Agora vai: após um período de quarentena, finalmente começaram os trabalhos de campo do time da Organização Mundial da Saúde em viagem à China, para investigar as origens do novo coronavírus. Além do hospital em que as primeiras amostras do vírus foram coletadas, que os especialistas já visitaram no último sábado (30), o roteiro ainda inclui outras destinações importantes como o mercado de carnes e vegetais onde várias das contaminações iniciais pelo SARS-CoV-2 parecem ter ocorrido. Um grupo de famílias chinesas que perderam entes durante a pandemia sob circunstâncias supostamente pouco claras, porém, alertam que os enviados não devem permitir que autoridades do país controlem cada passo da investigação, e exigem uma audiência com os especialistas para expor suas posições.

Com timing aparentemente perfeito, a HBO está prestes a lançar — a despeito dos riscos de uma resposta dura do governo chinês contra a empresa e os envolvidos na produção — um documentário da diretora Nanfu Wang sobre a reação inicial da China ao primeiro surto do novo coronavírus no país. No longa, Wang expõe uma narrativa que já é familiar: quando começaram a surgir evidências de um novo tipo de coronavírus circulando na cidade de Wuhan ainda no fim de 2019, autoridades chinesas, em vez de reagir com anúncios rápidos de segurança pública, baniram postagens em redes sociais sobre o assunto, puniram médicos que denunciaram a possível gravidade da situação e desencadearam um esforço midiático para minimizar a reação pública aos desenvolvimentos. O vírus, então, se espalhou, e quando medidas de contenção mais restritivas foram finalmente adotadas, já era tarde para evitar a formação de uma pandemia.

Ninguém governa sozinho  nem mesmo na China, onde Xi Jinping é o grande líder. Ao perceber as figuras políticas em ascensão nas províncias, é possível entender um pouco melhor o esquema de alianças e prioridades de Xi. Basta ver os novos secretários do Partido Comunista Chinês (PCCh) nos governos locais: muitos tecnocratas com experiência nas indústrias aeroespacial e de saúde, e políticos que, em algum momento, trabalharam com Xi ou seus aliados no passado, seja em Zhejiang ou em Guizhou, como é o caso de Ying Yong e Shen Yiqin, respectivamente. A maioria (sete dos dez novos secretários do PCCh) foram promovidos aos cargos de governadores, o que sinaliza a importância da experiência local para facilitar uma promoção na carreira.

O discurso de Xi Jinping na abertura do Fórum Econômico Mundial foi destaque, e também alvo, de comparação com o de 2017. Há 4 anos, Xi fez uma famosa defesa do multilateralismo na cerimônia do evento, que ocorreu em Davos. A fala indicava que a China se considerava uma campeã da cooperação internacional e da abertura econômica em um contexto recente da posse de Trump com sua retórica anti-ONU e extremamente crítica à globalização. Na época, elogios se espalharam pela mídia e nas redes sociais, considerando a postura responsável do presidente chinês. Para 2021, o tom mudou um pouco — mas não muito, pois a defesa do multilateralismo segue em voga. Em um vídeo (uma vez que o evento foi virtual), o líder chinês fez comentários que foram entendidos como críticas aos EUA e à guerra comercial entre Washington e Pequim. Dentre outros temas, Xi incluiu uma parte sobre as diferenças entre os sistemas políticos de cada país, afirmando que tais diferenças devem ser respeitadas, sem que exista uma hierarquia que imponha a história de um país a de outros, evitando o início de uma nova Guerra Fria.

Se o contexto do discurso em 2017 considerava a retirada dos Estados Unidos do multilateralismo, a coisa mudou de figura agora com a eleição de Joe Biden. Por sinal, o recém-empossado presidente indicou Linda Thomas-Greenfield como sua embaixadora para a ONU. Ela já recebeu atenção da mídia, pois, em 2019, fez uma palestra paga pelo Instituto Confúcio no estado da Geórgia.

Falando em tensões com os EUA, um memorando estratégico publicado na última semana causou um certo furor entre especialistas nos assuntos da China. De autoria anônima e referenciando um memorando escrito em 1946 que redirecionou as relações com a União Soviética, o texto foi publicado no site do think tank Atlantic Council. Uma versão reduzida também foi publicada pelo jornal Politico. O documento indica que o maior desafio do século para os Estados Unidos é a ascensão da China sob Xi Jinping, e assim incentiva a criação de políticas que mobilizem as divisões internas do Partido Comunista da China, além de promover uma aproximação com a Rússia. Para alguns especialistas, a estratégia foca em demasia na figura de Xi — já para a Embaixada da China, o documento é uma afronta, visto que enxerga positivamente uma mudança de regime.

Já que o tema do nosso próximo podcast trata dos investimentos chineses na América Latina, vale ir se aquecendo para a discussão com este working paper publicado pelo Global Development Policy Center sobre a atuação da China no setor elétrico brasileiro. Caso esteja sem tempo para ler tudo, há uma versão resumida também. A atuação do país cresceu bastante desde 2019, e no trabalho, o autor Pedro Henrique Barbosa usou dados primários para fazer a primeira estimativa da extensão dessa presença, incluindo no que se refere às preferências e distribuição geográfica das empresas chinesas (por exemplo, há grande concentração no Nordeste).

E um pouco mais ao norte do Brasil, no México, houve um desenvolvimento importante no projeto do Trem Maya, no sul do país. Com um investimento previsto de 630 milhões de dólares, o consórcio mexicano com a empresa China Communications Construction Company (CCCC) acabou sendo suspenso provisoriamente em janeiro, na região de Yucatán. O projeto é um dos favoritos do presidente Andrés Manuel López Obrador, mas tem enfrentado críticas e protestos da sociedade civil. A suspensão foi baseada em argumentos sobre a falta de transparência e o impacto ambiental do projeto, que constam em um pedido organizado por comunidades maias. Aliás, vale lembrar que a CCCC está construindo um megaporto em São Luís, no Maranhão.

