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De olho na crise demográfica, China permite terceiro filho

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Agora três não é demais. Depois de décadas de um rigoroso controle de natalidade, o governo chinês parece ter invertido o jogo ao anunciar nesta segunda-feira (31) o aval para que famílias chinesas possam ter até três filhos. A mudança acontece logo depois de o censo confirmar queda no crescimento populacional, um alerta para uma possível crise demográfica. Além de permitir que os casais tenham mais um filho — desde 2015 eram permitidos apenas dois —, o governo deve criar medidas de estímulo, em um momento em que os jovens se queixam de dificuldades financeiras para terem descendentes, como mostra este texto do South China Morning Post. De acordo com a Xinhua, a decisão foi tomada em reunião do Comitê Central do PCCh liderada pelo presidente Xi Jinping. A agência informa ainda que a medida busca dar uma resposta para o envelhecimento da população e que novas informações devem ser divulgadas nos próximos dias.

Pouco antes da divulgação do censo, o Financial Times publicou uma reportagem afirmando que a pesquisa divulgaria um encolhimento populacional, o que acabou não se confirmando. Em abril, nós contamos que economistas do Banco Central fizeram um estudo recomendando que políticas de controle de natalidade fossem relaxadas. Também falamos sobre a queda dos casamentos na China, que preocupa as autoridades.

IPTU vai ser introduzido na China? Depois de dois anos de silêncio, o governo central parece voltar a discutir a possibilidade de cobrar imposto dos proprietários de imóveis na China, algo como o IPTU brasileiro. Essa reportagem do Asia Times fala sobre a possibilidade da tributação ser criada até o fim do ano para as cidades chinesas de primeiro e segundo nível — uma classificação que leva em conta tamanho e riqueza dos municípios. Ainda sobre o tema, este artigo traz detalhes sobre a reunião do governo central que discutiu a eventual criação de taxas sobre imóveis e sobre o impacto da dificuldade que jovens encontram para conquistar a casa própria sob o mercado imobiliário do país. Há algumas semanas, vale lembrar aqui, também abordamos o debate sobre uma possível bolha imobiliária chinesa.

Um grande salto “patriótico”. Na última quinta-feira (27), legisladores de Hong Kong deram aval para implementar a reforma no sistema eleitoral aprovada em abril, sobre a qual já falamos aqui. O South China Morning Post publicou um bom resumo das principais mudanças, entre as quais se destacam a diminuição de representantes eleitos diretamente por cidadãos e um processo seletivo criterioso para os candidatos às vagas. Como comentamos previamente, o objetivo de Pequim é garantir que o poder político em Hong Kong esteja alinhado com os interesses da China continental.

Em conflito com ideias atuais sobre patriotismo, Macau e Hong Kong relembram os acontecimentos da Praça da Paz Celestial anualmente — o que não ocorre em nenhuma outra cidade chinesa. Em 2021, assim como em 2020, o evento foi proibido em Hong Kong por conta da Covid-19, mas ainda assim milhares de pessoas compareceram. Para evitar que o mesmo ocorra este ano, e com o aval da nova Lei de Segurança Nacional, foram anunciadas penas de 1 a 5 anos de prisão para quem promover ou comparecer ao evento. A epidemia não foi usada como justificativa para a proibição em Macau, onde o encontro foi vetado por ser considerado subversivo. Ao que tudo indica, o 4 de junho deste ano será marcado por manifestações simbólicas e individuais — inclusive em Taiwan, por conta da atual crise de Covid-19.

Se organizar direitinho, todo mundo se industrializa? Bem, é nisso que o governo chinês vem apostando ao criar o cargo de líderes de cadeias industriais em algumas províncias. Esse modelo já vinha sendo aplicado em outras linhas produtivas, como de produção rural e na proteção e gestão de florestas e meio ambiente. A ideia, como mostra o China Policy, é criar um modelo de liderança para coordenar a produção local da indústria seguindo a referência planejada pelo governo central. O texto, que toma como base essa publicação do Shanghai Security News (em mandarim), fala sobre a adoção mais recente do padrão em locais como Hubei, Jilin, Tianjin e Shenzhen. Em fevereiro, o China Daily apontou a adoção dessa estrutura na região nordeste da China, conhecida pela indústria pesada.

