Fotografia em branco e preto de mão segurando um celular para tirar uma foto. No celular é possível ver militares em formação.

Foto de Markus Winkler via Unsplash.

Edição 302 – China anuncia medidas em busca de autossuficiência em semicondutores

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Chips. Para impulsionar o seu setor de semicondutores, o governo chinês estabeleceu um fundo de investimento de 344 bilhões de renminbi (cerca de 250 bilhões de reais). A autossuficiência na produção de chips é o foco de Pequim neste momento, especialmente com o endurecimento das sanções unilaterais estadunidenses, e o grosso dos investimentos deve ser na manufatura de wafers (material fino de silício usado na fabricação de semicondutores)  em larga escala e chips de memória de alta banda. Os principais acionistas do fundo são o Ministério da Fazenda da China e o China Development Bank Capital, com participações de 17% e 10,5% respectivamente.

O think tank MERICS publicou um estudo em parceria com o Institute on Global Conflict e Cooperation da Universidade da Califórnia sobre a emergência, na China, do “Estado-acelerador”. Semelhante ao caso dos semicondutores, esse novo modelo de indução ao desenvolvimento prioriza setores de altíssima tecnologia e empresas médias e pequenas, como um programa de incubação de startups mediante apoio público e privado. Nesta postagem no LinkedIn, as principais conclusões e achados do estudo são resumidos pelo MERICS.

O lockdown na cidade de Wuhan, que anunciou a chegada da pandemia, hoje parece distante. Mas só agora a blogueira que filmou e documentou a situação da cidade chinesa recuperou a liberdade. Nesta reportagem, a BBC cita relato do Repórter Sem Fronteiras sobre a libertação de Zhang Zhang, quatro anos após ser encarcerada. Ela foi detida pelas autoridades no início da pandemia sob a alegação de causar tumulto.  Em 2020, ela viajou de sua cidade, Shanghai, a Wuhan, de onde filmou cenas calamitosas de hospitais, abarrotados pelo então desconhecido vírus que causava sérias pneumonias. Diante dos primeiros sinais de uma doença que ameaçava espalhar temor, o governo chinês inicialmente evitou falar publicamente sobre o assunto e coibiu manifestações de cidadãos, da imprensa e de profissionais de saúde. 

A detenção da blogueira foi criticada internamente e no exterior. Ela entrou em greve de fome e, segundo relatos de sua defesa, depois foi compulsoriamente alimentada por tubos. Depois de ser liberada, ela gravou um vídeo dizendo ter sido autorizada a ir à casa do irmão. Ela aparece contida e fala em tom baixo para o vídeo. Órgãos de defesa da liberdade de expressão seguem críticos e falam que a liberdade de Zhang Zhan é restrita e sensível, considerando incerta a garantia de que ela tenha seus direitos 100% assegurados.

O começo do desfecho. Nesta quinta-feira (30), foram declarados os veredictos de 16 ativistas do grupo conhecido como “os 47 de Hong Kong”. Esse subgrupo corresponde aos réus que declararam inocência no julgamento iniciado em fevereiro de 2023 e encerrado em dezembro do mesmo ano. Foram proferidas 14 condenações pelo crime de participar de conspiração para cometer subversão (a organização de eleições primárias não-oficiais em 2020) e duas absolvições, as primeiras sob a Lei de Segurança Nacional. O processo de definição das penas deve ser iniciado em 25 de junho, podendo resultar em prisão perpétua. Quanto aos 31 réus que se declararam culpados, ainda não há data prevista para o anúncio de suas sentenças.

Solidariedade. A Embaixada da China no Brasil divulgou que a Cruz Vermelha do país fará doações de ajuda humanitária no valor de 100 mil dólares (cerca de 510 mil reais) para auxiliar as vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. Segundo postagem da Embaixada, empresas chinesas atuantes no Brasil e membros da diáspora no país já doaram cerca de 9 milhões de reais para o estado. A Xinhua também noticiou que funcionários do Instituto Confúcio na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) estão trabalhando em postos de acolhimento de desabrigados no estado. Nenhum desses gestos de solidariedade veio diretamente do governo em Pequim, o que parece ser parte de uma estratégia de aumentar a influência na América Latina mantendo um perfil baixo na prestação de auxílio humanitário na região, conforme análise publicada pelo Asia Times. Seja como for, toda ajuda é bem-vinda e nós estimulamos nossas leitoras e leitores a doarem para organizações atuando in loco: as cozinhas solidárias do MTST e Meu Lar de Volta.

No contexto do Fórum entre a China e os Estados Árabes, o presidente Xi Jinping afirmou que Pequim trabalhará com os países árabes para estabelecer paz e segurança no Oriente Médio.  Este ano, o Fórum China-Estados Árabes completa 10 anos. O líder chinês disse que a guerra em Gaza não pode continuar indefinidamente e defendeu a harmonia entre os estados. A fala acontece em momento crítico em meio a ataques intensos de Israel ao território Palestino, que já deixou milhares de mortos. O posicionamento chinês se dá num cenário geopolítico em que seu principal adversário comercial, os Estados Unidos, apoia e fornece financiamento e armamento a Israel. Antes do início do Fórum, o líder egípcio Abdel Fattah El-Sisi foi recebido por Xi em visita de Estado, no Grande Palácio do Povo. De acordo com a Xinhua, os dois chefes de Estado trataram de parcerias estratégicas, especialmente em questões ligadas à infraestrutura. A AP fala sobre o aprofundamento da relação China-Egito.

