Liu He foi escolhido por Xi Jinping para cuidar da indústria de semicondutores

"Chinese Vice Premier Liu He, right, arrives at the Office of the United States Trade Representative in Washington on 10th of May for trade talks. (Andrew Harnik/AP)" by quapan is licensed under CC BY 2.0

Xi escolhe braço-direito para comandar indústria de chips

chips Xi China Shumian

 

 

Xi quer tornar a China líder no mercado de semicondutores. Num esforço de manter-se à frente do mercado global de tecnologia, a China deve reforçar agora a produção da terceira geração de chips. Esta semana, o presidente Xi Jinping escolheu Liu He, uma liderança forte de sua confiança, para tocar o assunto e garantir o sucesso do gigante asiático, numa tentativa de contornar as sanções estadunidenses. Analistas viram na escolha de Liu um sinal de que este é um tema de maior importância para Pequim.

A China é o maior consumidor de chips do mundo, o que permite que, mesmo num momento em que o mundo resiste à aquisição de tecnologia 5G da China, a Huawei intensifique sua produção e seus investimentos em chips, como mostra a Caixin. Se você quiser fazer uma leitura mais atenta sobre o tema, recomendamos este texto do Asia Nikkei sobre as disputas entre China e Estados Unidos na questão dos semicondutores.

Velozes e interligados? O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China lançou um programa piloto de Internet das Coisas (IoT, em inglês) para veículos, em um plano de desenvolvimento com duração até 2035. Segundo o Pandaily, o atual teste de Internet of Vehicles (IoV) será feito em diversas cidades, focando em verificar a compatibilidade dos carros inteligentes com as rodovias, incluindo autenticação e segurança de dados. Em Wuxi, na economicamente avançada região do delta do rio Yangtzé, um projeto lançado em janeiro já está em andamento em colaboração com a Huawei por se relacionar diretamente com o uso do 5G. O setor vem se desenvolvendo desde que o ministério anunciou uma série de diretrizes em 2017, o que alimenta especulações sobre uma disputa tecnológica com os EUA na questão de IoV. Já falamos sobre testes com robotáxis aqui.

Lutando contra a desertificação. Há décadas o norte chinês sofre com o avanço desse processo, especialmente na fronteira com o deserto de Gobi. Entre o mau uso da terra e mudanças climáticas, a degradação do solo é uma questão global e a China enfrenta um perigo de expansão desértica em 27% do seu território. Essa é uma questão de sobrevivência para 400 milhões de pessoas afetadas. A atuação de comunidades locais é parte do combate ao problema, como mostra uma recente matéria fotojornalística da Reuters sobre fazendeiros que plantam árvores para tentar reverter esse processo. Criado em 1978, o projeto apelidado de “Grande Muralha Verde” é uma das ações de resposta do governo. Ao longo dos anos, diferentes projetos vêm sendo desenvolvidos, como na região de Ningxia, que recebeu financiamento do Banco Mundial. Ainda assim, os resultados são demorados e as recentes tempestades de areia que atingiram Pequim colocam o problema nos pulmões do governo central.

Em 2017, o país foi sede de uma conferência da ONU para o combate à desertificação e degradação do solo, na região da Mongólia Interior. A gente jura que não sabia quando escolheu essa pauta, mas dia 17 de junho foi Dia Mundial do Combate à Seca e à Desertificação.

O governo chinês vai aumentar sua interferência nos mercados? Por enquanto há mais perguntas do que respostas, mas trazemos aq

ui dois debates que podem indicar este movimento de Pequim. Reportagens recentes, como esta publicada pela Bloomberg, apontam para cuidados do governo chinês com riscos no mercado por meio de um aumento em sua intervenção. O texto fala, por exemplo, sobre um alerta das autoridades nas últimas semanas para que empresas chinesas diminuam sua exposição no exterior em relação ao mercado de commodities. Já esta reportagem do South China Morning Post traz uma reflexão sobre a valorização do renminbi e questiona se a moeda vai se fortalecer frente ao dólar antes de uma nova ação de Pequim. Nos dois casos, o que parece estar de pano de fundo é uma tentativa do governo central de diminuir riscos e fortalecer a economia chinesa num momento em que o mundo aguarda o comportamento dos mercados após as baixas durante a pandemia. Vale lembrar que temos trazido em nossas edições temas ligados à preocupação do governo central com questões regulatórias como as criptomoedas, por exemplo, e o mercado imobiliário.