Para evitar especulação, China deve proibir bancos de venderem produtos vinculados a commodities. É o que a Reuters publicou, com base em apurações com fontes sigilosas. Esse movimento pode ser relacionado com o que falamos na nossa edição da semana passada, sobre a atuação do governo para conter a alta das commodities. De acordo com a reportagem, a agência de regulação bancária do país asiático solicitou que deixem de ser vendidos no mercado futuro produtos ligados a commodities, sobretudo a investidores inexperientes. O objetivo seria conter perdas e evitar uma flutuação dos preços. As fontes citadas pela Reuters dizem que é a primeira vez que esse tipo de pedido parte do órgão regulador às instituições bancárias.

De olho no lance: será que a China consegue se tornar uma potência do futebol até 2035? Com planejamento detalhado por Pequim, essa discussão ocorre há alguns anos. Desde 2015, o governo chinês investiu bilhões de dólares em clubes, treinamento e importação de jogadores — até naturalizando alguns — com a ambição de tornar a Superliga da China um sucesso e lançar o país em posição de destaque na Copa do Mundo. No início do ano, o colapso de vários clubes, inclusive do campeão Jiangsu FC, rendeu matérias (como esta do El País) sobre a explosão de uma bolha no setor. Mas Xi, entusiasta de futebol como é, não desiste tão fácil e talvez esteja apenas fazendo reajustes (como apareceu no O Globo). A Xinhua noticiou que há ambição agora de construir entre 16 e 18 “cidades do futebol” até 2025. Essas cidades, que receberão verba específica, terão centros de treinamento, ao menos dois clubes e metade dos estudantes residentes participando de atividades futebolísticas.

 

 

Um papo reto. Foi mais ou menos neste tom que saíram os comunicados sobre a conversa entre o vice-premiê chinês, Liu He, e a representante de comércio dos EUA, Katherine Tai. O encontro virtual foi o primeiro entre autoridades de alto nível de comércio dos dois países desde o início do governo de Joe Biden. O Ministério do Comércio da China disse que o diálogo se deu de forma “sincera, pragmática e com trocas construtivas numa atitude de igualdade e respeito mútuo”. Já o lado estadunidense divulgou que foram discutidos “os princípios que vão guiar o trabalho da administração Biden-Harris focado na política de comércio e na revisão em curso das relações comerciais entre China e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que foram levantados os pontos de preocupação”. Pouco se sabe sobre o futuro da relação entre as duas maiores economias globais, mas o clima deve continuar, no mínimo, tenso, como indicou o encontro realizado no Alasca em março.

Para aprofundar a leitura sobre o caso, este texto do The New York Times traz uma análise sobre o prolongamento do que era para ser uma trégua temporária entre os dois países. Analistas também demonstraram dúvidas sobre um eventual progresso nas relações. Caso você tenha o mandarim afiado ou queira arriscar uma leitura mais atenta, este texto fala sobre como o governo Biden trouxe pessoas mais jovens (entre 40 e 50 anos) para papéis de destaque em postos que cuidam da relação com a China e as consequências disso.

Não é fácil ser pequeno quando dois grandões brigam do seu lado, é o que a Nova Zelândia percebeu em meio às tensões entre Austrália e China. Como manter um equilíbrio é uma pergunta que assombra governos por lá e também por aqui na América Latina. A ministra das relações exteriores neozelandesa, Nanaia Mahuta, disse ao The Guardian que era como estar muito perto de uma tempestade. Por enquanto, o país tem conseguido dialogar com a pressão que surge dos dois lados. Ainda assim, não escapou da crítica de Pequim à moção do parlamento neozelandês sobre direitos humanos em Xinjiang. Ao mesmo tempo, as críticas à China feitas pelos demais integrantes da aliança de inteligência Cinco Olhos (Five Eyes, em inglês), que é composta também por Reino Unido, EUA, Austrália e Canadá, foi causa de desconforto para a Nova Zelândia.

