Em uma extensa matéria para a Nikkei Asian Review, Cheng Ting-Fang e Lauly Li contam como o governo chinês quis garantir a sobrevivência da indústria de chips durante a quarentena em Wuhan. Em viagens de trem secretas, funcionários foram retornando ao epicentro da epidemia no país para trabalhar nas fábricas da Yangtze Memory. O motivo? Garantir autossuficiência em alta tecnologia para a China, mesmo com todos os riscos.

Nem todas os setores da economia chinesa, porém, tiveram a mesma sorte. Meses de medidas de restrições à livre circulação de pessoas e ao funcionamento de estabelecimentos comerciais tiveram um impacto significativo sobre as contas de muitas empresas no país. Sem contar com apoio direto de Pequim, boa parte delas vê no corte de funcionários uma solução para a crise. Para o governo da China, porém, essa não é uma opção aceitável: tendo na boa performance econômica a base de sua legitimidade, o regime do Partido Comunista Chinês enxerga na possibilidade do desemprego em massa uma fonte inquietante de instabilidade política e social.


Até que cessem os efeitos da pandemia, conciliar esses dois interesses não vai ser tarefa fácil. E, ao menos de acordo com algumas previsões, o esforço pela recuperação econômica chinesa pode levar um bom tempo. Em algumas linhas industriais, o desafio está em encontrar a mão-de-obra necessária para retomar os níveis de produção pré-COVID-19. Presos em casa por uma série de razões — como persistentes medidas de quarentena e o dever de cuidar de filhos que não estão indo à escola —, muitos trabalhadores ainda não conseguem voltar a seus antigos postos de trabalho. Más notícias para a economia chinesa são, é claro, más notícias para todo o mundo: dependentes do acesso ao mercado chinês para seu próprio funcionamento, muitos países devem sentir os impactos da desaceleração do gigante asiático.


Com o avanço da pandemia do novo coronavírus pelo mundo, parte da diáspora chinesa quer voltar à sua terra natal. O retorno, porém, não vai ser fácil. Como o número de casos importados passou a crescer — ao mesmo tempo em que o número de infecções locais chegou a zero —, a China começou a desencorajar a volta de seus cidadãos ao país. Por um lado, a medida se justifica pelo fato de que 90% dos quase 600 casos importados registrados no país são de chineses. O desincentivo à volta é confirmado pela drástica redução de voos internacionais ao país, a interrupção de missões de repatriamento, a quarentena obrigatória de 14 dias paga pela própria pessoa, e o risco de despesas médicas relacionadas ao COVID-19 não serem mais cobertas por seguros de saúde locais.

Também sobrou para os estrangeiros. Alguns analistas já apontavam que o pós-pandemia poderia ser um período de nacionalismos acirrados. Sob a justificativa de impedir uma segunda onda de mortes por COVID-19 trazida por pessoas de outras países, o governo chinês decidiu que não vai deixar estrangeiros — mesmo com vistos válidos — entrarem no país até segunda ordem. A exceção são diplomatas, equipes de empresas aéreas ou de ajuda humanitária. A medida começou a valer no sábado, dia 28. A grande maioria dos novos casos no país é de pessoas que vieram de fora.

Mas mesmo com mais nacionalismo, a China tem encontrado maneiras de melhorar sua imagem no exterior, usando de cooperação internacional na área da saúde. Recentemente, Xi Jinping usou o termo “Rota da Seda da Saúde”. A ideia é usar a estrutura da Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) para levar equipamento médico, como máscaras e roupas protetoras (que a China está produzindo em massa), para fora. Xi também enviou mensagens de solidariedade para os líderes da Espanha, França, Alemanha e Sérvia durante a semana. O Japão já havia estendido a mão, ou melhor, as máscaras, para a China durante a crise no vizinho. Prova de que as coisas podem mudar de figura em certas situações.


E no Sudeste Asiático, como fica a influência chinesa diante do COVID-19? Para os países da ASEAN, a pandemia expõe com cores muito nítidas a dependência às cadeias de suprimentos chinesas. Economicamente, a situação atual força os países da região a buscar maior diversificação de fabricantes e fornecedores, mas a troca não acontece da noite para o dia — sobretudo em um terreno carente de investimentos em infraestrutura, essenciais para garantir vantagem competitiva. Geopoliticamente, o desaceleramento da economia chinesa pode abrir mais espaço para atores internacionais na região que não se resumem à dualidade China e Estados Unidos. É o caso principalmente de Japão, Coreia do Sul, Austrália e Índia.


