Newsletter 134 (PT)

Você talvez já tenha ouvido falar em computação quântica. É uma tecnologia de processamento de dados tão absurdamente avançada que promete revolucionar não só a computação, mas a própria existência da humanidade. O conceito de “supremacia quântica” se refere à capacidade de um computador quântico em realizar operações que nem um supercomputador é capaz. Na semana passada, uma equipe na Universidade de Ciência e Tecnologia da China, liderada pelo famoso cientista Pan Jianwei, desenvolveu o Jiuzhang, que resolveu em 200 segundos um problema matemático que o melhor supercomputador do mundo demora 600 milhões de anos para resolver.

Em 2019, o Google afirmou que conseguiu atingir a supremacia quântica com o Sycamore. Os pesquisadores chineses afirmam que a sua tecnologia, desenvolvida com base em luz, é mais rápida. Mas a questão é mais do que meramente tecnológica, como sempre. É mais um campo que está sendo visto como espaço para disputa entre EUA e China, pois pode moldar novos caminhos em biotecnologia, finanças, e até armamentos. A China tem investido de maneira pesada na área de pesquisa quântica, com a criação de um laboratório ao custo de 10 bilhões de dólares.


Que o conceito de Segurança Nacional é usado amplamente por autoridades chinesas, isso já se sabe. E, com a pandemia, o argumento securitário ficou ainda mais comum. O que há de mais nítido agora, visto em uma recente sessão do Politburo, é como a garantia do desenvolvimento econômico é vista como a base da segurança nacional. Ou seja: toda forma de ameaça ao crescimento econômico representa uma coação à segurança nacional, pois, se a economia está em jogo, a estabilidade social e qualidade de vida também estão – e não há Partido que se sustente sem esses dois elementos. Se “Segurança Nacional” está em igual par de importância quanto “Desenvolvimento”, é esperada mais coordenação entre as forças do governo e maior capilaridade entre a sociedade civil e os setores de negócios.

Por falar nesse assunto, autoridades chinesas detiveram, na última semana, uma integrante da equipe local do escritório da Bloomberg News em Pequim. Haze Fan, que é de nacionalidade chinesa, foi vista sendo escoltada de seu apartamento por oficiais pouco tempo depois de se reunir com um editor da Bloomberg. A prisão de Haze, que se deu justamente sob alegações de riscos à segurança nacional, acendeu uma discussão sobre a precariedade e a vulnerabilidade de cidadãos chineses trabalhando em plataformas internacionais de mídia na China. Muitas vezes na linha de frente dos principais trabalhos realizados por essas organizações, eles não contam com o mesmo nível de proteção de seus colegas estrangeiros quando confrontados com problemas perante as autoridades do país.


Apesar de uma expansão em novembro, as vendas totais de automóveis na China ao longo de 2020 caíram em comparação com os números do ano passado. As dificuldades econômicas trazidas pela pandemia do novo coronavírus, é claro, podem ter exercido influência sobre essa tendência, mas ela não é nova: desde o pico registrado em 2017, a indústria automobilística do país vem vendendo menos no mercado chinês. Apesar das dificuldades no setor, a figura geral da economia da China segue inspirando confiança: com base na crescente demanda doméstica e na expectativa em torno da distribuição da vacina contra a COVID-19, a agência Fitch Ratings elevou sua previsão para o crescimento do PIB do país de 7,7% para 8% no ano de 2021.

Ganhou destaque essa semana uma recém publicada base de dados da Universidade de Boston sobre investimentos chineses no exterior, com foco em dois gigantes bancários: o China Exim e o Banco de Desenvolvimento Chinês. A base inclui 900 projetos georreferenciados, cobrindo desde 2008 até o ano de 2019. Provocou choque a redução dos investimentos nos últimos anos desses dois que são os principais bancos de desenvolvimento do país. Os investimentos no exterior caíram de 75 bilhões de dólares em 2016 para somente 4 bilhões no ano passado. Ao que tudo indica, esse deve ser o normal nos próximos anos. Pode ser um bom sinal para quem está correndo atrás da China na competição desse quesito, como os EUA, a União Europeia e o Japão.