E por falar em regulação, na semana passada, contamos sobre as altas expectativas em relação à Didi ser listada na bolsa de Nova York. Mas os planos da empresa de transporte por aplicativo — que no Brasil é a dona da 99 — podem naufragar. A Reuters publicou uma reportagem exclusiva indicando que a empresa chinesa deve entrar na mira do órgão antitruste chinês. Com isso, o clima parece ter dado uma esfriada. Vamos esperar.

Apertou o cerco. Em mais uma investida contra veículos de imprensa, na última quinta-feira (17), a polícia de Hong Kong fez uma grande operação na sede do jornal Apple Daily. Envolvendo mais de 500 policiais, a ação resultou no confisco de equipamentos da redação, no congelamento de contas e na detenção de diretores e editores. Famoso por seu posicionamento abertamente contrário a Pequim, o tablóide já havia tido algumas contas bloqueadas pela justiça, como contamos aqui, e seu fundador está preso desde agosto de 2020. Assim como nos casos anteriores, a intervenção desta semana é baseada na Lei de Segurança Nacional. Segundo declaração do secretário de segurança de Hong Kong, público e imprensa devem cortar relações com as pessoas presas durante a operação, de modo a evitar “arrependimentos”. Apesar das baixas, o periódico se manifestou sobre o assunto no mesmo dia e seus jornalistas conseguiram publicar a edição do dia seguinte com tiragem seis vezes maior do que o normal e com direito a filas em bancas de jornais. O destino do tablóide, contudo, ainda não está claro e deve ser definido esta semana.

Pequim também está de olho em Macau. A Região Administrativa Especial anunciou o fechamento de seu escritório de representação econômica e cultural em Taiwan a partir do dia 19 de junho. A medida foi tomada um mês após Hong Kong ter feito o mesmo e a justificativa foi praticamente igual: o apoio dado pelo governo taiwanês a grupos oposicionistas. Seguindo esse tom, Deng Zhonghua, representante do governo central,  afirmou que Macau precisa de uma reforma eleitoral semelhante à de Hong Kong para garantir que apenas “patriotas” ocupem cargos de poder.

 

 

Difamações, manipulação, calúnias e exageros. Essas foram algumas das palavras usadas pelo governo chinês para condenar os recentes comunicados do G7 — que contamos aqui — e da OTAN. Na segunda-feira (14), a aliança militar declarou considerar que a China representa um “desafio sistêmico” à ordem internacional, sendo uma ameaça à sua segurança ainda que não seja inimiga nem adversária. Os 30 países do bloco liderado pelos EUA justificaram-se citando, entre outros, falta de transparência na modernização militar chinesa e uma postura mais assertiva em âmbito global. A China respondeu dizendo que a OTAN estaria difundindo a “teoria da ameaça chinesa” nessa que, segundo a BBC, teria sido a primeira reunião em que Pequim foi prioridade na agenda da aliança. De acordo com o Spiegel, 28 caças da Força Aérea do Exército de Libertação Popularvoaram próximos ao espaço aéreo de Taiwan em resposta ao G7 e ao bloco militar.

Esses acontecimentos vieram na esteira das primeiras viagens do presidente dos EUA, Joe Biden, a países europeus para estreitar laços políticos, econômicos e militares. Apesar disso, conforme Edward Luce disse no Financial Times, o tour de Biden pela Europa mostrou a todos que o principal foco de sua política externa é a China. Entre os que não veem muita diferença em relação à política externa de Trump está Bernie Sanders, senador independente no Congresso dos EUA e principal adversário de Biden nas primárias do Partido Democrata. Em artigo na Foreign Affairs, Sanders advertiu contra um crescente consenso em Washington de confronto com Pequim, como se houvesse uma “nova Guerra Fria” em curso.

Falando em China e em ordem global, uma das vertentes da “teoria da ameaça chinesa” afirma que o país asiático estaria em vias de dominar a ONU e suas agências especializadas devido a um crescente número de funcionários chineses nessas organizações. Aliás, nossa editora sênior Júlia Rosa, já escreveu sobre o assunto, vale conferir. Esta semana, Courtney Fung e Shing-hom Lam rebatem essa teoria em um artigo na revista International Affairs. Os autores mostram que, depois da Rússia, a China é o país que menos ocupa cargos de liderança no Sistema ONU dentre os membros permanentes do Conselho de Segurança — EUA, França e Reino Unido continuam bem à frente. Fung também fez um fio no Twitter comentando o artigo e sugerindo outras leituras.

