Fotografia em cores de estátuas de Fu Xing, Lu Xing e Shou Xing, deuses da fortuna, prosperidade e longevidade

Edição 176 – A prosperidade comum, segundo Xi Jinping

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

PIB decepciona. Se no início do ano a China comemorou ter crescido acima da média mundial, o resultado do PIB trimestral não é animador. Nós tínhamos falado por aqui que o resultado de 2020 precisava ser observado com mais atenção. Este texto da CNBC fala sobre o impacto da baixa atividade industrial no resultado do terceiro semestre. Em edição recente, falamos aqui sobre como a China vem tentando manter o ritmo da atividade econômica para atingir a meta de crescimento de 6% ao mesmo tempo em que enfrenta uma crise energética. 

Prosperidade comum, segundo Xi. Desde agosto, o termo vem sendo amplamente debatido na imprensa e em diversos fóruns sobre China. Estaria o país deixando o modelo de mercado para trás? Ao que tudo indica, não é bem assim. Meses depois de usar o termo, o líder chinês agora publicou um artigo (em mandarim) para deixar mais claro o que é a “prosperidade comum”. O texto ainda não tem tradução oficial para outros idiomas, mas o Adam Ni do China Neican fez uma tradução para o inglês.

Algumas reportagens dão conta de destacar os principais argumentos de Xi. O South China Morning Post reportou a busca por um modelo de distribuição em “formato de azeitona”, que teria na base e no topo uma menor distribuição da população, ou seja, mais ricos e mais pobres, e maior concentração na classe média. O jornal fala ainda sobre a crítica feita por Xi à polarização política atual e ao  躺平 tang ping, termo que viralizou entre os jovens chineses recentemente, como falamos aqui. Além disso, vale ler este artigo de Zhou Xin sobre como deve se dar este caminho. A Reuters fez uma reportagem destacando a fala de Xi sobre a necessidade do aumento progressivo de impostos sobre propriedade, tema espinhoso em qualquer país. O texto também foca no que o presidente diz sobre um aumento do populismo ao redor do mundo – que não inclui a China. Esses e outros pontos sobre o discurso podem ser encontrados neste interessante fio do Kaiser Kuo, do Sinica Podcast, no Twitter.

9-9-6 é coisa do passado, a moda agora é… é 10-9-5. Há apenas algumas edições, falamos sobre a proibição do 996, o que parecia indicar o fim de jornadas de trabalho excessivas na China. Mas na semana passada ficou claro como as mudanças podem tardar. Quatro estagiários de empresas de tecnologia chinesas, querendo saber o que esperar do mercado pós-formatura, decidiram circular uma planilha para que colegas compartilhassem suas cargas de trabalho, e o resultado… Segundo uma análise da newsletter SupChina A.M. (que salvamos aqui), ao invés de turnos das 9 da manhã às 9 da noite por 6 dias da semana, os trabalhadores de tecnologia chineses parecem agora trabalhar das 10 às 9, 5 dias por semana sem contar eventuais horas extras.

Até quarta-feira (13), a planilha (que não está mais disponível) havia recebido mais de 3.500 contribuições  e 10 milhões de visualizações, segundo apuração do South China Morning Post. Entre as empresas citadas, estavam as gigantes Alibaba, Tencent, ByteDance e Meituan. Um dos responsáveis pela iniciativa declarou que pretende continuar colhendo esses dados e fazendo campanha por melhores jornadas até que não seja mais necessário seja pelo fim da prática de 996 ou sua regulamentação.

Ativistas presos. Há quase um mês comentamos sobre o desaparecimento na China dos ativistas Sophia Huang e Wang Jianbing, ligados a movimentos feministas e trabalhistas, respectivamente. Algumas semanas depois, a polícia de Guangzhou confirmou as detenções, sem no entanto oferecer mais detalhes, como a localização dos prisioneiros ou as acusações feitas contra eles.

Falando em prisão, o depoimento de um homem chinês que afirma ter sido agente penitenciário em Xinjiang foi divulgado pela CNN no início do mês, e virou pauta no Twitter. Jiang, agora exilado na Europa, contou sobre as práticas de tortura de prisioneiros uigures. Ele apresentou documentos, seu uniforme e registros de imagem para corroborar o seu testemunho, que o veículo de mídia afirmou não poder confirmar de maneira independente e, à época, não ter tido retorno das autoridades chinesas. Na semana passada, o estatal Global Times publicou uma matéria cheia de declarações do representante do governo de Xinjiang, afirmando que tudo que constava no depoimento era mentira.

