Em uma admissão da escala da sua atuação em Xinjiang, o governo chinês publicou uma série de documentos oficiais sobre as políticas locais. Nos documentos, fala que, entre 2014 e 2019, anualmente cerca de 1,3 milhão de residentes da região autônoma já receberam “treinamento vocacional”, como ensino de idiomas, e que insiste serem para “reeducação” de minorias. Os white papers reafirmam que as políticas são para redução da pobreza e combate ao terrorismo, com o objetivo de desenvolver a região. A decisão do governo em traduzir essas publicações para diferentes idiomas mostra uma preocupação com as acusações, que existem desde 2017 com crescente frequência e escrutínio, de uso de trabalho forçadoprisões sem julgamento, desaparecimentos e tortura da minoria uigur. Empresas como a H&M já afirmaram que vão cortar contratos com fornecedores da região até maiores esclarecimentos.


Em uma diretriz publicada nesta terça-feira, Pequim anunciou a necessidade de coesão entre o setor privado e os valores e a missão do Partido Comunista Chinês (PCCh). Se lealdade já era um atributo valioso há décadas dentro da organização, Xi Jinping tem buscado, desde sua ascensão ao poder em 2012, aumentar o controle do PCCh sobre diversos setores em nome do rejuvenescimento nacional, uma das marcas de sua era.

A diretriz revela uma preocupação do Partido não apenas em consolidar a fidelidade da elite econômica e de grandes empresas sobre os valores do socialismo com características chinesas; também é uma forma de mantê-las próximas para a própria legitimidade do PCCh. Se a estratégia pode gerar mais controle interno, a imagem internacional de empresas chinesas – como a Huawei e  ByteDance – deve sofrer escrutínio ainda maior daqui para frente por associação.


No sábado (19), o Ministério do Comércio da China publicou as regras de sua nova lista de entidades não-confiáveis, iniciativa que terá como alvo empresas e indivíduos estrangeiros que, aos olhos de Pequim, possam colocar em risco a soberania e a segurança nacional do gigante asiático. A lista, que ainda não foi publicada e proibirá importações, exportações e investimentos aos incluídos, é entendida por analistas como uma resposta chinesa aos Estados Unidos, que também contam com um programa semelhante e, vale notar, usam-no com frequência para punir empresas da China.


A gigante Alibaba deu um passo importante para a automatização da manufatura no país – quiçá, no mundo. Nessa semana, lançou a fábrica inteligente de Xunxi, um projeto-piloto para avançar a transformação digital do setor. Fica na cidade de Hangzhou, e é parte do projeto de expansão da Alibaba para outras partes da cadeia logística de vendas que foi colocada como uma das tendências para o futuro, conforme Jack Ma disse em 2016. Se a atuação principal da Alibaba é no e-commerce, o projeto de Xunxi chega para sacudir o mundo real do setor de vestuário. Vai coletar dados de busca e tráfego no site, para ajudar empresas de pequeno e médio porte a responderem mais rapidamente às demandas dos clientes.

Na sexta-feira (18), o Departamento de Comércio dos EUA disse que a partir de domingo (20), transações realizadas pelo WeChat, e atualizações dele e do TikTok, não seriam mais permitidas. Os aplicativos sairiam das lojas do Android e da Apple, mas uma ordem judicial por enquanto os mantém por lá. Na sexta, o WeChat foi declarado “morto” por um funcionário do governo, mas ainda havia esperança para o TikTok. De fato, o drama do app de vídeos curtos, ao menos, parece chegar ao final. Ao que tudo indica, Oracle e Walmart vão manter parte minoritária da nova TikTok Global – o resto permanece com a ByteDance. A Oracle vai hospedar o app na sua nuvem e terá o direito de inspecionar o código do app se quiser. O acordo parece que não resolve muitos dos problemas apontados sobre segurança nacional que causaram o drama em primeiro lugar. Ainda falta a aprovação do governo chinês.

Trump disse no sábado (19) que a proposta do acordo “tem a sua benção” e alguns apontam que isso tem a ver com a sua boa relação com o CTO da Oracle, Larry Ellison, que é apoiador do governo. O presidente estadunidense aparentemente cometeu dois erros: disse que a TikTok Global seria totalmente controlada pela Oracle e Walmart, mas elas terão juntas apenas 20% da empresa ao que tudo indica (por enquanto). Ele também afirmou que a ByteDance concordou em criar um fundo de 5 bilhões de dólares para apoiar o ensino nos EUA. A empresa disse que nunca ouviu falar dessa história.

