Sistema eleitoral de Hong Kong, empréstimos da China para países em desenvolvimento e movimento feminista na China

Reforma eleitoral em Hong Kong e um raio-X dos empréstimos chineses

Reforma eleitoral de Hong Kong foi o assunto da semana. Pequim fez uma das mais relevantes alterações na Lei Básica do Território desde 1997. De maneira geral, o texto altera as composições do Conselho Legislativo e do Comitê eleitoral, reduzindo a proporção de candidatos eleitos diretamente. Sob o argumento de assegurar que apenas “patriotas” ocupem os cargos, também passa a ser obrigatória a aprovação prévia, o que antes só ocorria para o cargo de Chefe Executivo, o mais alto da hierarquia, ocupado atualmente por Carrie Lam. Isso será feito por meio de um comitê de verificação, com dados fornecidos pela polícia. Os candidatos que forem rejeitados não poderão recorrer judicialmente. Como o tema tem uma série de detalhes e números, recomendamos uma leitura atenta deste relatório aqui.

Na esteira da reforma eleitoral, os tribunais de Hong Kong condenaram sete oposicionistas na quarta-feira (31) por promoverem manifestações pró-democracia em 2019. Entre eles estão Martin Lee — tido como “pai da democracia” honconguesa desde quando a cidade era colônia britânica —, Jimmy Lai — magnata da mídia local — e outros cinco ex-legisladores. As sentenças devem ser anunciadas em 16 de abril.

A moeda digital chinesa (DC/EP) deve chegar a 1 bilhão de usuários em 10 anos. Essa é uma das conclusões de um relatório da Goldman Sachs publicado recentemente, que também prevê que 15% dos pagamentos online serão feitos usando a nova moeda. Boa notícia para o consumidor, mas tempo fechado para as gigantes de fintech Alipay e WeChat Pay, que abocanham 90% das transações realizadas via celular atualmente. Para David Pan, do Coindesk, é do interesse do governo central diminuir o poder dessas empresas sobre a economia nacional. As gigantes de tecnologia sofrem cada vez mais escrutínio das autoridades sobre práticas de monopólio e competição desleal.

Um Sherlock Holmes da censura: é mais ou menos assim que se pode definir o trabalho de Wang. O detetive da web, como ficou conhecido, compila em uma planilha do Google os motivos que levam alguém a ser censurado e punido por comentários online ou offline. Nela, Wang centraliza casos que ocorreram desde 2013, quando Xi Jinping ascendeu ao poder, até agora. Há mais de 2 mil casos registrados e separados em duas principais categorias: comentários relacionados à Covid-19 — como o caso do médico Li Wenliang, o combate da pandemia no país e a origem do vírus — e críticas ao Partido, incluindo temas relacionados à segurança nacional, soberania sobre Taiwan, liberdade de expressão e críticas a líderes do passado ou do presente, como Mao Zedong e, obviamente, Xi Jinping. É possível ver na planilha o crime que teria sido cometido, em qual plataforma online o comentário foi publicado, a sentença dada (que varia, nos registros de Wang, de alguns dias até quase décadas), além de notícias referentes aos casos.

campanha contra empresas que não querem usar algodão de Xinjiang esfriou, mas as contas oficiais chinesas parecem ter postado mais do que o normal sobre a região nas redes sociais — inclusive usando vídeos de estrangeiros defendendo a China. Um painel independente da ONU, formado por especialistas na relação entre direitos humanos e empresas, divulgou uma nota no dia 29. Nela, reforçam que as firmas envolvidas façam análises sérias sobre a sua cadeia de suprimentos e pedem acesso para a realização de missões diplomáticas de avaliação da situação. Não é só algodão que está sob escrutínio, mas a cadeia da viscose produzida na região também, segundo o South China Morning Post. Em meio a isso, a mídia chinesa relatou que uma delegação composta por diplomatas de 21 países visitou a região entre os dias 30 de março e 2 de abril, em uma viagem organizada por Pequim, com o objetivo de “desmascarar rumores” sobre Xinjiang.

