Fotografia em cores de perfil de Shanghai de noite, com os principais prédios da cidade iluminados.

Foto de Li Yang via Unsplash.

Edição 396 – China, Copa e Inteligência Artificial: o país asiático em debate

Política e economia

Três desejos, zero gols. Afinal, cadê a China no Mundial?  Com a Copa do Mundo expandida para 48 seleções e a Ásia ganhando o dobro de vagas diretas, Xi Jinping finalmente teria sua chance. Isso porque, em 2011, quando ainda era vice-presidente, Xi declarou seus “três desejos” para o futebol chinês: o país se classificar, sediar os jogos e vencer o Mundial. Não foi daquela vez. A seleção terminou as eliminatórias atrás de Omã, Indonésia e Palestina, recuando da 82ª para a 94ª posição no ranking da FIFA desde 2016. A Shumian acompanha essa jornada há algum tempo, dos protestos nos estádios de Hong Kong contra Pequim ao estouro da bolha da Superliga Chinesa; tema sobre o qual nosso redator (Guilherme) chegou a publicar um artigo. O roteiro segue familiar; o boom de US$ 1,1 bilhão em contratações entre 2015 e 2017, financiado por incorporadoras imobiliárias, desmoronou junto com o setor, já que mais de 40 clubes faliram desde 2021, metade dos times da primeira divisão iniciou a temporada atual com pontos negativos por corrupção e o ex-técnico da seleção Li Tie admitiu ter pago US$ 440 mil pelo próprio cargo.

Há uma questão “filosófica”. O modelo chinês funciona para esportes olímpicos de repetição centralizada. O futebol conta com outros fatores como improviso, base comunitária e uma cultura que cresce de baixo para cima. A China tem 980 mil jogadores registrados; a Inglaterra, com 4% da população, tem mais federados e três vezes mais times amadores. Há sinais na base,  a liga amadora de Jiangsu Suchao acumulou 2,2 bilhões de visualizações com times de entregadores e professores, mas a seleção não estará no torneio. Mas nem tudo está perdido, as marcas chinesas marcaram presença em peso na Copa. Lenovo, Hisense e Mengniu ocupam posições de destaque entre os parceiros da FIFA, uma presença global sem a inconveniência de jogar.

Quantas pessoas são executadas pelo estado chinês a cada ano? Segundo a Anistia Internacional, não é possível saber ao certo; apesar disso, a organização colocou mais uma vez a China no topo de seu ranking anual, como destacou a Folha de S.Paulo. Embora alguns casos apurados pela Anistia fossem relacionados ao tráfico de drogas, a punição seria mais comumente uma forma de repressão política. A falta de dados se dá pela confidencialidade dessa informação, considerada um segredo de estado; além da China, Vietnã e Coreia do Norte também teriam realizado um número considerável, mas desconhecido, de execuções judiciais. Entre os 17 países que têm a pena capital, houve em 2025 um aumento de 78% no número de pessoas executadas em comparação com 2024, chegando a um total de 2707 ocorrências; esse número desconsidera os casos identificados na China – que, segundo estimativa da Anistia, passariam de mil.

Internacional

Jogo duplo. A China estaria usando IA para influenciar o próprio debate sobre IA nos EUA. É o que aponta a OpenAI em relatório publicado na semana passada, descrevendo dois clusters de contas do ChatGPT ligados à RPC banidos após uso em operações de influência encobertas: o primeiro, “Data Center Bandwagon”, gerou comentários associando data centers de IA ao aumento das contas de luz das famílias americanas; o segundo, “Tech and Tariffs”, produzia críticas às tarifas dos EUA com instrução explícita de não mencionar Xi Jinpin, só Trump. A rede ainda espalhou alegações falsas de vazamento de dados do ChatGPT. A OpenAI não encontrou evidências de que a operação tenha mudado a opinião pública, mas o gesto em si já diz bastante: enquanto o diplomata Richard Haass pede que encontros de alto nível entre Washington e Pequim se tornem rotina em vez de “notícia”, operadores vinculados à RPC tentavam infiltrar, com as próprias ferramentas que criticam, o debate que esse diálogo precisaria resolver. 