Uma recente matéria de Dake Kang para a The Associated Press afirma que muitos dos aspectos mais visíveis do estado securitário na região já sumiram, em uma tentativa de trazer uma sensação de normalidade. Kang realizou duas viagens para Xinjiang no último ano, uma delas financiada pelo governo chinês em abril. Em sua análise, a mudança na situação da região pode se dar pela percepção da crítica (e sanções) internacional. Ele comenta também que muitos dos aspectos culturais da minoria uigur foram sanitizados para se tornarem produtos turísticos.

A China teria testado novo míssil hipersônico em segredo, em agosto deste ano, segundo matéria do Financial Times. As fontes anônimas consultadas pelo jornal relatam que o míssil, que teria voado a uma velocidade cinco vezes mais rápida que a do som, e seria capaz de carregar ogivas nucleares, teria dado uma volta na Terra antes de errar seu alvo por uns 30km. Apesar do erro de precisão, o teste mostraria que a China tem uma tecnologia hipersônica mais avançada do que se acreditava — os EUA, que também desenvolvem esse tipo de armamento, inclusive teriam se surpreendido com o resultado. Vale destacar que a revelação se desenrola em meio à definição do orçamento de defesa dos Estados Unidos para o ano que vem. Mísseis hipersônicos tornariam obsoletos os atuais sistemas de defesa antimíssil, porque voam mais baixo e são manobráveis, o que dificulta rastrear sua trajetória. Nesta segunda-feira (18), o governo chinês negou o teste de mísseis hipersônicos e disse que era um veículo espacial, como conta a BBC. Sobre a modernização e estratégia militar chinesa, não deixe de conferir o relatório de Anthony Cordesman, do Center for Strategic and International Studies. 

Falando em surpresas militares, o The Drive publicou uma matéria com análise de fotos de satélite que mostram que a China continental vem construindo e ampliando instalações em três bases aéreas próximas a Taiwan.

ZaiJian 再见, LinkedIn. Após sete anos operando no país, o LinkedIn anunciou na quinta-feira (14) que vai deixar a China até o fim do ano. Citando “ambiente desafiador” para as operações, a rede social voltada para o ambiente profissional disse que deve desenvolver um aplicativo específico para o mercado chinês, focado na divulgação de vagas de trabalho. O LinkedIn, que pertence à Microsoft desde 2016, se viu em situações controversas em seu período de atuação na China, onde a maior parte das redes sociais comuns em países ocidentais, como Twitter, WhatsApp e Instagram, é bloqueada. Um caso recente foi a censura de perfis de jornalistas. Para se aprofundar no assunto do contexto em que a empresa decidiu encerrar suas operações no país asiático, vale ler este texto do Protocol.

Por falar em aplicativos em território chinês, a Apple tirou o app Quran Majeed de suas lojas na China. O aplicativo, com conteúdos do Alcorão, é amplamente usado por muçulmanos. A religião é um tema sensível na China, sobretudo em Xinjiang, com divergências e forte controle do governo central sobre a minoria uigur, que professa a fé. Segundo a BBC, a Apple não respondeu às solicitações da reportagem sobre os motivos que a levaram a remover o aplicativo de sua loja. A companhia responsável pelo aplicativo, no entanto, declarou ter sido informada que o pedido de remoção foi feito pelo governo chinês, e que documentos adicionais seriam necessários para avaliar o retorno do aplicativo para a loja. Na mesma ocasião também foi removido um app com conteúdos da Bíblia.

China limita produção de magnésio e põe indústrias em alerta na Europa. Em setembro, a Comissão de Desenvolvimento e Reforma da cidade de Yulin decidiu limitar ou mesmo suspender todas as atividades industriais intensivas em energia elétrica para conter os efeitos da atual crise enfrentada no país. A produção de magnésio, metal fundamental para a fabricação de ligas com alumínio e na produção de ferro e aço, foi severamente impactada pela medida. Segundo manifesto da WV Metalle, entidade da indústria metalúrgica alemã, divulgado pela Foundry Planet, 31 fábricas chinesas que processam o mineral pararam ou reduziram sua produção em 50%. A China é responsável por 87% do magnésio produzido no mundo e 95% de todo o magnésio utilizado na Europa vem do país asiático – assim, teme-se que todas as cadeias industriais que dependem do mineral sejam obrigadas a parar ainda antes do final do ano, conforme relatou o Welt. A escassez da matéria prima já fez seus preços dispararem internacionalmente, afetando particularmente a indústria automotiva. Resta observar como isso afetará o Brasil, que é um dos cinco países que mais produzem o mineral no mundo, ainda que bem atrás da China, conforme dados da US Geological Survey de 2021.