Após as turbulências que tomaram Hong Kong ao longo dos últimos anos, o governo do Reino Unido decidiu oferecer um caminho facilitado para que residentes da cidade se tornem cidadãos britânicos. A decisão pode atrair mais de 300 mil moradores da região administrativa detentores do passaporte BNO (British National Overseas, ou cidadão britânico no exterior) para o país europeu, mas não agradou a Pequim, que decidiu por sua vez deixar de reconhecer o documento como identificação válida de viagem. As autoridades chinesas não veem legitimidade nas reações do Ocidente aos desenvolvimentos em Hong Kong, alegando que iniciativas como a mais recente de Londres são ofuscadas por desinformação e o que classifica como “ressaca imperial”.

Vai passar, mas ainda não passou: após comemorações atipicamente modestas do Ano Novo Lunar em 2020, muitos chineses terão que, mais uma vez, celebrar de maneira discreta o feriado mais importante do ano no país. Os novos surtos da COVID-19 no noroeste da China deixaram as autoridades do gigante asiático em alerta e a imposição de uma série de novas restrições — que incluem desde quarentenas e testagens em massa até proibições a viagens para indivíduos de determinadas áreas — deve reduzir significativamente o trânsito de pessoas entre as regiões do país durante as próximas semanas. Nas redes sociais chinesas, muitos falam em resposta desproporcional, mas o governo central não recua, assegurando que as medidas são necessárias para manter a pandemia sob controle.

É masculinidade frágil que se fala? Após um delegado de um importante órgão consultivo político da China sugerir que estudantes homens chineses são “fracos, demasiadamente modestos e tímidos” e influenciados pelo que chamou de “carnes novas” — celebridades bonitas e vaidosas que lembram os astros da música pop coreana —, o Ministério da Educação do país respondeu com planos para “cultivar” a masculinidade dos jovens do gigante asiático através do estímulo de uma educação física que “equilibre suas forças física e mental”. A iniciativa ressoa com diversos outros episódios recentes na China (como a disseminação de campos de treinamento de virilidade pelo país) e, para além de trágica e quase cômica, também é um prato cheio para quem estuda os evidentes laços entre masculinidade, gênero e nação.

Lembra dos protestos que ocorreram na Mongólia Interior? A Prefeitura Autônoma Coreana de Yanbian, localizada na província de Jilin, pode ser o próximo lugar a ver protestos contra a limitação do uso de dialetos locais em escolas. Um órgão do governo central declarou no último dia 20 que duas regiões do país estão em violação do artigo da constituição chinesa que estipula o uso de mandarim como idioma oficial. Os únicos dois lugares que se enquadram nessa situação atualmente são a Mongólia Interior (onde já houve protestos) e Yanbian, onde se oferece educação bilingue (mandarim e coreano) há mais de 60 anos.

Há um crescente entendimento entre a elite política do PCCh de que o uso de mandarim é fundamental para a segurança nacional e para manter a harmonia entre os grupos étnicos. Vale ficar de olho em Yanbian para entender possíveis desdobramentos.

Isso é muito Black Mirror. Um software de gestão de pessoas preocupa os empregados de uma empresa de Shanghai. Sob justificativa de melhorar a performance de seus funcionários e poupar gastos, o programa (importado de países europeus) monitora milimetricamente os segundos e os passos de um funcionário e faz o papel de um supervisor “carrasco”: delega funções pesadas e estabelece prazos impossíveis de serem cumpridos. Caso a tarefa não seja finalizada da maneira prevista, o sistema deduz uma certa quantia do salário da pessoa – às vezes em até 30%. O “autoritarismo algorítmico” não dá margem à tolerância; atrasou um segundo para voltar do banheiro? Então, aguarde sua multa no fim do mês. Será que a moda vai pegar pelo país? Saiba mais na matéria de Liu Chang.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.


Crimes em Pequim: a série da BBC Peking Noir conta a história de uma figura famosa do mundo do crime em Pequim nos anos 1930: o russo Shura Giraldi. Também está no Spotify.

A onda rosa: saiu um artigo acadêmico que discute o papel da China na “onda rosa” da Bolívia e do Equador entre 2005 e 2014. Poderia haver relação entre crescentes investimentos chineses nos países latinoamericanos e a maior força dos movimentos de esquerda? Para o autor Ivo Ganchev, ambos foram movimentos complementares. Vale a leitura.

Governança: confira o e-book gratuito lançado pelo CyberBRICS sobre a governança digital nos países-membros no âmbito da cibersegurança.

Comida de rua: venha conhecer um pouco da comida de Xiamen, cidade costeira localizada no sul da China e famosa por seus frutos do mar. O vídeo mostra o pequeno negócio de Du Yaying, ex-presidiária que encontrou na culinária uma segunda chance.

Para ficar de boa: aumenta o volume que a 鄧福如 AFÜ chegou para animar o seu verão!

Te vejo no tribunal: saiu uma tradução do artigo (de 2018) sobre o uso de inteligência artificial em tribunais na China, publicado pelos pesquisadores Feng Jiao e Hu Ming, da Universidade de Zhejiang. Já falamos em 2019 sobre o experimento com cortes inteligentes. Para quem quer seguir acompanhando, o Jeffrey Ding escreveu sobre os desenvolvimentos recentes.

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