Aliás, se você se interessa pelo tema, prepare um bule de chá verde para ler o texto de Peter Martin na The Atlantic sobre os primeiros diplomatas da República Popular da China junto à ONU e seus choques de realidade em Nova York.

Investimentos diretos chineses na Europa estão em queda. Esse é um dos principais dados apresentados em relatório do Rhodium Group e do Instituto Merics. Em 2020, o dinheiro do país asiático aplicado no exterior em geral caiu. Na Europa não foi diferente: uma queda de 45% em comparação com o ano anterior, totalizando 6,5 bilhões de euros (aproximadamente R$ 40 bi) — valor mais baixo dos últimos 10 anos. O relatório também aponta que a tendência permaneceu no primeiro trimestre de 2021, havendo sinais de dificuldade para a recuperação a níveis anteriores. França, Alemanha e Reino Unido mantiveram-se os principais destinos dos investimentos chineses — Londres no entanto sofreu a pior queda (77%).

Caro Xi, é hora de voltar a Deng, Mao e Jiang. No fim de maio, o presidente chinês Xi Jinping disse em reunião do Politburo que seu país precisava se comunicar melhor com o Ocidente. Como contamos aqui, isso não causou muita esperança entre analistas de que essa declaração mudaria a forma como o país tem tratado a cobertura da imprensa estrangeira, mas há quem diga que o atual líder do país precisa olhar para trás e lembrar como fizeram alguns de seus antecessores como Mao Zedong, Deng Xiaoping e Jiang Zemin. Este texto do South China Morning Post traz uma reflexão sobre a declaração de Xi e sobre a relação do comando do PCCh com jornalistas no passado . Vale passar um cafezinho e ler o texto.

Como a América Latina pode se posicionar melhor em meio às tensões entre China e Estados Unidos? Como escrevem Felipe Larraín e Pepe Zhang (autor de um recente estudo feito com Tatiana Prazeres, que comentamos aqui) para o Project Syndicate, a região deve estar atenta a pelo menos três aspectos no curto prazo: entender como cada potência está alinhada ao projeto de desenvolvimento de seu país; diversificar parceiros comerciais, até mesmo para diminuir o peso de Estados Unidos e China em suas economias; e melhorar a competitividade de suas exportações, como reduzir custos de transporte e tarifas. Os pontos levantados por Larraín e Zhang servem para pensar como amortecer os impactos da guerra comercial entre Washington e Pequim na região. Se você quiser pensar por uma perspectiva mais geopolítica, recomendamos o texto de Esteban Actis e de Nicolás Creus para o jornal argentino Clarín, em que eles discutem as vantagens do “não alinhamento automático” para a região.

 

 

Influenciadores que caem nas boas graças do governo? Não é só no Brasil, não. Viya, a intitulada “rainha do livestream”, é um recente exemplo de como populares blogueiras chinesas acabam se tornando também parte consciente dos esforços de propaganda. A matéria de Shen Lu, do Protocol China, conta a história de Viya, ou Huang Wei, que ficou milionária vendendo produtos online. Desde 2020, Viya viu sua carreira tomar caminhos um pouco mais políticos ao se tornar figura chave nas campanhas de apoio a pequenos fazendeiros e palestrar sobre a importância de se engajar em atividades de interesse público. E ela não é a única: a youtuber hit dos hits Li Ziqi já foi alçada a embaixadora da juventude para a promoção da prosperidade rural; e o tibetano Zhaxi Dingzhen, ou Tenzin, virou uma sensação e acabou se tornando parte da campanha de turismo regional.

Plataformas de vídeos curtos popularizaram blogueiros mostrando a vida no campo, como Qiaofu Jiumei e os irmãos Huanong, mesmo que às vezes essas representações sejam excessivamente bucólicas — como no caso de Li e Dianxi Xiaoge. Fazendo bom uso do termo “influenciador”, esses vídeos representam um poderoso registro, oferecem nostalgia e uma oportunidade para quem vive nas cidades de ter um certo orgulho maior da sua cultura. O uso dessas figuras para incentivar a economia do campo (e aumentar a influência chinesa) não é novidade, mas vem acompanhado de discussões sobre o equilíbrio entre conteúdo autoral e propaganda.

