Newsletter 115 (PT)

De acordo com dados oficiais, o Índice de Gerentes de Compras (PMI) da manufatura chinesa continua a crescer: o resultado, que se amplia desde março, ficou em 51,1 em julho (números acima de 50 indicam expansão em relação ao mês anterior). Além disso, a situação das exportações e importações no país também dá sinais de progressiva melhora, apesar de permanecer a preocupação de que o desempenho débil de outras grandes economias no mundo possa acabar por afetar, mesmo que indiretamente, as perspectivas de recuperação da própria China.

E por falar em recuperação econômica, o desempenho da Huawei nos últimos meses — mesmo em meio às turbulências da pandemia da COVID-19 — é notável. Conforme números recém divulgados, a empresa superou a sul-coreana Samsung e se tornou, no segundo trimestre deste ano, a maior vendedora de aparelhos celulares do mundo. Analistas, porém, recomendam cautela: boa parte das vendas da Huawei se dão no mercado doméstico chinês e, fora de sua terra natal, a empresa tem encontrado cada vez mais dificuldades para se expandir, como visto nas tensões em torno de sua participação na construção de redes 5G em diversos países — como no Reino Unido.


De acordo com ativistas engajados com questões de direitos humanos, o governo chinês estaria instrumentalizando medidas de contenção do novo coronavírus para deter dissidentes. O caso de Wang Quanzhang, por exemplo, preocupa: preso durante a “repressão de 709” em 2015, o advogado foi solto neste ano, mas imediatamente enviado para um quarto, trancado em um apartamento vigiado por 20 policiais. Em vez de se referir a situação como prisão domiciliar, as autoridades preferiram, porém, usar o termo “quarentena”. Para Frances Eve, da Chinese Human Rights Defenders, o tratamento dispensado aos dissidentes, que também inclui o corte de linhas de comunicação com o exterior, configura desaparecimento forçado de facto.


Mais uma semana agitada em Hong Kong. Desta vez, com a prisão de quatro membros do grupo Studentlocalism, um dos principais grupos pró-independência de Hong Kong. Duas coisas chamaram atenção: a primeira é a idade das pessoas que foram presas — jovens e adolescentes entre 16 e 21 anos. Dentre eles, Tony Chung, de apenas 19 anos e uma das figuras políticas mais famosas do movimento. O segundo elemento, provavelmente associado aos motivos que levaram à prisão dessas pessoas, trata-se da nova lei de segurança nacional. Essa lei foi aplicada após a 創制獨立黨 Initiative Independence Party, iniciativa criada por alguns dos fundadores do Studentlocalism, ter feito uma postagem no Facebook afirmando que usaria de todos os meios possíveis para estabelecer a independência da cidade e criar a República de Hong Kong. A penalidade máxima prevista pela lei é a prisão perpétua.

Ainda sobre Hong Kong, na última sexta-feira (31), a chefe do Executivo da região administrativa especial, Carrie Lam, anunciou o adiamento da eleição que ocorreria em setembro. Lam alegou riscos à saúde pública como motivo para a mudança no calendário eleitoral. De fato, Hong Kong vem apresentando um aumento no número de casos registrados da COVID-19, chegando a média de mais de cem a cada 24 horas nos últimos dez dias. Ainda assim, a oposição acusa o governo de usar a pandemia como pretexto para impedir as pessoas de votarem. A expectativa da oposição era de que a insatisfação com a nova lei de segurança nacional fosse demonstrada nas urnas. O tema é polêmico e vale a penar conferir o relatório do International Institute for Democracy and Electoral Assistance, detalhando como cada país lidou com suas eleições.