E o drama com Washington não parou por aí. Na última sexta-feira (18), a China continental sobrevoou o espaço aéreo de Taiwan com pelo menos 19 caças e bombardeiros. O episódio — que a líder taiwanesa Tsai Ing-wen classificou como uma ameaça a toda a região — ocorreu justamente alguns dias antes de uma viagem de Keith Kratch, subsecretário de Estado estadunidense, à ilha. Maior autoridade de seu departamento a visitar Taiwan desde os anos de 1970, a presença de Kratch certamente não agradou Pequim, que, além das demonstrações de força área, também alertou através do jornal estatal (e nacionalista) Global Times quanto aos riscos da aproximação dos taiwaneses com os Estados Unidos.


Se as relações da China com os estadunidenses não vão bem, as com a Europa também não passam por seu melhor momento. Vista por Pequim por muito tempo como um aliado mais pragmático que os Estados Unidos, a União Europeia vem sendo palco de crescentes expressões de descontentamento com os chineses (como visto, por exemplo, em episódios recentes na França e na República Tcheca). Na semana passada, uma reunião entre lideranças europeias e chinesas de alto nível serviu como oportunidade para debater esses problemas. Apesar dos pedidos de Xi Jinping em favor da construção de uma ampla parceria estratégia com os europeus, a reunião pode ter acabado por salientar as diferenças do bloco com o gigante asiático (particularmente em áreas como os direitos humanos), mais do que contribuído para uma melhora no engajamento entre as partes.

Usar o GitHub para burlar a censura na internet chinesa também foi o caso durante a pandemia. O site de depósito de códigos de programação é liberado na China e amplamente utilizado por lá, sendo praticamente impossível de ser barrado sem afetar o setor de tecnologia. Já havia sido importante espaço de debate durante os protestos do movimento contra o 996. Para quem não lembra, o 996, que significa trabalhar das 9 às 9 durante 6 dias por semana, foi organizado em 2019 por trabalhadores da área de tecnologia no país para criticar esses horários cansativos que causavam problemas de saúde nos funcionários. Desde o surgimento do novo coronavírus e quarentenas na China, com medo de informações sumirem e casos serem acobertados, diversos chineses usaram o GitHub como arquivo de notícias.


E parece que a tecnologia 5G veio para ficar – pelo menos, até o desenvolvimento da 6G. Segundo a Academia Chinesa de Tecnologia de Comunicação e Informação (CAICT, na sigla em inglês), os usuários chineses de 5G já passam de 100 milhões de pessoas. É o maior mercado mundial em termos de consumidores, refletindo a abertura de licenças para o uso comercial da tecnologia. Merece destaque a importância da Huawei para o crescimento dessa rede, uma vez que a empresa controla setores de infraestrutura e aparelhos para a aplicação do 5G. Vale lembrar que a tecnologia 5G está entre os tópicos de investimentos discutidos entre Pequim e Brasília.


Dando continuidade ao desenvolvimento de tecnologias de lançamento de foguetes no espaço marítimo, a China enviou nove satélites de observação terrestre a partir de uma plataforma oceânica no Mar Amarelo. É o segundo lançamento chinês do tipo, o que só foi anteriormente feito também por Estados Unidos e Rússia. Pequim estabeleceu um “porto espacial” na cidade de Haiyang, com a intenção de criar um cluster industrial para diversos setores correlacionados ao programa espacial chinês.


A pandemia da COVID-19 teve efeitos inesperados sobre um outro problema de saúde no gigante asiático: economias fragilizadas e sem oportunidades de emprego transformaram certas regiões em centros fracassados de combate à pobreza e às drogas. A solução encontrada por muitas autoridades foi a internação forçada de usuários de entorpecentes em centros de recuperação. A falta de investimentos para auxiliar na recolocação de ex-usuários recuperados, porém, faz com que se propague um ciclo eterno de retorno ao vício e encarceramento. O país é conhecido por políticas duras contra o uso de entorpecentes, que tem crescido nos últimos anos.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Aniversário: completando 600 anos desde sua construção, a Cidade Proibida em Pequim sobreviveu, ao longo de sua história, a guerras, invasões, incêndios e diversas outras ameaças. Conheça um pouco mais da trajetória desse símbolo da civilização e do poder chinês.

Diário: a jornalista Yuanfen Yang, do Financial Times, escreveu boas reflexões sobre ser jornalista em viagens pelas partes rurais da China.

Discos: história da loja de vinis em Hong Kong que tem uma das coleções mais valiosas do mundo.

Música: a indicação musical da semana vai para 春艷 Chunyan, perfeita para aqueles momentos em que você quer ficar de boa.

Podcast: as professoras e pesquisadoras Bibin Li e Julia Xue conversam nesse episódio do Sustainable Asia sobre conservação marítima na região da Antártica e o papel da China nisso tudo.

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