Em meio a acusações de ONGs e de países aliados dos EUA de graves violações de direitos humanos em Xinjiang, dados do último censo divulgado pelo governo chinês mostram um aumento da população han na região e uma diminuição dos uigures. Na última década, a população na província cresceu impressionantes 18,3%, chegando a 25,9 milhões de pessoas. Mais da metade desse crescimento, segundo o Global Times, pode ser atribuída à etnia han, levada à região pela ampliação de oportunidades profissionais. O boom populacional na capital Urumqi inclusive ameaça a estabilidade de recursos hídricos e o ecossistema da região, segundo matéria do South China Morning Post. Sobre o tema, recomendamos esta reportagem da Reuters, que fala sobre políticas de Pequim que podem levar à diminuição de nascimentos da minoria étnica na região. Em tempo: nesta segunda-feira (21), Michelle Bachelet, Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, afirmou que pretende realizar uma missão em Xinjiang ainda esse ano.

É cringe ouvir podcast? Para os jovens chineses, parece que não. Esta interessante reportagem do Sixth Tone conta como, num país hiperconectado como a China, o mercado de podcasts se expandiu. Mais do que isso, ele se tornou, para os mais jovens, um espaço para que encontrem suas vozes. De acordo com o texto, até o mês de maio, o país tinha cerca de 10.000 podcasts, segundo um levantamento feito na plataforma Listen Notes. A reportagem cita inclusive uma pesquisa (em mandarim) que mostra quem são os principais ouvintes desse tipo de produto. Não surpreende que sejam jovens de elite.

O mercado se autorregula quando o tema é literatura? Quantos livros de ficção chineses você já leu, ou melhor, encontrou com facilidade para comprar na sua língua? Numa tentativa de cruzar essa dificuldade linguística, leitores entusiastas se organizam para traduzir obras por conta própria, por meio da internet. Este texto do Radii ilustra como séries, audiodramas e ficção contemporânea online têm ganhado versões em outras línguas por meio de fãs.

Por falar em tradução, morreu aos 100 anos o venerado tradutor Xu Yuanchong. Xu foi responsável por traduções para o chinês de clássicos da literatura ocidental como Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Ele também traduziu para o inglês a famosa obra Analectos, de Confúcio.

China comemora a marca de 1 bilhão de doses de vacinas aplicadas. Algo muda? O mundo quer saber se o gigante asiático vai abrir suas fronteiras, já que a pandemia está relativamente controlada. Mas analistas e diplomatas que acompanham a política interna chinesa não veem sinais de que as coisas possam mudar. Contamos, há duas semanas, que a expectativa era de que o país só flexibilizasse a restrição de entradas a partir do segundo semestre de 2022. Por enquanto, embora na capital Pequim — onde devem se dar as comemorações do centenário do partido no próximo dia 1º — as coisas estejam controladas, a populosa província de Guangdong e seus arredores, como Shenzhen, enfrentam um novo surto de coronavírus após novos casos terem sido importados. O cenário, por enquanto, é de tudo fechado e cancelamento de voos na região.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Não ficção: como é ser uma pessoa queer de mais idade em Taiwan? Conheça a história de Yun-Fan, que foi colocada no papel por Wanning Chen e traduzida do mandarim para o inglês no site Words Without Borders.

Ser podre de rico é cafona! Numa reportagem em áudio, a BBC mostra por que a ostentação de chineses endinheirados tem gerado indignação nas redes sociais, num contexto em que a China se depara com a realidade de que não há espaço para todos prosperarem.

Aumenta o som: nem só de podcast vive o sujeito em tempos pandêmicos. Se você busca um sonzinho para relaxar com uma voz suave, que tal conhecer Shallow Levée? O som da banda taiwanesa varia entre indie rock e folk. Clica aqui.

Para os mandarineiros: a dica de newsletter para estudar chinês e ficar por dentro de novas expressões é a Slow Chinese.

Viagem sideral: como comentamos no Twitter, na semana passada a China enviou três taikonautas à sua estação espacial, Tianhe. Veja em vídeo o momento de sua chegada. Aliás, os três são filhos de camponeses de pequenos vilarejos, fato comemorado em redes sociais.

Um pouco acadêmico: a China como potência científica? Este artigo de Simon Marginson discute a evolução do país em seus investimentos em tecnologia e ciência. Na mesma leva, por que não entender a estratégia para o desenvolvimento de inteligência artificial chinesa? É o tema deste outro texto, de Ngor Luong e Zachary Arnold, que olha para as alianças feitas no setor industrial.

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津津乐道 – jīnjīn lèdào = sentir prazer em falar sobre algo (nós, de falarmos sobre a China)

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