Mudança brusca. Nessa semana, o The Guardian lançou uma matéria sobre como a Grande Mesquita de Shadian perdeu os domos de arquitetura islâmica tradicionais. Localizada em Yunnan, no sul do país, era a última dessas estruturas da religião que mantinham características comuns de construções islâmicas, incluindo uma lua crescente no topo e os minaretes. Finalizada ano passado, a nova versão claramente dá uma expressão mais tradicional chinesa (com pagodas e caracteres chineses, por exemplo) para o prédio, que reabriu para serviços em abril. A matéria ressalta o plano de 2018 do governo chinês de “sinicização” do Islã no país, numa continuidade da situação em Xinjiang, incluindo referências a estilo arquitetônico. A Grande Mesquita havia sido destruída durante a Revolução Cultural, numa rebelião e massacre da minoria muçulmana hui. No Twitter/X, o empreendedor Arnaud Bertrand comentou e retrucou a matéria. Segundo o que ele aponta, devido ao histórico de comércio com a Ásia Central, o desenvolvimento do islã na China ganhou características próprias com uma arquitetura das mesquitas que sempre foi uma mistura única, trazendo elementos dos dois. As mesquitas teriam começado a abandonar as características chinesas na década de 1980. Este texto no Made in China, do pesquisador Ruslan Yusopov usa a Grande Mesquita de Shadian para contar como essa história arquitetônica é moldada pela questão política da relação da China moderna com os muçulmanos. 

A história de uma sopa que viralizou. Imagine que você vive numa cidade que nem aeroporto tem e em questão de meses uma horda de turistas chega para provar um prato local. Esta é a história recente de Tianshui, antes visitada por sua proximidade das grutas de Majishan e nova atração para foodies de plantão. De fevereiro para cá, o 麻辣烫 malatang local – que pode ser traduzido como “sopa apimentada” –  virou tão popular a ponto de ser a razão para a qual turistas viajam até a cidade de Tianshui, na província de Gansu, no Noroeste chinês. O prato não é exatamente uma exclusividade da cidade ou mesmo da região, mas é conhecido e apreciado em diversos pontos do território chinês, cada um com sua variação. O preparo consiste em cozinhar carnes, vegetais e macarrão em um caldo quente e servi-lo em uma sopa apimentada com efeito dormente (sabe o jambu?). Os motivos pelos quais o malatang de Tianshui viralizou ainda estão em discussão, mas há quem sugira uma mãozinha do governo. Vale ler este texto do The World of Chinese e salivar com a descrição do prato e a febre em torno dele, acompanhada, claro, de uma indesejável alta nos preços. 

Está mais fácil visitar a China. Enquanto o turismo doméstico vai muito bem, o número de viajantes estrangeiros na China ainda não passa de 30% do total de 2019. Diante desse desafio, Pequim tem tomado diversas medidas, a mais recente na última sexta-feira (24):  os ministérios da Segurança Pública e do Comércio e a Administração Nacional da Imigração anunciaram a proibição de que hoteis recusem estadia a estrangeiros. Como conta a newsletter Pekinology, a rejeição não era incomum, especialmente em pequenas cidades, sob a justificativa da falta de licenças específicas para receber pessoas de outros países. Já no ano passado, ficou mais fácil movimentar a economia quando o WeChat habilitou o uso de cartões internacionais de estrangeiros para pagamentos na China. As facilidades chegaram até para os brasileiros: no final de abril, foram retomados os voos da Air China para Pequim saídos do Aeroporto de Guarulhos, com escala na Espanha. Suspensa desde a pandemia de Covid-19, a viagem dura 22 horas e 25 minutos – em média, 7 horas a menos do que outras rotas entre as duas cidades.

reforma electoral en Hong Kong

Rap chinês: o Radii conta como um novo hit do rap chinês fez jovens chorarem, além de colocar cidades pequenas chinesas no radar. Factory bombou no festival de rap chinês. Vale dar play para escutar a canção que tem agitado a juventude por lá.  

Diploma: a chinesa Lin Huiyin (1904-1955) recebeu – muito tardiamente – um diploma de arquitetura da Universidade da Pensilvânia. Uma das primeiras alunas chinesas lá, ela fez as aulas, mas foi proibida de receber o diploma de arquiteta porque ainda não era permitido para mulheres. Acabou formada em Belas Artes em 1927, voltou para a China, fundou um curso de Arquitetura e passou o resto da vida documentando prédios históricos chineses.

Livro: tema pouco explorado na literatura adulta chinesa ou da diáspora chinesa que ganha o mainstream, a obra Cinema Love de Jiaming Tang (ainda somente em inglês) conta uma história de um casal heterossexual que se conheceu na China e migra para os EUA. Eles se conheceram num cinema para trabalhadores, onde homens se relacionavam secretamente com outros homens: ele frequentava e ela vendia os ingressos. Quando ele é descoberto, os dois fogem e se casam.

 

Após perder a audição aos três anos de idade, o artista Chen Jianzhou passou a se dedicar à pintura. Este vídeo da Sixth Tone mostra suas obras inspiradas no Rei Macaco, um personagem favoritíssimo entre os leitores da Jornada ao Oeste.

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