Tesla agora depende da China para a geração de quase ¼ da sua receita — esse número subiu de 11% para 23,3% em um ano. A empresa de Elon Musk alugou um terreno do governo de Shanghai por 50 anos, recentemente anunciando a contratação de designers de carros chineses — um sinal de preocupação em se adaptar ao mercado local. A venda de veículos elétricos na China está em alta, como já contamos aqui. A Tesla enfrenta competição da BYD e da startup NIO, e ainda precisa vencer a má publicidade, pois, no ano passado, um dos seus carros, o Model S, pegou fogo sozinho em um estacionamento. Musk está empolgado: falou em uma entrevista que a “China é demais!” e elogiou os chineses, enquanto reclamava dos estadunidenses.

A mais recente vítima da rivalidade entre China e EUA parece ser o TikTok. O aplicativo de vídeos curtos — um sucesso global com cerca de 800 milhões de usuários mensais — já vinha sendo denunciado por políticos estadunidenses como um risco à segurança nacional do país. A chinesa ByteDance — dona do app — negou as acusações de que dados coletados poderiam ser repassados a Pequim. Ainda assim, um acordo envolvendo a compra das operações do aplicativo nos EUA pela Microsoft começou a ser considerado para aliviar as tensões. As declarações do presidente Donald Trump, que afirmou sua decisão de banir o TikTok nos EUA, acabaram, porém, supostamente causando a interrupção das negociações. Como resposta, o TikTok — por meio de sua Diretora Geral nos EUA, Vanessa Pappas — divulgou um vídeo garantindo: “não planejamos ir a lugar algum”. Na noite de domingo (02), a Microsoft confirmou que segue buscando adquirir o aplicativo.

E como as tensões entre Pequim e Washington sempre dão muito pano pra manga, tem mais: na última sexta-feira (31), a administração Trump anunciou sanções contra uma poderosa entidade estatal e duas autoridades chinesas supostamente engajadas com violações aos direitos humanos de minorias étnicas predominantemente muçulmanas na província de Xinjiang, no noroeste do país. A entidade — chamada Xinjiang Production and Construction Corps. — e as autoridades — Peng Jiarui e Sun Jinlong — agora estão proibidas de acessar propriedades e o sistema financeiro estadunidense, assim como impossibilitadas de travar quaisquer transações econômicas com cidadãos ou empresas dos Estados Unidos.


In nomine Patris et Filii et espionagem. Uma recente análise de ataques cibernéticos realizada pelo Insikt Group detectou uma série de investidas do RedDelta, um grupo de espionagem chinês, ao Vaticano. A ofensiva vem poucos meses antes da renovação do Acordo Provisório Santa Sé-China o qual, para muitos críticos, resultaria em maior controle do Partido Comunista Chinês sob comunidades e igrejas católicas no país. Segundo o Insikt Group, o ataque focou em duas entidades: a Missão de Estudo; e a Diocese católica de Hong Kong, com o intuito de antever o posicionamento do Vaticano sobre o acordo e monitorar a ação dessas entidades sobre os protestos pró-democracia na cidade.


No discurso de abertura do Encontro Anual do Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB) realizado nessa semana, Xi Jinping enfatizou a importância do banco em fortalecer a cooperação internacional por meio de investimentos em infraestrutura e o multilateralismo em uma economia cada vez mais globalizada. Em tempos recentes, o banco estabeleceu uma iniciativa financeira de apoio ao combate à COVID-19 dentre os países membros. Criado por Xi Jinping em 2013, o AIIB está sediado em Pequim e possui 57 países membros e já aprovou 84 projetos no valor acumulado de 20 bilhões de dólares. Confira o discurso completo de Xi aqui.

Além disso, o discurso de Xi, junto também ao do reeleito presidente do AIIB, Jin Luqin, reacenderam a questão de sustentabilidade e green finance no banco. Jin enfatizou que a infraestrutura deve também ser criada para o enfrentamento das mudanças climáticas. Os acionistas europeus do AIIB estão preocupados com (a falta de) compromissos do banco com investimentos sustentáveis e ações concretas. Os países europeus que são membros do AIIB possuem 23% do poder de voto — a Alemanha é seu quarto maior acionista.

