Na província de Gansu, no noroeste chinês, andaimes de bambu sobre a fachada de grandes mesquitas sinalizam um controverso experimento de engenharia social: em troca de melhores condições de vida, o governo do país demanda que minorias étnicas substituam religião por devoção ao Estado. A campanha nasce na interseção de dois grandes esforços nacionais — um de sinicização de religiões e outro de erradicação da pobreza — e, em última análise, busca transformar uma região historicamente diversa em suas línguas, fés e costumes em um modelo baseado na maioria Han e caracterizado pela urbanização, secularidade, prosperidade material e, é claro, lealdade ao PCCh e a seus líderes.

Falando em alívio de pobreza, a região de Xihaigu —  um dos lugares mais pobres do país e localizada na província autônoma de Ningxia, da minoria étnica Hui — acaba de eliminar a pobreza absoluta em seu território. Para se ter uma ideia do tamanho do feito, basta lembrar que o lugar era considerado “o lugar mais impróprio para assentamento humano no mundo” pela Organização das Nações Unidas.

E já que o assunto é pobreza, você já ouviu o podcast da Shūmiàn? É sobre a erradicação da pobreza na China, com foco no maior programa de transferência de renda que existe por lá: o dibao, ou o “Bolsa Família made in China”. Não perca, ficou sensacional!


Apostando que a fase ruim para a economia do Ocidente vai demorar a passar, a China emitiu pela primeira vez, na última quarta-feira, títulos de dívida pública a taxas de juros negativas. A venda atraiu compradores do mundo inteiro, muitos dos quais enfrentam taxas de juros ainda mais baixas em casa, e que estão, portanto, interessados em se inserir na única grande economia do mundo que deve crescer neste ano. Para David Yim, do Standard Chartered Bank, o episódio demonstra que investidores estão “cheios de confiança na forte recuperação econômica da China e em seus desenvolvimentos futuros, apesar da persistente pandemia global da COVID-19”.


Em discurso transmitido por vídeo no APEC CEO Dialogues — um dos principais encontros entre empresários e líderes políticos da Ásia —, Xi Jinping afirmou que a China pretende continuar cortando tarifas e custos institucionais, e expandindo as importações de bens e serviços de qualidade de todo o mundo. Xi voltou a abordar a estratégia de dupla circulação — que, em linhas curtas, propõe a elevação da produtividade e do ambiente de negócios da China de modo a evitar a armadilha da renda média — e esclareceu que “nosso novo padrão de desenvolvimento não se trata de uma única circulação doméstica fechada, mas de circulações doméstica e internacional abertas e que se alimentam mutuamente”.

Quão verdes são os projetos chineses no setor energético espalhados pelo mundo? Será que eles vão se tornar mais sustentáveis com o recente anúncio de Xi Jinping sobre neutralizar as emissões de carbono do país até 2060? A base de dados do Global Development Policy Center da Universidade de Boston pode ser um bom aliado para responder essas e muitas outras perguntas. Composta por informações de mais de 83 países, a base apresenta projetos em energia renovável e não renovável de empresas chinesas no Sudeste Asiático, Ásia Central, África e América Latina. No total, mais de 186 gigawatts de capacidade de geração de energia estão registrados na plataforma. Chama atenção que 33% dos projetos em construção ou planejados até 2033 sejam de plantas de fonte eólica e solar. É uma leitura ideal para quem pesquisa investimentos chineses no setor energético ou curiosos em entender o papel da China diante dos desafios da emergência climática global.


12ª Cúpula dos BRICS aconteceu no dia 17, online e sob a presidência da Rússia. Os chefes dos países discursaram, chegando ao fim com algumas alfinetadas e poucos resultados concretos. A China criticou o isolacionismo e falou sobre o foco na cooperação em torno da vacina contra o novo coronavírus. Xi Jinping também mencionou a criação de um novo centro de pesquisa em Xiamen, na costa chinesa, que se dedicará a investigações voltadas para a Nova Revolução Industrial no âmbito dos BRICS. De maneira controversa, no seu discurso, Jair Bolsonaro afirmou que vai divulgar os países que compram madeira ilegal da Amazônia. Pode ter sido uma indireta, já que a China (dentre outros países) é um dos destinos desse produto. Dias depois, Bolsonaro retrocedeu e disse que a divulgação deve ser das empresas envolvidas, de modo a garantir cooperação contra a atividade ilegal. Como escreve Oliver Stuenkel, apesar de o encontro ter sido amplamente ignorado por boa parte da mídia internacional fora dos BRICS, é ainda impressionante que as reuniões tenham se mantido, apesar das desavenças recentes da China com o Brasil e com a Índia.


Falando em Brasil, uma investigação do China Dialogue revela um quadro preocupante: portos fluviais privados com pouca supervisão governamental se multiplicam pela Amazônia, abrindo novas rotas para o transporte da soja do país rumo a seus grandes compradores — o principal deles é, claro, a China, que hoje compra cerca de 80% de toda a produção brasileira do grão. Os projetos, que transformam os rios da maior floresta tropical do mundo em corredores de escoamento de commodities agrícolas e extrativistas, têm impacto direto não somente sobre a natureza, mas também sobre as comunidades tradicionais da região, que na maior parte das vezes não são sequer consultados sobre novos desenvolvimentos.

