Dia 4 de junho marcou o 31º aniversário da repressão do governo chinês aos protestos na Praça da Paz Celestial. Desde 1990, vigílias são feitas em Hong Kong, especialmente no parque Victoria. Esse ano, argumentando questões de saúde pública, elas foram proibidas pelo governo, mas isso não impediu que milhares de pessoas fossem às ruas acender velas. Muitos ativistas aproveitaram o momento para também chamar atenção para a relação entre os protestos em 1989 e os temas dos protestos do ano passado, especialmente de independência política, que dominaram a rotina em Hong Kong durante meses.


O mês de maio trouxe mais más notícias para a economia chinesa. Apesar de um inesperado crescimento em abril, as exportações do país voltaram a cair no mês passado. A queda foi de 3,3% em comparação ao mesmo período de 2019. As importações, por sua vez, amargaram uma contração de quase 17% — o pior resultado registrado em anos no país. Dada a série de dificuldades econômicas que hoje se erguem em boa parte do mundo, os dados não só não surpreendem como também reforçam o entendimento de que, em tempos de globalização e interdependência, não há caminho sustentado para a recuperação que não seja internacional.


Foi lançado neste domingo o Livro Branco sobre as medidas adotadas pela China para combater a COVID-19. O material, disponível em inglês, é composto por quatro capítulos organizados em uma linha temporal de dezembro de 2019 a abril de 2020. O Livro Branco aborda temas como as primeiras medidas adotadas para lidar com o novo coronavírus, as dificuldades e soluções encontradas em Wuhan e a cooperação internacional da China com diversos países para combater a pandemia. Confira aqui.


Um excelente ensaio escrito por Cai Xia (蔡霞), professora aposentada da Escola Central do Partido Comunista chinês explica, usando a linguagem do partido, porque é importante adotar valores e instituições democrático-liberais no futuro na China. Veja bem, não se trata de uma dissidente: é uma das intelectuais pró-establishment mais respeitadas pelo partido. Os argumentos se baseiam no longo histórico de revoluções e das heranças marxistas-leninistas de Mao Zedong. A missão histórica do partido seria, para a surpresa de alguns, não a supressão de valores democráticos — mas a construção gradativa de uma democracia constitucional no país. O texto é longo, mas vale cada minuto para entender um pouco melhor como pensa o centro nervoso de Pequim. Leia aqui, em inglês.

O alemão Mercator Institute for China Studies elaborou um interessante relatório sobre a digitalização da produção industrial chinesa, tratando das políticas do governo chinês para transformar o país numa superpotência da Quarta Revolução Industrial, com forte participação no setor de Internet das Coisas (IoT, em inglês) e pressão para as empresas chinesas usarem plataformas baseadas em nuvem. O relatório faz um bom apanhado da questão, usando fontes originais, apresenta principais vantagens e desvantagens atuais no âmbito doméstico, oportunidades para empresas estrangeiras e como empresas europeias vão enfrentar grandes desafios de competitividade nos próximos anos, com recomendações para empresas alemãs atuando na indústria 4.0.

Uma boa chance de revisitar o artigo de Yuen Yuen Ang sobre o mito da corrida tecnológica entre EUA e China.


Durante as últimas semanas, temos acompanhado de perto aqui na Shūmiàn o agravamento das relações entre China e Índia na fronteira entre os dois países. Após uma série de desenvolvimentos preocupantes, finalmente uma boa notícia: de acordo com comunicado do Ministério das Relações Exteriores indiano, Pequim e Nova Deli concordaram com um recuo, comprometendo-se a resolver disputas territoriais por canais oficiais diplomáticos e militares. O anúncio, que se deu dias após um encontro entre comandantes da China e da Índia em uma localidade próxima ao lago Pangong, foi recebido como sinal de um possível apaziguamento das recentes tensões — as mais graves, vale notar, a surgir entre as duas potências asiáticas em décadas.


Falamos frequentemente sobre como os EUA vê sua interdependência com a China — e como os políticas e analistas estadunidenses se sentem “desapontados” que a RPC não se tornou a democracia liberal tão esperada. O que é muitas vezes um reflexo da sua própria falta de entendimento sobre o país. Mas e como a China vê sua interdependência com os Estados Unidos? Julian Gewirtz analisa a questão, mostrando que no governo Xi, a elite política do país está cada vez mais ciente dos riscos que existem nessa relação.


