Os caminhos para uma China neutra em carbono

Crédito da imagem: Zbynek Burival on Unsplash.

Por Bruno Palombini Gastal

Apesar da extravagância dos discursos de Trump e Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da ONU deste ano, o pronunciamento mais relevante do evento no que diz respeito ao futuro da humanidade foi sem dúvida o de Xi Jinping, do qual tratamos nas newsletters 124 e 123. Em nome da China, o mandatário fez o compromisso mais importante para a mitigação das mudanças climáticas a nível mundial desde o Acordo de Paris em 2015: atingir a neutralidade em carbono antes de 2060 — ao invés de até 2065-2070, que era a meta anterior.

A neutralidade em carbono se dá quando as emissões líquidas de CO2 de um país são próximas ou menores de zero; isto é, quando elas não superam a capacidade de absorção de CO2 do país (através de florestas, por exemplo). Para se ter uma ideia do que significaria a economia chinesa chegar nesse estado, esse feito teria sozinho o potencial de reduzir o aumento estimado da temperatura média da Terra em entre 0,2 e 0,3ºC.

Ainda restam dúvidas no ar sobre a seriedade do anúncio, mas há uma série de razões para supor que ele é para valer. Além do compromisso ser unilateral e incondicional, leis e documentos promulgados este ano indicam, de fato, um movimento nesse sentido. Mesmo se houver vontade política por parte da liderança chinesa, no entanto, trata-se de um desafio do tamanho da Grande Muralha.

A primeira tarefa que a China teria que realizar para chegar a tal fim é a redução drástica do papel de combustíveis fósseis em sua matriz energética. Antes de mais nada, isso significa progressivamente abandonar o carvão, que é responsável por cerca de um terço das emissões globais de CO2 e responde por dois terços do consumo de energia chinês. Ainda que difícil, há diversos indícios de que essa realização é plenamente factível, e se traduziria em benefícios econômicos para o país.

Em segundo lugar, a economia chinesa teria que completar a conversão de sua frota de veículos para a eletricidade e se dirigir a setores menos intensivos em carbono. Com a tecnologia atual, indústrias como a siderúrgica e a de fertilizantes, por exemplo, são altamente emissoras. Além disso, o país necessitará investir em tecnologias mais eficientes de transmissão e armazenamento de energia e também de captura e fixação de carbono.

Para que a anunciada neutralidade se traduza numa contribuição concreta para a mitigação das mudanças climáticas, não obstante, essa orientação deve se refletir também na dimensão internacional da economia chinesa.

Os sinais nesse sentido são contraditórios. Por um lado, a tendência geral do consumo de carvão é de queda desde 2013, e o país vem dando alguns sinais claros de querer limitá-lo. Em 2018 e 2019, entretanto, o consumo cresceu, ainda que se mantendo abaixo do nível de 2013, e projetos anunciados neste ano no contexto de pacotes de recuperação econômica pós-pandemia indicam expansão da capacidade instalada e do consumo de combustíveis fósseis, incluindo carvão. Por outro lado, nos últimos anos a eficiência energética de vários setores da economia chinesa vem aumentando, e pode ser que alguns desses novos investimentos contribuam para acelerar essa tendência. Além disso, o país segue na liderança mundial em tecnologia e expansão da geração de energias limpas, especialmente solar e eólica.

Para que a anunciada neutralidade se traduza numa contribuição concreta para a mitigação das mudanças climáticas, não obstante, essa orientação deve se refletir também na dimensão internacional da economia chinesa. É bastante problemático, por exemplo, que investimentos chineses mundo afora, incluindo na América Latina, contribuam para setores intensivos em emissões como o de carvão e de petróleo.

De todas as formas, ainda existe um longo caminho até 2060, e importa muito como a liderança chinesa enfrentará este prazo. Um curso de ação que inspira confiança é o plano elaborado pelo Instituto de Energia, Meio Ambiente e Economia da prestigiosa Universidade Tsinghua, o qual trabalha próximo do Ministério do Meio Ambiente chinês. Segundo ele, a China progrediria gradualmente até 2035 na sua transição e aceleraria a partir daí. Outra alternativa, menos animadora, seria o país esticar a corda o máximo possível, deixando para avançar na descarbonização mais próximo do prazo estipulado.

Nesse sentido, vale prestar atenção às discussões sobre o 14º Plano Quinquenal, a ser lançado no ano que vem. Através desse documento, que guiará os rumos da economia chinesa pelos próximos anos, poderemos saber o quão sérias são as intenções do Partido Comunista Chinês sobre a anunciada transição para uma economia neutra em carbono. Em boa parte, as perspectivas para a manutenção do clima terrestre dentro de um limite aceitável dependem disso.

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