Adeus, velha amiga. China e Alemanha realizaram uma reunião bilateral de alto nível na quarta-feira (13) para discutir a cúpula do G20, meio ambiente, pandemia e direitos humanos, entre outros assuntos. No encontro virtual, Xi Jinping aproveitou para despedir-se da chanceler alemã Angela Merkel, que está de saída do governo, e se referiu a ela como uma “velha amiga” (lăo péngyŏu) do povo chinês , e fez uma piada interna sobre o interesse de Merkel na comida apimentada de Sichuan. Como relata o Politico, esse termo já foi usado em outros contextos diplomáticos para descrever Henry Kissinger, Richard Nixon e Fidel Castro, por exemplo. Enquanto Merkel esteve no poder, a Alemanha procurou evitar conflitos com a China e valorizou laços comerciais e engajamento multilateral, conforme texto de Thorsten Benner sobre o assunto. Aliás, a Carnegie publicou uma análise do legado de Merkel para a política externa alemã em relação ao país asiático, que afirma que seu pragmatismo deve perdurar, ainda que a troca de governo resulte em uma postura mais firme quanto aos direitos humanos.

Todo mês um novo grande evento: dessa vez é o Fórum de Cooperação China-África, ou FOCAC, que acontece no final de novembro. O encontro é trianual e será em Dakar, no Senegal. Como Xi tem pulado eventos presenciais (como a Assembleia Geral da ONU), é possível que só mande uma mensagem em vídeo. Esta análise de Paul Nantulya reflete sobre os caminhos futuros do Fórum e das relações sino-africanas (e suas desigualdades). O comércio entre a China e o continente africano atingiu um recorde de 139 bilhões de dólares nos primeiros sete meses de 2021, segundo o Ministério do Comércio chinês. Em agosto, o Conselho Empresarial China-África (CABC, em inglês) liberou um relatório sobre o setor privado: somente 12 países recebem quase ⅔ dos investimentos chineses, sendo que ¼ dos investimentos totais se dá no setor de mineração (2019).

Sequestro de filhos é crime? Esse é um debate quente na China, onde casos de um dos pais sequestrar o filho sob guarda do outro não é visto como crime. Esta interessante reportagem do The New York Times fala sobre como o crescimento das taxas de divórcio levou ao aumento desses casos. Há um debate crescente na sociedade sobre de que forma isso deve ser mudado, como por exemplo, por meio de novas leis que tornem a prática ilegal. Vale a leitura.

O mito da beleza. Há tempos falamos aqui sobre a onda regulatória na China. Este texto da Caixin fala que essas medidas atingiram agora a publicidade da indústria da beleza. O país abriu uma consulta pública sobre um guia de política pública que quer classificar o mercado de publicidade de beleza como um tipo de publicidade médica. Isso passaria a exigir uma licença específica para o ramo. Será que faz sentido? O mercado de procedimentos estéticos é grande na China, chegando a ultrapassar países como o Brasil e a Coreia do Sul. O South China Morning Post, no mês passado, publicou um alerta feito na mídia estatal sobre a necessidade de regulação deste setor. Este texto da BBC, de julho, traz alguns dados sobre essa indústria, sobretudo da cirurgia plástica, e um compilado da imprensa estatal sobre o chamado por uma regulação.

Se é para passar raiva, também veja esse minidocumentário sobre cirurgia plástica vaginal, tendência que cresce na China, incentivada por pressões estéticas. É feito pelo interessante 当下频道DxChannel, canal de YouTube sobre a geração Z chinesa. Em mandarim, mas com legendas disponíveis em inglês.

Educação Sexual. O tema é tabu no mundo, não só na China. Recentemente falamos sobre educação sexual por conta do anúncio feito pelo governo com o objetivo de evitar abortos. Mas não se trata apenas de prevenir a gravidez, certo? Este texto do Sixth Tone fala sobre como algumas pessoas sobretudo estrangeiros estão fazendo abordagens nas ruas para falar da importância do uso de preservativos a fim de evitar infecções sexualmente transmissíveis. Neste exemplo, a abordagem tem a comunidade LGBTQIA+ como principal foco – mas ela ficou completamente fora do anúncio recente do governo sobre educação sexual.

