Newsletter 105 (PT)

Iniciando os trabalhos das Duas Sessões (两会), o primeiro-ministro Li Keqiang anunciou na sessão de abertura do encontro do Congresso Nacional do Povo que a China não definirá uma meta para o crescimento de sua economia em 2020. De acordo com Li, a medida foi tomada “devido à grande incerteza em relação à pandemia da COVID-19 e ao ambiente econômico e comercial mundial”. Para o restante do mundo, acostumado com, e em certa medida dependente do avanço do PIB chinês, a decisão não inspira otimismo. Já para a China, porém, a deliberação pode ajudar a evitar que o país embarque em uma corrida potencialmente desestabilizadora em nome da retomada rápida do crescimento.

A não definição de uma meta, é claro, não implica que Pequim ficará de mãos atadas diante do desafio de recuperar a economia chinesa das devastações do novo coronavírus. Ainda no Congresso Nacional do Povo, Li Keqiang indicou uma série de medidas anticíclicas que buscam sanar alguns dos principais problemas gerados ou agravados pela crise, como o desemprego, a queda dos investimentos e a instabilidade financeira. No total, a escala das iniciativas anunciadas equivale a cerca de 4% do PIB chinês — magnitude compatível com o observado em outras partes do mundo e semelhante àquela da resposta do gigante asiático à crise financeira internacional de 2008.

E a reunião do Congresso Nacional do Povo nessa última semana rendeu mais pano para a manga. A apresentação de um projeto de segurança nacional para Hong Kong que visa impedir, interromper e punir supostos atos de subversão, intervenção estrangeira e separatismo na cidade causou reações acaloradas tanto na China como no restante do mundo. Para Pequim, a medida é uma atualização necessária das leis da região administrativa especial e não afetará as liberdades daqueles que não se engajarem com atividades enquadradas como ilegais. Em Hong Kong, porém, as opiniões de dividiram — se alguns veem na proposta a esperança de estabilidade após um ano de protestos quase diários e desaceleração econômica, muitos enxergam nela uma ameaça às liberdades civis e autonomia da cidade. Os protestos seguiram no final de semana.

Interessou-se pelo assunto? Nada melhor que ler o polêmico projeto de legislação (traduzido para o inglês pelo blog China Law Translate) para aprofundar seu entendimento sobre a questão.


As últimas sanções impostas por Washington, se foram um golpe duro na Huawei, também podem servir de impulso para a autossuficiência chinesa na fabricação de chips e semicondutores. Sem acesso a chips e softwares fabricados nos Estados Unidos, os chips vão ter que sair de algum lugar — e Pequim já imagina de onde. Se antes a Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC) era a principal fornecedora da Huawei com 14% do suprimento, os olhos voltam-se agora para a China’s Semiconductor Manufacturing International Corp. (SMIC). Só nessa semana, a SMIC recebeu mais de 2 bilhões de dólares em investimentos feitos pelo governo central e o governo local de Xangai. A SMIC, no entanto, ainda tem um longo caminho pela frente.


O Estado alimentado pela Inteligência Artificial? Esse é o nome do relatório elaborado pelo Nesta UK, que reúne ensaios de especialistas sobre o uso de IA no serviço público chinês. Em 2017, o Conselho de Estado chinês lançou um importante plano de desenvolvimento enfatizando o papel que IA pode ter para a transformação social e econômica do país, e com o objetivo de se tornar a nação líder na área até 2030. Desde então, o Ministério da Ciência e Tecnologia estabeleceu uma divisão focada na promoção desse plano. Em 2019, um documento sobre os princípios de governança para uma IA responsável foi lançado, bem como um white paper da Academia Chinesa de Ciências Sociais sobre o tema. Alguns planos locais adaptados para províncias e cidades também já existem, de modo a acelerar a transformação digital de muitos serviços. Em inglês, a newsletter ChinaAI divulga questões focadas na área.

Falando em transformação digital, os primeiros meses de 2020 viram um número maior de bancos fechando agências físicas em comparação ao ano anterior. Já era um movimento comum, com muitos bancos melhorando seus serviços utilizando 5G e inteligência artificial e clientes preferindo atendimento online — algo que foi acelerado pela pandemia. O crescimento dos bancos digitais também deu um baque no setor tradicional, já que o WeChat e o MYbank têm emitido mais empréstimos para indivíduos e pequenas empresas.

Que a base militar chinesa no Djibouti é uma verdadeira fortaleza, isso já se sabe. Inaugurada em 2017, a instalação coloca as demais bases de outros países presentes no território em posição bastante inferior. O que chamou atenção recentemente, contudo, foi uma série de imagens de satélites que circulou na internet confirmando a capacidade instalada para receber porta-aviões, e a construção de um segundo píer no local que poderia ser capaz de acomodar navios de guerra e de assalto. O Dijibouti é um parceiro estratégico importante para Pequim na África: localizada na entrada do Mar Vermelho, trata-se de uma área agitada com o transporte de mercadorias e barris de petróleo em direção ao Canal de Suez. Também é uma região importante para infraestrutura tecnológica com cabos submarinos e operações de paz no continente.