Eu te respeito, mas se voce veio na minha na casa falar do RIO TUMEN, você veio ao lugar errado. Xi Jinping visitou Kim Jong-un na Coreia do Norte na segunda-feira, sua primeira viagem ao exterior em 2026 e a primeira ao país desde 2019, completando uma rodada diplomática que incluiu Trump em maio e Putin logo em seguida. O líder chinês chegou com elogios à “amizade inabalável” entre os dois países, mas os temas espinhosos ficaram fora dos comunicados. Na desnuclearização, as posições seguem irreconciliáveis: a irmã de Kim declarou, na véspera da chegada de Xi, que o programa nuclear norte-coreano é “a linha do sem-retorno”, enquanto Washington e Pequim dizem compartilhar o objetivo de desnuclearizar a península. Mais silenciosa ainda foi a ausência de qualquer menção ao Rio Tumen, a estreita faixa de água que separa a Coreia do Norte da Rússia e bloqueia o acesso chinês ao Mar do Japão, uma aspiração histórica de Pequim desde que cedeu o território da região de Primorsky ao Império Russo em 1860. Moscou deu sinais positivos sobre a questão no mês passado, mas Pyongyang permanece reticente. Analistas apontam que a visita pode ser a forma de Xi equilibrar a influência crescente da Rússia sobre Kim, que enviou tropas à Ucrânia em troca de tecnologia e alimentos, mas o resultado prático foi uma coleção de frases sobre amizade eterna e nenhum acordo concreto. 

Chips para o Sul. A Huawei estuda implantar seus novos processadores Ascend de IA nos serviços de nuvem que oferece na América Latina, confirmou Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para a região, em entrevista ao South China Morning Post durante o Rio Web Summit. Os chips Ascend, centrais na estratégia de Pequim para construir uma indústria de IA autossuficiente e reduzir a dependência de tecnologia americana, ainda estão em estágios iniciais de implantação na própria China: o primeiro modelo da família, foi lançado comercialmente em março, com Alibaba, ByteDance e DeepSeek entre os primeiros compradores. Chen não deu prazo para a chegada à região, mas o movimento aponta para uma disputa crescente no mercado latino-americano de infraestrutura de IA, dominado há anos por fornecedores americanos, e coloca o hardware chinês mais perto de uma região que tanto Pequim quanto Washington cortejam ativamente.

Sociedade

Junho é mês do quê? Foi-se o tempo em que a comunidade LGBTQIAP+ de Hong Kong podia celebrar seu orgulho em Hong Kong. Pelo segundo ano consecutivo, o evento de origem singapurense Pink Dot foi cancelado na cidade; a justificativa foi a indisponibilidade do espaço até então reservado para a feira. O cancelamento do Pink Dot chama especial atenção porque, ao contrário das marchas do Orgulho, o evento não tem um caráter abertamente político; apesar disso, especialistas ouvidos pela Hong Kong Free Press indicam que, no passado, o movimento LGBTQIAP+ contava com apoio vocal de diversas figuras centrais do movimento pró-democracia e de organizações da sociedade civil, uma associação que hoje pode pesar contra a comunidade.

Amor com ficha cadastral. Aos fins de semana, centenas de pais se reúnem no People’s Park de Xangai com um objetivo claro: encontrar cônjuge para seus filhos adultos, geralmente sem o conhecimento ou entusiasmo deles. A Paris Review publicou uma reportagem imersiva sobre esse mercado matrimonial, onde currículos substituem perfis de aplicativos, nível educacional, renda anual, altura, status de hukou, imóvel próprio ou alugado. Como já abordamos por aqui em outras ocasiões, o fenômeno não é novo, mas o contexto se aprofundou. A China registrou a menor taxa de natalidade de sua história (5,6 nascimentos por mil habitantes), o casamento está em queda há uma década e o desemprego juvenil chegou a 19%. “Sem salário, como vão poder namorar?”, resume um pai ouvido pela repórter. O que move os pais não é só tradição: com serviços públicos frágeis, a lógica é que filhos bem casados são a melhor aposentadoria disponível, e a feirinha do amor no parque é, no fundo, um termômetro da ansiedade de uma geração inteira.

Zheng He

Mudança: por aqui somos fãs de Mo Yan e voltamos à visita dele ao Brasil e fazemos trocadilho de um de seus livros para sugerir esse podcast, no qual Giorgio Sinedino fala sobre o impacto da vinda de Mo para a literatura chinesa no Brasil.

Portinari na China: a partir deste mês, o artista brasileiro terá sua primeira grande apresentação na Ásia. A mostra está exposta na Praça da Paz Celestial, em Pequim, e integra a programação oficial do ano do Turismo e da Cultura Brasil-China. A expectativa da organização é de que o famoso endereço receba até 4 milhões de visitantes para ver Portinari.

 

O governo brasileiro está apostando no mercado chinês para atrair turistas para o Brasil. Confira a peça publicitária da Embratur e diga para a gente: vai gerar resultado?