A pescaria fisgou a juventude. Há tempos vista na China como um passatempo nada glamouroso de pessoas aposentadas, a pesca tem ganhado adeptos Millennials e da Geração Z, que agora procuram alternativas de atividades ao ar livre por causa da pandemia de Covid-19. Esta matéria do Radii China conta que, além de ter crescido o faturamento do setor no último ano, surgiram diversos pescadores influenciadores em redes sociais, sendo que o Douyin (o TikTok chinês) inclusive registra a pesca como o esporte recreativo mais popular em sua plataforma. Mas quem são esses jovens pescadores que querem se reconectar com a natureza? A maioria é homem, de classe média e de zonas urbanas.

Pipoca na mão direita, bandeira na mão esquerda. Você piscou e em duas semanas o filme A Batalha do Lago Changjin quebrou inúmeros recordes, tornando-se o quarto filme com a maior bilheteria da história do país e atualmente ultrapassando o James Bond na bilheteria mundial. É um épico que se passa durante um sangrento confronto da Guerra da Coreia entre soldados chineses e as forças dos EUA. O filme foi dirigido pelo trio Chen Kaige (do premiado Adeus, Minha Concubina), Tsui Hark (da trilogia Era Uma Vez na China) e Dante Lam (de Operação Mar Vermelho)  e tem, sim, ele mesmo, o ator Wu Jing, que protagonizou Lobo Guerreiro e Terra à Deriva, outros dois blockbusters chineses.

O longa-metragem, que vem sendo elogiado pela crítica doméstica e emocionando o público, é parte de uma série de filmes patrióticos recentes — como o outro blockbuster The Eight Hundred. Com um vultoso orçamento de 200 milhões de dólares (R$ 1,1 bi aproximadamente; similar ao do primeiro Avatar), demorou cinco anos para ser finalizado e foi uma produção comissionada e supervisionada pelo Departamento Central de Propaganda e a Administração Nacional de Cinema, além de contar com apoio da Comissão Militar Central.

Filme patriótico não é exceção chinesa, como bem sabemos, mas chama atenção pelas inevitáveis comparações com Hollywood, que tenta ganhar espaço no mercado chinês. O longa também ganhou destaque por conta da prisão de Luo Changping, ex-jornalista chinês, que criticou a legitimidade da participação chinesa na guerra e foi detido sob acusação de insultar os mártires que morreram na batalha. Levantou a questão: será que é possível criticar filmes patrióticos? Na Coreia do Sul certamente criticaram bastante a visão histórica chinesa de como as coisas aconteceram.

Errata: na semana passada faltou o link da matéria do Wall Street Journal sobre o autor de sci-fi Cixin Liu. Também falamos que o mercado literário de ficção científica rendeu 1,4 bilhão — de yuan. Isso dá cerca de 217 milhões de dólares.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

História: A SupChina resgatou a história de Zhoushan, a primeira colônia britânica chinesa, e contou algumas curiosidades sobre a ilha, que britânicos à época achavam ser mais importante do que Hong Kong.

O pisante de sucesso. Nós já admitimos aqui que alguns integrantes da Shumian são fãs da Feiyue, e agora voltamos à história da marca de tênis para contar, por meio deste texto, como ela virou cool na China.

Dança inclusiva. Conheça a história de Pan Jing e de suas companheiras, que estão revolucionando a dança com cadeira de rodas em Shanghai.

HSK nível hard: Aferindo estrelas” é um poema do séc. IV escrito por Su Hui para seu marido. Em forma de matriz, pode ser lido em qualquer direção, chegando a 8 mil interpretações. Nesta versão digital, você pode ver o significado de cada caractere e praticar seu mandarim. Haja amor.

Biodiversidade: a Sixth Tone publicou uma matéria sobre as políticas adotadas para tentar salvar as salamandras gigantes chinesas da extinção. Tudo ia bem, até que descobriram que não era uma espécie só…

Animação: como é morar numa das famosas “casas-caixão” de Hong Kong? Essa é a premissa da animação curta-metragem Coffin, do estúdio francês Gobelins. O claustrofóbico filme pode ser visto na íntegra no YouTube.

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