Poderia a recente escalada de tensões entre a China e a Índia levar a uma guerra? Desde 1975, chineses e indianos mantêm um clima pacífico ao longo da disputada fronteira que compartilham — um padrão que levou muitos analistas a julgar improvável, apesar dos evidente problemas entre Pequim e Delhi, a formação de qualquer novo conflito bélico entre os dois países. Dado o fortalecimento do poderio ofensivo das duas nações durante as últimas décadas, porém, assim como as recentes provocações dentro e fora de áreas disputadas (como o choque no lago Pangong Tso e o apoio de parlamentares indianos a Taiwan), crescem os temores de que os dias de tranquilidade sino-indiana estão contados.


Lembra que na semana passada abordamos o assunto da deterioração das relações entre China e Estados Unidos e a possibilidade de formação de uma nova guerra fria entre os dois países? Pois os desenvolvimentos da última semana só reforçaram essa tendência. O ponto de conflito da vez foi a já mencionada proposta de legislação de segurança nacional para Hong Kong. Robert O’Brien, conselheiro da administração Trump, declarou que a China pode ser alvo de sanções de Washington caso prossiga com os planos para a cidade. Não bastasse isso, O’Brien ainda retomou as críticas estadunidenses à forma como a administração chinesa lidou com a pandemia do novo coronavírus, comparando a resposta do país à crise àquela da União Soviética ao acidente nuclear de Chernobyl em 1986. Onde mesmo já ouvimos esse mesmo argumento?

A discussão sobre a nova lei de segurança em Hong Kong também já ganhou repercussão internacional para além dos EUA. Mais de 200 parlamentares de 23 países, incluindo Nova Zelândia, Coreia do Sul, Reino Unido, Índia e Indonésia, manifestaram preocupação com a decisão unilateral, lançando uma declaração conjunta. O último governador da Hong Kong colonial, Chris Patten, também assinou. Uma recomendação escrita pelos advogados que compõem o Conselho da Rainha foi enviada para o governo conservador e recomenda que o país abra as portas para cidadãos de Hong Kong, oferecendo direito de residência. A questão de direitos dos cidadãos nascidos sob a colonização britânica faz parte de uma longa discussão.

Ainda é cedo para afirmar que se trata de uma nova mutação, mas o novo coronavírus tem se comportado de maneira significativamente distinta nos mais recentes focos epidêmicos na China. Casos de COVID-19 em Jilin e Heilongjiang — províncias que fazem fronteira com a Rússia — têm tido um período de incubação superior a 14 dias e hospedado o vírus por mais tempo, o que torna mais difícil detectar pessoas assintomáticas. A surpresa não para por aí: diferentemente do que foi visto em Wuhan, o novo coronavírus em Jilin e Heilongjiang atacou sobretudo os pulmões dos pacientes, ao invés de outros órgãos.


A gigante de inteligência artificial iFlytek surgiu em 1999, do desejo de um doutorando chinês em criar uma empresa nacional que pudesse fazer reconhecimento de fala em mandarim para transformar em texto — algo que até o momento somente empresas estrangeiras faziam no país. O seu primeiro aplicativo foi lançado em 2010, mesmo ano da Siri (da Apple) e em poucos anos avançou em tradução em tempo real para fala. Se você já tentou se comunicar na China sem falar mandarim, possivelmente o app que usaram para conversar com você foi da iFlytek. Com essa tecnologia, que inclui tradução de dialetos falados na China, a empresa tornou-se extremamente popular.

As Forças Armadas e as agências de segurança na China utilizam programas da iFlytek, bem como aparentemente também a Agência Nacional de Segurança dos EUA (a NSA). Uma longa matéria da Wired investiga a possível relação da empresa — e os dados gerados por ela — com o governo chinês, especialmente para censurar e controlar minorias no país.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Música: a taiwanesa 9M88 lançou um novo clipe para a faixa Leftlovers 廚餘戀人Aproveite e ouça o mais novo álbum da cantora que faz parte da nova geração do jazz e R&B chinês.

Histórias visuais: uma excelente coletânea de histórias sendo contadas em formato de vídeo sobre a pandemia. São pessoas que estavam em Wuhan ou distantes, mas encontraram maneiras de contar suas percepções sobre o que acontecia na China. Destaque para o curto e sensível  “Uma carta para meu amigo em quarentena em Wuhan”, da documentarista Guo Ronghui.

Entre quatro paredes: saiu uma nova pesquisa sobre a vida sexual dos estudantes chineses.

Atemporal: a tradicional caligrafia chinesa ganha um ar de rebeldia com a talentosa Wu Jizhen. Se não há papel para rabiscar, que usemos os nossos corpos.

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