Garantir boas relações com vizinhos é sempre importante e Pequim sabe disso. Após voltar de viagem do Oriente Médio, como contamos na edição passada, o ministro das relações exteriores da China, Wang Yi, deve focar agora nos países no sudeste asiático. Não é à toa: cerca de 200 navios chineses estão ancorados no Mar do Sul da China, conforme relatos das Filipinas. Nesse contexto, Wang Yi recebeu uma visita de Teodoro Locsin, ministro das relações exteriores filipino na sexta-feira (02). A nota sobre a reunião destacou o fortalecimento dos vínculos entre os dois países e também a realização de projetos da Iniciativa Cinturão e Rota, além da busca pela implementação de um Código de Conduta sobre o Mar do Sul da China. A pequena maratona de visitas incluiu também os ministros da MalásiaIndonésia e Cingapura. Nessa agenda cheia, ainda sobrou espaço para uma conversa com a Coreia do Sul sobre desnuclearização da península.

Com tanta política para a vizinhança, vale ler esse texto sobre uma palestra do renomado especialista em política externa, Zhang Baijia. Durante evento realizado em outubro passado, ele falou sobre a falta de pesquisa na China sobre os seus vizinhos e a urgência em remediar essa questão.

A decisão da BBC de transferir seu correspondente de Pequim para Taipei reacendeu o debate sobre a diminuição de jornalistas estrangeiros fazendo reportagens na China continental. John Sudworth deixou a capital na semana passada alegando ter sofrido ameaças após publicar reportagens sobre uigures em Xinjiang. De acordo com o FCC (Foreign Correspondents’ Club of China) — associação de correspondentes internacionais sediados em Pequim — ao menos 20 jornalistas deixaram a China continental desde o ano passado. O clube de correspondentes publicou uma nota manifestando preocupação sobre a saída de Sudworth. Já o governo chinês afirmou que o jornalista deixou Pequim “sem se despedir”, negou ameaças por parte de funcionários do estado e o acusou de publicar notícias falsas sobre a China. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hua Chunying, chamou o FCC de “organização ilegal”. Sobre esse tema, vale a leitura deste texto sobre a relação da China com estrangeiros, sobretudo com jornalistas, na construção de pontes com o Ocidente.

A OMS e o relatório de Wuhan: mais perguntas que respostas. A divulgação do resultado do trabalho realizado pela OMS para investigar possíveis origens do novo coronavírus renovou o clima de desconfiança mútua entre países. O documento em si não trouxe informações diferentes em relação ao que foi anunciado logo após o fim da visita a Wuhan, em fevereiro. O assunto ganhou nova repercussão com as  declarações do Diretor-Geral do órgão, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ao afirmar que a China pode ter retido dados sobre os primeiros casos. Especialistas chineses que participaram dos estudos disseram que todos tiveram acesso às informações. A imprensa local enfatizou que novos trabalhos precisam ser feitos inclusive em outros países. O governo tem resgatado hipóteses de que o transmissor da doença pudesse ter chegado à China por meio da cadeia de frios ou por meio dos Jogos Militares de 2019. Já os EUA e outros 13 países divulgaram um documento endossando preocupações levantadas após o relatório da OMS.

Como a China empresta? Em uma minuciosa análise, o pessoal do AidData destrinchou os termos e as condições de 100 contratos que os principais bancos de desenvolvimento da China firmaram com 24 países em desenvolvimento ao redor do mundo. Segundo eles, há três características em comum nos contratos analisados — majoritariamente assinados com o China Development Bank e China Export-Import Bank: todos possuem cláusulas de confidencialidade pouco usuais em acordos mais tradicionais; acordos de garantia fora de reestruturação coletiva e condições que permitem maior influência política sobre os devedores. Há até a menção de término das relações diplomáticas entre o país devedor e a China em casos de inadimplência. O relatório conclui que há pontos de tensão entre a narrativa de cooperação Sul-Sul e o padrão de muitos contratos. Ao mesmo tempo, a China é um dos poucos credores internacionais capazes de assumir tantos riscos de reembolso em alguns países de renda baixa, o que a torna uma parceira de fundamental importância, principalmente em um mundo assolado pela pandemia.

E para quem gosta de dados e estuda a influência do gigante asiático na África, ficou mais fácil pesquisar os investimentos chineses por lá. A Universidade de Boston e a Universidade John Hopkins lançaram uma base de dados com todos os investimentos chineses destinados ao continente de 2000 a 2019.

Novos casos de Covid-19 levaram ao fechamento completo de Ruili, uma cidade chinesa que fica na fronteira entre China e Myanmar. Ruili possui 300.000 habitantes e é um dos principais postos de imigração da província de Yunnan, onde está localizada. Com 48 registros confirmados e 37 casos de pessoas assintomáticas na cidade, a resposta do governo central foi imediata: além de fechar o acesso à Ruili e adicionar mais de 500 pontos de controle ao longo da fronteira entre os dois países, iniciou uma campanha de vacinação em massa para inocular cada um dos cerca de 300 mil habitantes da cidade até a próxima terça-feira (06). O sucesso na contenção do surto em Ruili pode servir de ensinamento para futuros casos em cidades fronteiriças, onde a imigração ilegal é uma prática comum.