Já para o lado das Américas, as tensões das últimas semanas parecem estar se dissolvendo. Na última terça-feira (24), Jair Bolsonaro e Xi Jinping reafirmaram, por ligação telefônica, os “laços de amizade, troca de informações e ações sobre o COVID-19 e ampliação de laços comerciais” entre Brasil e China. O contato parece restabelecer a normalidade nas relações entre os dois países, que se viram abaladas após as polêmicas acusações de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente brasileiro, quanto à suposta culpa chinesa pela disseminação do COVID-19 pelo mundo.

Nos Estados Unidos, por sua vez, o tom do diálogo com Pequim também se amenizou. Após semanas de hostilidades por parte estadunidense, Donald Trump e Xi Jinping discutiram, em contato oficial, a resposta global ao novo coronavírus e se comprometeram a reduzir a tensão entre os dois países. No Twitter, o presidente americano elogiou o entendimento chinês do COVID-19 (ao qual, dessa vez, não se referiu como “vírus chinês”) e afirmou estar trabalhando junto a Pequim na luta contra a pandemia. A mudança de posicionamento ocorre justamente após o país norte-americano ultrapassar a China no número total de infecções pelo vírus — já são mais de 130 mil casos confirmados por lá.

O que vem depois de todo esse empurrão para trabalho e ensino remoto? Certamente, uma nova relação com tecnologia. Ao longo de todo esse período, houve uma aceleração na transformação digital de vários países — como o próprio Senado brasileiro fazendo sua primeira sessão online. Na China, o uso de robôs em hospitais cresceu, bem como aplicativos de saúde e plataformas de trabalho colaborativo e videoconferência ofereceram uma flexibilidade que pode interessar para muitas pessoas. Empresas também perceberam a importância de uma presença online forte, tal qual já é visível no Brasil. O governo chinês sai com mais incentivos ainda para avançar o desenvolvimento e a infraestrutura tecnológica do país.


Qual a real dimensão da pandemia do COVID-19 no mundo? Parte da resposta pode vir de seu primeiro epicentro, Wuhan. De acordo com pesquisadores de universidades chinesas e estadunidenses, cerca de 60% das pessoas que contraíram o vírus na capital de Hubei eram assintomáticas, ou apresentavam sintomas muito leves que não entraram na conta das autoridades. O estudo se baseou em 26.000 casos confirmados na cidade entre dezembro e fevereiro. Seguindo essa lógica, Wuhan teria tido aproximadamente, sozinha, 125.000 casos, e não “apenas” os 38.020 casos registrados pelos hospitais locais.

E o caso chinês tem mais a nos ensinar. A preocupação em reabrir o país após a pandemia, aliás, e as lições da resposta chinesa ao novo coronavírus são os temas deste episódio de podcast (em inglês) com Lily Kuo, direto de Pequim, para o The Guardian. A iniciativa é importante para que seja possível aprender sobre as diferentes maneiras de lidar com o COVID-19 em várias partes da China, de acordo com as necessidades de restrição de movimento ou de quarentena, bem como a resposta da população para essas ordens, as preocupações econômicas e como está o retorno devagar à normalidade agora.


Dentre as diversas mudanças adotadas no país após o início da pandemia, a proibição de comércio e consumo de animais selvagens é uma à qual vale prestar atenção. Movimentando dezenas de bilhões de dólares por ano e envolvendo, direta e indiretamente, cerca de 14 milhões de pessoas na China, a indústria foi fator central no surgimento da pandemia do novo coronavírus. Essa não é, importa lembrar, a primeira vez que a atividade se vê na mira das autoridades: a epidemia da SARS em 2003 também evidenciou suas perigosas implicações sociais. Mais do que nunca, porém, a continuação de seu funcionamento é, agora, tida como um risco explícito para a saúde pública mundial.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Guia de Boas Práticas: a Fundação de Jack Ma e a Fundação Alibaba publicaram um guia do que deu certo na China para a contenção do vírus, com base em entrevistas com especialistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang, que atuaram na linha de frente em Wuhan. Está disponível em vários idiomas, como espanhol, italiano, francês e inglês. A versão em português está sendo produzida.

Entrevista: com Yuan Ling, escritor chinês e famoso intelectual do país. Feita por Ian Johnson para o The New York Review of Books. Já seguindo a mesma onda, aproveita e lê o texto do Ai Weiwei sobre como a China lidou com a pandemia.

Podcast: de que forma as assimetrias entre os governos locais e central afetou a resposta ao COVID-19 na China, e qual a diferença entre os esforços atuais com os da SARS em 2003? Prepare os fones de ouvido para o podcast do ChinaTalk e descubra!

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