O país certamente está reavaliando algumas das suas apostas em investimentos nos últimos anos, e o cenário aponta para um foco na economia e outro no consumo doméstico. Mas talvez os anúncios de morte da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês) sejam exagerados. Em texto para o The Diplomat, dois pesquisadores argumentam que os bancos não pararam de investir, mas estão investindo de maneira diferente. Eles escrevem que os dados da Universidade de Boston não incluem alguns acordos milionários bilaterais feitos com o Cazaquistão recente. Além disso, diversos projetos têm sido financiados por bancos comerciais ou subsidiários, focando em empresas estatais.


Por falar nela, a Iniciativa Cinturão e Rota costuma angariar muitas críticas por seus projetos supostamente levarem à diplomacia da dívida e, com mais embasamento, por gerarem grandes impactos socioambientais. A defesa, do lado chinês, costuma transferir a responsabilidade para as leis ambientais ou as demandas do país de destino, em vez de para as empresas chinesas. Esse cenário pode, em breve, ser alterado: conforme aponta Ma Tianjie para o Diálogo Chino, assessores internacionais fizeram uma série de recomendações ao governo chinês para controles ambientais mais rígidos em operações no exterior.

Dividido em três níveis de sustentabilidade e inspirado por padrões internacionais definidos pela Corporação Financeira Internacional (IFC), pelo Banco Mundial e por outros, o objetivo é incentivar financiamentos a projetos mais verdes (de energia eólica e solar) e pressionar para que investimentos em iniciativas de grande impacto (como construção de hidrelétricas e ferrovias) tenham planos de mitigação coerentes. Caso adotado, isso tem o potencial de tornar os megaprojetos da BRI mais sustentáveis e beneficiar o soft power chinês ao redor do mundo. Na edição passada, falamos sobre algumas questões da  Iniciativa do Cinturão e Rota “verde”.


O presidente eleito estadunidense Joe Biden acaba de escolher Katherine Tai, uma advogada com longa história de críticas ao governo da China, para liderar o time de negociadores comerciais de sua administração. Tai, que é de ascendência asiática e fala mandarim fluentemente, será a primeira mulher a ocupar o cargo caso a nomeação seja aprovada pelo senado do país. Apesar da expectativa de que ela adote um estilo de negociação que favoreça o multilateralismo nas negociações com Pequim, o conteúdo incisivo da abordagem não deve mudar. Mesmo entre analistas que antes se sentiam otimistas, a impressão agora é que a posição estadunidense sob Biden deve mudar bastante frente a aliados próximos, mas nem tanto em se tratando da China.


Cresceu, nos últimos anos, o envolvimento de empresários chineses em cartéis de drogas no México e na Colômbia. Eles auxiliam os cartéis com lavagem de dinheiro na China através dos Estados Unidos. O sofisticado esquema envolve a combinação de aplicativos de transferência de dinheiro e pequenas empresas, sem que o dinheiro passe, de fato, por instituições bancárias estadunidenses ou mexicanas, conforme relata uma reportagem especial da Reuters. Não atuam somente na América Latina, mas também na Europa. Essa situação oferece espaço para cooperação entre autoridades chinesas e estadunidenses, ainda que a mesma, por enquanto, seja escassa.

A Human Rights Watch publicou um novo relatório sobre a situação em Xinjiang. Segundo a organização de direitos humanos, o governo chinês possui um programa de análise de dados para o policiamento da minoria muçulmana – os uigures. A “lista Aksu” inclui nomes e ofensas, e, assim, ilustra comportamentos aceitáveis ou não na região. Comportamentos que levaram à detenção incluem: leitura do Alcorão sem permissão; uso de burca ou barba longa; viagem para países considerados sensíveis, como Turquia ou Afeganistão; parentesco com pessoas afiliadas a grupos categorizados como terroristas; e até coisas mais vagas, como “nascimento após 1980” ou “não confiabilidade”. Muitas das decisões de detenção para envio aos “campos de reeducação” parecem ser escolhas de indivíduos, não de burocracias formalizadas.