Prepare um cafezinho, que temos duas recomendações de leitura sensacionais para entender a China atual. A primeira dica é um excerto do novo livro de Michael Schuman explicando como a China enxergava o Ocidente antes das Guerras do Ópio. A crença das dinastias sobre o excepcionalismo chinês, a superioridade moral e a percepção da brutalidade mercantilista europeia são retratados com grandes detalhes em uma prosa digna do seu tempo. A segunda dica vem de casa: o diplomata brasileiro Marcos de Azambuja faz uma excelente análise explicando o que está em disputa entre Washington e Pequim, e como o Brasil se insere nisso. Do desmantelamento da ordem internacional como a conhecemos à ascensão da China, o texto de Azambuja é uma verdadeira aula.

Todo semana do dia 4 de junho  —  ou o Dia que Nada Aconteceu  — é marcada por um controle mais rígido do Great Firewall sobre menções aos eventos ocorridos na Praça da Paz Celestial em 1989. O receio de protestos demandando respostas ainda persiste. O sistema de cibersegurança chinês se aprimorou bastante ao longo desses 31 anos: reconhecimento de imagem e voz e machine learning ajudam a detectar possíveis divergências da narrativa oficial. Não é um trabalho simples; estima-se que haja pelo menos 3.400 expressões comuns utilizadas online para fazer referência ao dia indizível. Até mandar a quantia exata de ¥89,64 pelo WeChat pode ser motivo suficiente para um bloqueio temporário.

No Weibo do falecido médico Li Wenliang, um dos primeiros a relatar o aparecimento da COVID-19 e censurado pelo governo local à época sob acusações de espalhar “boatos”, o 4 de junho não passou em branco. Em seu último post  — que já acumula mais de 1 milhão de comentários desde sua morte  — internautas comentaram “um dia para ser lembrado”, “Wenliang, a internet está tão quieta hoje”. 


Falando em protestos, enquanto as manifestações pelo Black Lives Matter seguem forte nos EUA, também seguem fortes os comentários nas redes sociais e mídia oficial chinesa. Hashtags relacionadas estão em voga há dias, com vídeos e comentários criticando a hipocrisia dos estadunidenses em criticar a China e tratar suas minorias com descaso. Tem muitos chineses favoráveis aos protestos, mas também tem comentário racista no meio e elogios ao governo de Pequim — em relação a como lidaram com protestos em Hong Kong.


O lançamento histórico da NASA em parceria com a SpaceX não foi o único evento a marcar a exploração humana do espaço nos últimos dias. Enquanto os olhos do mundo estavam voltados para a Flórida, a China executou com sucesso o lançamento de quatro novos satélites a bordo de dois foguetes a partir de diferentes bases no sudoeste e no noroeste do país. Dentre as funções dos satélites agora já em órbita, figuram capacidades de sensoriamento remoto a ser usado em pesquisas civis e suporte à Internet das Coisas (IoT, em inglês), sistema baseado em dispositivos e máquinas inter-relacionadas sem exigir interação humana.


Não é de hoje que as expressões contemporâneas da arquitetura chinesa se tornam assuntos político contenciosos. Em 2014, Xi Jinping chegou a pedir pelo fim do que classificou como a “arquitetura estranha” que acompanhou do boom da construção civil no país. Somando-se a mudanças já implementadas em 2016, diretrizes recém lançadas pelo governo chinês para arquitetos, incorporadores de imóveis e urbanistas ressoa o clamor do líder do país por uniformidade. Dentre as novas orientações, incluem-se limites à altura de prédios e proibição de construções que sejam cópias de outras edificações — como essas pérolas aqui.


Enquanto se fala em reabertura do comércio e atividades no Brasil, vale conferir esse site interativo da Reuters mostrando os passos para a reabertura de Wuhan. Recentemente, para evitar a eclosão de um novo foco de contaminações, o governo da cidade conseguiu testar 9,9 milhões de cidadãos durante 10 dias —  900 casos assintomáticos foram encontrados.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Capital literária: como Xangai se tornou uma cidade tão literária? Nesse texto, Jin Li argumenta que isso ocorreu pela grande presença de imigrantes na metrópole cosmopolita a partir da década de 1930, oferecendo uma vida social e cultural bastante movimentada.

Para marcar na agenda: como quem avisa amigo é, não deixe de reservar um tempo para participar da discussão via Zoom sobre literatura e ativismo LGBTQIA+ na China. É gratuito e está imperdível.

Podcast: David Moser, Jeremiah Jenne e Zhang Yajun discutem várias coisas sobre mandarim, dialetos, identidade nacional e evolução do idioma nesse episódio de Barbarians at the Gate.

Trabalhadores em Tiananmen: o coletivo Chuang publicou um texto tirado do seu (enorme) journal focando nos trabalhadores que atuaram nos protestos em 1989 —  ao contrário da crença de que era apenas uma manifestação estudantil. A publicação integral do journal é sobre a transição da China para o capitalismo.

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