A China é o maior parceiro comercial da Nova Zelândia e os dois países têm um acordo de livre comércio, com 30% das exportações neozelandesas sendo enviadas para o gigante asiático. A primeira-ministra Jacinda Arden reconheceu divergências com Pequim. No domingo (30), o primeiro-ministro australiano Scott Morrisson chegou a Queenstown, na Nova Zelândia, para se encontrar com Arden e conversar sobre vários temas — inclusive a relação dos dois com a China e apoio a questões tarifárias.

As origens do novo coronavírus voltaram à pauta, com Biden pedindo uma investigação detalhada pelas agências de inteligência dos EUA sobre a teoria de que o novo coronavírus teria vazado de um laboratório em Wuhan. O pedido veio após uma matéria no The Wall Street Journal citar um relatório de inteligência de uma agência não identificada. O texto fala que pesquisadoras do Instituto de Virologia de Wuhan teriam ficado doentes ainda em 2019 e chegaram a ir para o hospital. A matéria — e o posterior pedido de Biden — alimentam a teoria lançada por Trump e seus aliados, geralmente tida como conspiratória, das origens da pandemia. Vale lembrar que após missão na China em março, investigadores da OMS e do governo chinês consideraram  “extremamente improvável” a teoria de que o vírus teria saído de um laboratório, conforme relatamos aqui. Pequim afirma que já fez a sua parte em apoio à investigação e sugere que se busquem respostas em outros países.

Com essa discussão acesa e em meio à reunião anual da OMS, os Estados Unidos e o Reino Unido também desejam nova apuração, como conta a Associated Press. O tema ganhou destaque nas discussões de China no Twitter e questionamentos importantes foram colocados, como a falta de acesso ao relatório mencionado na matéria. Muitas incertezas persistem e é necessário cautela, pois investigações desse tipo não costumam ser rápidas.
Em meio à discussão, chamou atenção o texto da cientista Yangyang Cheng sobre as lições que (não) aprendemos desta pandemia e como isso aparece também no âmbito da saúde pública global e da cooperação científica.

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China faz vacinação recorde, mas isso é suficiente? Em um país com 1,4 bilhão de habitantes e com quatro imunizantes aprovados, não é muito difícil bater recordes. Ainda que o país venha imunizando quase 15 milhões de pessoas por dia, será uma corrida contra o relógio dar conta de cumprir a meta de ter 40% de sua população imunizada até o fim de julho. A China segue com fronteiras fechadas e os poucos que são autorizados a entrar precisam passar por uma rigorosa rotina de testes e ficar em uma quarentena de 21 dias. Ainda assim, alguns casos pontuais voltaram a surgir, como contamos aqui: Anhui, Taipei, Yunnan e, mais recentemente, Guangzhou.

Neste cenário, Zhong Nanshan, pneumologista que lidera o conselho científico para combate à Covid-19, aconselhou o governo central a não ficar satisfeito com 70% da população imunizada. Segundo Zhong, para atingir imunidade coletiva induzida por vacinas, seria necessária a inoculação de mais de 80% da população, considerando que a taxa de eficácia das vacinas locais não é muito elevada. O governo chinês segue criando novos estímulos para que a população aceite se vacinar, com doações de ovos e ingressos para turismo. Já no caso de Hong Kong, um grupo privado oferece a chance de concorrer ao sorteio de um apartamento de US$1,4 milhão para quem aceitar tomar as duas doses.