Em seu mais recente white paper sobre inteligência artificial, a Tencent (criadora do WeChat) reservou uma parte especial do documento para falar sobre deepfake. Para a empresa, a tecnologia deepfake — ou “tecnologia de síntese deepfake”, como prefere chamar — tem um grande potencial a ser explorado principalmente na indústria de jogos, e-commerce e entretenimento, seja por ajudar na personalização de conteúdo ou permitir uma melhor experiência online para quem está comprando. Imagina só se fosse possível criar uma modelo virtual igual a você, só para provar as roupas que está comprando pela internet? Se a ideia parece boa principalmente em tempos em que se valoriza o distanciamento social, por outro lado, também apresenta riscos de segurança envolvidos. Basta lembrar do caso de Barack Obama, né?


Três filiais da academia de treinamento da NBA na China estão enfrentando graves acusações de abuso infantil, levantadas por ex-treinadores e funcionários. As alegações vão de violência física a tratamento insalubre. Em um caso registrado em documento recebido pela própria NBA, um técnico teria jogado uma bola no rosto de um aluno e dado um chute em seu estômago. Em outro, há relatos de jogadores sofrendo exaustão de calor nas instalações das academias. Por fim, também foram apontadas reclamações quanto ao suporte acadêmico oferecido aos atletas — um técnico chegou a antecipar o término de seu contrato com a instituição por preocupar-se com o futuro dos jovens jogadores dado o baixo nível educacional provido a eles.


Chamada de Greta Thunberg chinesa, Howey Ou vem enfrentando algumas dificuldades com autoridades locais. A jovem de 17 anos ficou famosa no ano passado, quando decidiu não ir à aula durante uma semana para protestar contra as mudanças climáticas em frente ao prédio do governo da cidade de Guilin, no sul do país. Howey tem enfrentado alguns encontros tensos com autoridades da China insatisfeitas com sua postura, ainda que sua principal crítica seja aos grandes conglomerados e à pressão pelo livre comércio, que coloca governos locais em posições difíceis. A ambição da jovem é criar um movimento de base que inclua mais do que simplesmente as classes média e alta, tendo viajado quase sem dinheiro por três meses pelo país para conhecer outras lideranças e ONGs ambientais — mesmo contra a vontade de seus pais.


Mais de 90 cientistas nucleares da China Academy of Sciences (CAS) se demitiram em julho. Eles atuavam no Hefei Institute of Physical Science (HIPS), na província de Anhui. O HIPS é um dos principais braços da CAS e brigas internas tinham recentemente  aumentado as tensões. O governo chinês pediu uma investigação sobre a preocupante demissão em massa. Os pesquisadores, na sua maioria jovens, aparentemente foram contratados por outra instituição, mas não há mais informações sobre o assunto. Tendências recentes indicam uma expressiva fuga de cérebros de jovens pesquisadores saindo de centros acadêmicos para empresas privadas, que pagam salários maiores e têm orçamentos mais altos para financiar pesquisas.v

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Fotografia: religião, anonimato e um toque de subversão encontram equilíbrio no marcante estilo fotográfico de Zhang Jingran.

Comida chinesa for dummies: a culinária chinesa é ampla e complexa, mas não se preocupe, a Radii ajuda a não ficar perdido em meio aos muitos sabores do gigante asiático.

Podcast: o recente episódio do Brookings Cafeteria Podcast é uma conversa entre os pesquisadores Lindsey Ford, Bruce Riedel e Natan Sachs sobre a presença chinesa no Oriente Médio, com foco em dois países — Israel e Arábia Saudita.

Sinofuturismo: experimente este ensaio em vídeo do artista Lawrence Lek chamado Sinofuturism (1836-2046 AD), de 2016. Lek vem de família malaia-chinesa e usa o vídeo para explorar como o desenvolvimento tecnológico chinês seria uma forma de Inteligência Artificial.

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