vírus e garantir a dignidade humana. Em contrapartida, a China  — que, para o autor, dá baixo valor a direitos humanos  — conseguiu conter o vírus rapidamente, sob o alto custo de cerceamento da liberdade de expressão e lockdowns severos.

O artigo de Qin, contudo, não é sobre a superioridade do regime chinês (pelo contrário, ele é bastante crítico a esta forma de governo). É sobre, no fim, como democracias e instituições podem responder rapidamente a situações de emergência e, ainda assim, garantir a preservação de direitos humanos. Vale fazer aquele cafezinho e curtir a leitura, disponível tanto em inglês quanto em espanhol.


O jornalista Sebastian Strangio, que recentemente lançou um livro sobre a atuação chinesa no Sudeste Asiáticoconversou com o China Dialogue sobre os projetos controversos na região. Os investimentos chineses no entorno do importante rio Mekong já são pauta antiga, especialmente em relação à Iniciativa Cinturão e Rota. Na entrevista, Strangio discute os impactos e desafios para Laos, Camboja, Vietnã, Myanmar e Tailândia em relação aos grandes projetos de infraestrutura, como a represa Myitsone, além de tratar sobre investimentos responsáveis e a participação da sociedade civil nessas discussões.

Sem poder viajar para o exterior, dadas as inúmeras fronteiras fechadas mundo afora em decorrência da pandemia, a classe média chinesa — que antes viajava para outros países e gastava muito com artigos de luxo — teve que voltar seus recursos “para dentro”. Os novos hábitos de consumo dessa crescente parcela da população incluem o investimento em viagens nacionais e a preferência por lojas de luxo já existentes na China, visto que até importar esses itens está difícil. Como resultado,  há quem questione se isso iniciaria um consumo nacionalista, o que alguns especialistas já rebatem salientando que se trata apenas de uma escolha do momento. É sabido que as classes mais ricas do país preferem importar ou comprar fora artigos de luxo e até alguns itens de baixa confiança na China em decorrência de escândalos de segurança alimentar — como aconteceu com o leite em 2008.


Involução — é essa a nova palavra favorita de muitos chineses para descrever suas próprias vidas. Originalmente usado por antropólogos para se referir ao processo de estagnação de sociedades agrárias, o termo vem se popularizando na China como maneira de aludir aos males da contemporaneidade no país: a pressão por oferecer o melhor aos filhos, as altas expectativas familiares, as longas horas de trabalho nos escritórios das empresas chinesas, e assim por diante. Em mandarim, a palavra — 内卷, ou neijuan — expressa a ideia de rolar dentro de si próprio e carrega uma mensagem que remete à cultura sang, uma tendência que ganhou destaque há alguns anos na China e que, de maneira semelhante à involução, exprime certo derrotismo irônico que tomou muitos jovens do país em meio às dificuldades e, recorrentemente, está associado também à solidão da vida moderna.


Em resposta à crescente conscientização sobre assédio e desigualdade de gênero, autoridades chinesas finalmente tornaram a educação sexual tema obrigatório nas escolas do país. Ainda não está claro como a determinação, que entra em vigor a partir da metade do ano que vem, será cumprida. Uma preocupação, porém, já se destaca: conforme comentamos aqui na Shūmiàn, livros didáticos chineses seguem abordando questões de sexualidade — especialmente no que se refere a pessoas LGBTQIA+ — de maneira problemática. O assunto ainda é tabu no país e muitos temem que as novas aulas de educação sexual ou ignorem o tema, ou reforcem concepções ultrapassadas quanto a ele.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Túnel do tempo: o Fairbank Center da Universidade de Harvard disponibilizou, online, uma exibição sobre os dazibao (大字报) — os pôsteres gigantes da época da Revolução Cultural. Está sensacional, vale conferir aqui.

Racismo: Joyce Teng, uma fotógrafa de Hong Kong, fez do preconceito que ela sentia na pele um projeto-protesto: ConfrontAsian. Nele, Teng amplia vozes de pessoas de diásporas asiáticas vivendo em países ocidentais sobre o racismo que já vivenciaram.

Música: que tal curtir um reggae chinês e ficar de boa? Matzka chegou à Shūmiàn para ficar.

São elas: assistiu ao seriado do Netflix “O Gambito da Rainha”? Então é hora de conhecer a história da chinesa Hou Yifan, mulher real e prodígio do xadrez no meio do clubinho de homens.

Falando em filme: o clássico das telonas chinesas “Adeus, Minha Concubina” vai ganhar uma adaptação nos palcos da Broadway, conforme anunciado pelo dramaturgo estadunidense Jason Robert Brown na última semana. Já estamos ansiosos pelo resultado.

Podcast: pode a ascensão da China afetar a maneira como as ciências são feitas no mundo, à medida que o país produz mais artigos científicos e a censura na academia segue presente? É a discussão deste episódio do podcast Science Social, com a convidada Anna L. Ahlers.

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