Além disso, foi publicada a terceira parte de uma investigação pelo Buzzfeed News sobre a região, focando no complexo de detenção de Mongolküre, perto do Cazaquistão. Pouco se sabe sobre esses espaços, e a matéria tenta jogar uma luz na questão, com bastante detalhe. A investigação traz relatos de três ex-presos, falando não apenas do tratamento recebido, mas também do crescimento do complexo – que passou a ter espaço para cerca de 3700 pessoas. O consulado chinês de Nova Iorque, consultado para a matéria, afirma que a questão é interna e diz respeito a tópicos de terrorismo e separatismo.

E a discussão sobre o tratamento da minoria uigur no país também chegou à porta da Huawei. Através de documento assinado por funcionários da empresa e exposto pela organização de pesquisa IPVM, descobriu-se que a gigante chinesa das telecomunicações testou, junto à startup Megvii, um software de reconhecimento facial capaz de enviar alarmes automatizados às autoridades quando uigures são identificados. Ambas as empresas reconheceram a veracidade do documento, mas através de representante a Huawei afirmou que o episódio foi “simplesmente um teste” e que disponibilizou apenas produtos de uso geral para sua realização. “Não oferecemos algoritmos ou aplicativos personalizados”, completou.


A nova fronteira do e-commerce já bate à porta: é a compra em grupos, ou 社区团购 shèqū tuángòu. Apesar de algumas plataformas já terem implementado a estratégia há alguns anos (como é o caso da Pinduoduo), a compra em grupo realizada por consumidores chamou a atenção de outros gigantes do setor, como Alibaba, JD, DiDi, ByteDance e Meituan Dianping. A pandemia, certamente, acelerou esse processo: no auge do lockdown na China – em que se vivia confinado nos 小区 xiǎoqū  –, vizinhos passaram a organizar grupos no WeChat para compras em grupo, a fim de evitar sair de casa e para conseguir preços mais em conta. O mercado focado em compras em grupo já chega à casa dos bilhões de reais. Quer entender mais sobre esse fenômeno? Então, não deixe de ler a excelente explicação de Lillian Li. Será que a prática pegaria no Brasil?


Como é ser negro na China? Em um país cuja população é 90% Han e a homogeneidade racial é dada como certa, pessoas negras encaram grandes desafios nas cidades chinesas. De casos de racismo no mercado de trabalho a microagressões diárias, o racismo Made in China se expressa de maneira distinta, ainda que esteja lá. Veja as vivências de três homens negros (dois nigerianos e um estadunidense) no país que se tornou um segundo lar para eles, apesar de todas as dificuldades. Alguns cresceram na China, e outros foram para lá a trabalho ou a estudo – como é o caso do MC Tingbudong, que foi para pesquisar a cena do hip hop chinês.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Mulheres do ano: e a Shūmiàn já entrou na vibe de retrospectiva de 2020. Conheça 9 mulheres chinesas que marcaram esse ano caótico, como a bioquímica e major general Chen Wei, pesquisadora principal no desenvolvimento da vacina chinesa; a lutadora de MMA, Zhang Weili; a epidemiologista Li Lanjuan; e muitas outras.

Música: a dica musical da semana está carregada no pop. Aumenta o som e ouça 孫盛希 Shi Shi!

Mais música, agora feminista: a famosa cantora Tan Weiwei 谭维维 lançou um álbum, 3811, dedicado a 11 mulheres e também ao Dia Internacional da Mulher (e à sua idade). A música Xiao Juan é uma forte crítica à violência doméstica e ao assassinato de mulheres. Ao vivo, a música é ainda mais impactante. O álbum inteiro está disponível no YouTube.

Her: conheça a assistente virtual que está redefinindo o conceito de romance e de relacionamentos na China.

Fotografia: já ouviu falar de Wang Qingsong? Um dos fotógrafos e artistas contemporâneos mais renomados da China, ele trabalha imagens em grandes proporções que retratam a transição do país da Era Mao para o capitalismo global, como na foto abaixo.

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