Você sabe o que é vogueNão é só a música da Madonna. Criado nos anos 60 na cena LGBTQIA + negra e latina no Harlem, EUA, é um estilo de dança que segue ganhando adeptos no mundo todo. Em dezembro passado, a Sixth Tone fez uma matéria sobre voguing entre jovens chineses, principalmente mulheres heterossexuais. Segundo o artigo, o movimento na China cresceu após a chegada de Irina Bashuk em 2018, que abriu o primeiro local dedicado ao vogue chinês em Shanghai, e à popularização do reality show RuPaul’s Drag Race. No final de março, uma competição ocorreu em Pequim, com muito lip sync e glitter. Os organizadores enxergam na dança não apenas uma maneira de se expressar, mas também de se rebelar contra os padrões patriarcais da sociedade. Confira algumas fotos do evento.

Por falar em questões patriarcais da sociedade chinesa, a condenação de uma jovem por extorsão, desta vez envolvendo autoridades do governo, reacendeu discussões sobre o #MeToo na China. Xu Yan foi sentenciada a 13 anos de prisão, devolução de dinheiro e pagamento de uma multa de 869 mil dólares após ser acusada de se valer de relacionamentos para obter dinheiro por homens com cargos públicos em um pequeno vilarejo da província de Jiangsu. O caso gerou repercussão com uma série de vozes se levantando no país por verem motivação de gênero e abuso de poder na aplicação de uma pena excessivamente severa à jovem. Os casos não param por aí, a feminista Xiao Meili teve sua conta banida do Weibo sob acusação de apoiar a independência de Hong Kong. Muitos enxergam como retaliação à ativista. Em março, mês do Dia Internacional da Mulher, ela fez um vídeo defendendo a necessidade de luta pelas causas feministas. Se você quiser saber mais sobre o movimento #MeToo na China, já falamos sobre o tema em edições anteriores.

Durante o Festival de Qingming, ocorrido nesse fim de semana, antepassados são relembrados e seus túmulos recebem visitas, faxinas e presentes. Ao contrário de 2020, quando visitas aos cemitérios foram limitadas devido à pandemia, esse ano as viagens puderam ser realizadas e seus níveis praticamente retornaram ao patamar de 2019. Mas a celebração não foi a única a receber o centro das atenções no feriadão: a data foi marcada pela maior tragédia ferroviária em quatro décadas em Taiwan. Na sexta-feira (02), um trem que levava centenas de passageiros de Taipei para Taitung colidiu com um caminhão que caiu sobre os trilhos, matando ao menos 51 pessoas e ferindo mais de 200. No Weibo, postagens demonstraram preocupação e Xi Jinping lançou nota de “condolências aos compatriotas” pelas mortes no acidente. No Global Times, a notícia incluiu críticas ao governo da ilha, com afirmações de que o acidente é sinal de problemas maiores — segundo um netizen, o governo taiwanês gasta muito em compras de armamentos dos EUA e investe pouco em segurança para seus cidadãos.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Podcast: conheça Aizhe, apresentador de um dos maiores podcasts da China, o 故事FM. Em uma conversa descontraída no ChinaTalk, Aizhe fala sobre a importância de contar as histórias de pessoas comuns, e as mudanças que o jornalismo chinês tem passado desde 2010.

Pintura: Georgette Chen nasceu em 1906 em família rica, na província de Zhejiang. Ao longo da vida, estudou pintura no exterior e viveu em vários países, falecendo em Cingapura. Seu estilo faz parte da corrente Nanyang, que misturava técnicas ocidentais e chinesas de pintura e foi fundada por chineses da diáspora.

1º de abril: esse texto satírico publicado pelo War on the Rocks imitando uma proposta de grande estratégia dos EUA para a China vai garantir boas risadas.

Música: está procurando uma batida para ficar de boa? A música de DJ Didilong e Jerry Li pode ser o que você busca. Aumenta o som!

Para ler com um cafezinho: o ChinaPower fez uma longa análise sobre o quão competitivas são as cidades globais da China, que possui 18 cidades do tipo (o Brasil tem 6), e o que esperar delas em um mundo pós-pandêmico.

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