E não é só na Amazônia que são construídos portos voltados para as commodities brasileiras com destino à China. A mineradora Vale, cujo maior cliente do minério de ferro paraense é o gigante asiático, anunciou investimentos da ordem de 651 milhões de dólares em uma joint venture conjunta com o Porto Ningbo Zhoushan. O objetivo é criar uma nova infraestrutura para o armazenamento e o processamento do minério de ferro destinado à província de Zhejiang. A iniciativa é mais um passo de aproximação entre a segunda maior empresa mundial produtora de minério de ferro e seu mais ávido país consumidor.


O inimigo do meu inimigo é meu amigo? Em peça de opinião ao The New York Times, Ian Johnson reflete sobre o fenômeno dos dissidentes chineses que, ao mesmo tempo em que advogam por democracia e liberdade de expressão em casa, se associam a políticos e movimentos conservadores de perfil anti-democrático nos Estados Unidos. Para muitos deles, o duro tratamento dispensado por Donald Trump a Pequim, por exemplo, fazia do presidente estadunidense um aliado na oposição ao regime chinês. Os casos são muitos, mas um em particular ganhou destaque recentemente: junto a Steve Bannon, o bilionário dissidente Guo Wengui organiza manifestações, molda novas vozes e financia teorias da conspiração que servem a seu declarado propósito de “derrubar o governo da China”.

E quando o feitiço se vira contra o feiticeiro? As comediantes de stand-up chinesas estão ensinando às novas gerações como transformar preconceitos e estereótipos patriarcais em piadas sarcásticas — e muito engraçadas. Falando sobre casamento, independência financeira e expectativas tradicionais dos papéis femininos na China, essas jovens mulheres utilizam o humor para fazer críticas ácidas sobre o comportamento ainda machista de parte de uma sociedade em transformação.


Você já ouviu falar em hòulàng? A palavra — que surgiu a partir de um vídeo promocional da empresa Bilibili, uma plataforma de vídeos no estilo YouTube — pode ser traduzida como “a onda que se aproxima”, e é uma referência a um ditado popular: “as ondas que se aproximam no rio Yangtzé impulsionam as ondas anteriores”. O vídeo em questão mostra jovens chineses vivendo, se divertindo e aproveitando a modernidade e as facilidades a que têm acesso hoje: ele clama que tudo culmina com o direito de escolher. A propaganda, que ganhou um status simbólico de análise digno da série Mad Men, virou pauta sobre questões intergeracionais e surgiu no contexto do aniversário do 4 de maio de 1919.

Naquele dia, centenas de jovens chineses saíram às ruas em um movimento reformista e anticolonialista que já estava ocorrendo desde 1917. Os protestos contaram com a participação de importantes figuras políticas que definiram a China do século XX. O Movimento 4 de Maio se tornou um símbolo importante para a juventude.

Apesar da sua popularidade, o vídeo foi criticado por pintar a vida da geração Z como fácil, somente com base no seu poder de consumo e nos privilégios de alguns. Você pode acompanhar aqui uma discussão interessante sobre essa questão intergeracional em um painel entre intelectuais chineses.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Vozes Negras na Sinologia: a Shūmiàn acaba de lançar o primeiro diretório aberto, online e gratuito que divulga sinólogos negros no Brasil. É uma maneira de conhecer mais pessoas negras no ramo da sinologia do nosso país. Apoie essa iniciativa e nos ajude a divulgá-la!

Documentário: o jornal South China Morning Post lançou um filme (China’s Rebel City) documentando os protestos em 2019 e 2020 que tomaram Hong Kong. A primeira parte está disponível no YouTube e apresenta o contexto da legislação de extradição que iniciou os protestos e as figuras principais que participaram das manifestações.

Reflexão: o pesquisador Yin-Jye (Jay) Hwang, da Universidade de Leiden, discute um artigo recém publicado no periódico Review of International Studies. Seu texto explora o surgimento dos Estudos ou das “Relações Internacionais” como uma disciplina científica ao longo do século XX na China.

Sinofuturismo: será o sinofuturismo um tipo de orientalismo? Essa é a discussão proposta por Gabriele de Seta, que discute a China e o futuro, e como isso popula as mentes dentro e fora do país.

2020 em palavras: os netizens chineses votaram pelas 10 palavras que definiram esse excessivamente turbulento ano de 2020. Dentre elas está, inclusive, 后浪 (hòulàng ou “a onda que se aproxima”); 专业团队 (zhuānyètuánduì ou “time profissional”) — que faz referência ao vídeo dos homens carregando caixões em Gana; e 云监工 (yúnjiāngōng), o monitoramento virtual de construções que se popularizou depois de milhões assistirem ao livestream das obras dos hospitais de campanha de Wuhan.

Vai um folk aí? Hora de curtir as batidas lentas e aconchegantes de 小米 Johnny Tsai, um dos expoentes do folk taiwanês.

Para dar aquela animada com estilo: prepare-se para o indie rock psicodélico dos também taiwaneses 麋先生MIXER.

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