O que é ser chinês? A discussão sobre identidade é ampla e muito complexa. Vale passar um cafezinho para ler o debate em torno da imprecisão das terminologias “China” e “chinês” neste artigo do professor Gregory Lee. Ao divulgar seu trabalho, Lee fez um tweet: “Estes termos são lamentavelmente inadequados para descrever a complexidade por trás deles, mas extremamente úteis para aqueles que querem mascarar a realidade”. Um bom exemplo desse apagamento é a forma de os chineses se referirem à sua língua: o que chamamos de chinês é designado em mandarim como Hanyu 汉语, ou “língua dos Han”. O mandarim é conhecido como putonghua 普通话 ou “fala comum”. Popularmente, muita gente na rua usa o termo Zhongwen 中文, cuja tradução literal seria “língua da China”.

Ainda sobre o tema da identidade, numa abordagem mais humanizada, este texto primoroso publicado no Guardian fala sobre “ser chinês”, movimentos de diáspora e também sobre perdas e luto. Coloque mais água no cafezinho e prepare os lenços.

I.N.I.M.I.G.O.S. da censura? O reencontro do elenco de Friends perdeu cerca de 6 minutos na China. Convidados como Justin Bieber, Lady Gaga e BTS tiveram cenas cortadas na versão que estreou na quinta (27) para os chineses, por comentários críticos feitos a Pequim no passado. Histórias sobre fãs LGBTQIA+ e cenas mais ousadas (Joey de cueca) também sumiram. Três grandes serviços de streaming receberam direitos para a exibição: iQiyi, Youku e Tencent Video, e cortes diferentes foram feitos em cada versão. O especial ficou entre os tópicos mais comentados nas redes, já que a série tem uma fanbase enorme e foi importante para uma geração inteira aprender inglês. Teve até um Central Perk em Pequim. São tantos fãs que não foram incomuns as reclamações sobre os cortes, como conta Rebecca Davis, e também gente sofrendo com acusações de violar direitos autorais ao postar excertos. A série, que havia sido retirada de sites legais em 2018, deve voltar a ser disponibilizada na plataforma Bilibili.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Mao ainda vive? Se você já teve a curiosidade de imaginar como os vilarejos coletivos maoistas poderiam sobreviver ao século XXI, confira as fotos e os relatos do repórter Shi Yangkun para a Sixth Tone. Já adiantamos: não é nada como a China que conhecemos hoje.

Jogo dos 5 erros: este artigo da Harvard Business Review faz um interessante apanhado sobre cinco mitos que o mundo ocidental tem sobre o gigante asiático. Vale dar uma lida atenta e refletir. Você concorda? Já se pegou pensando assim?

Entrevista: o China-Africa Project conversou com Mamadou Ndiaye, embaixador do Senegal na China, sobre a cooperação sino-africana para o combate à Covid-19. Ndiaye fala de projetos realizados e possibilidades para o futuro como, por exemplo,  a instalação de farmacêuticas chinesas no país para produção de vacinas.

A briga por privacidade: falamos de reconhecimento facial na China há algumas edições. Mas, se você quiser ir além, vale ouvir um recente episódio do podcast Chinese Whispers, e aproveitar para ler a coluna de Tatiana Prazeres sobre o assunto.

Artigo: Pablo Rodríguez-Merino, da Universidade de Londres, conta como a China se valeu da retórica antimuçulmana adotada pelos EUA pós-11/09 em sua “Guerra ao Terror” para rotular movimentos rebeldes de Xinjiang como “terroristas” e angariar apoio internacional para suas políticas na região autônoma. A primeira parte dos dois textos pode ser lida aqui.

Música: você já ouviu falar de Dou Wei 窦唯? Ele é um famoso roqueiro chinês. Foi líder da banda Black Panther e seu álbum solo de 1994 é um marco no rock chinês. Está aqui a sua chance de conhecer o hit 噢! 乖 (Be good, boy).

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Na tradução literal, 闻鸡起舞 significa “ouvir o canto do galo e levantar-se para se exercitar com a espada”, o que também pode ser entendido como “estar sempre disposto a servir à pátria”. Fonte: Yao Xiao.

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