Clima tenso na China com novos casos de COVID-19. Ainda que em número muito abaixo do registrado na maior parte do mundo, Pequim está respondendo com severidade máxima às notícias de mais pessoas contaminadas pelo novo coronavírus no país. Até o momento, 109 novos casos foram registrados na China continental, com o mais novo epicentro localizado na província de Hebei, próximo a Pequim. Também há casos em mais oito províncias. Diferentemente do que aconteceu no ano passado, em que a grande cidade urbana de Wuhan foi o primeiro epicentro da doença, o padrão de infecções atualmente está concentrado em áreas rurais.

Regiões rurais tendem a ter vilas mais espalhadas geograficamente, além de terem maior dificuldade no controle de acesso, já que não possuem uma “entrada principal”, como um prédio residencial. Além disso, são a moradia de muitos trabalhadores migrantes que viajam entre centros urbanos e seus vilarejos de origem — ainda mais agora, perto do Ano Novo Chinês. Zonas rurais têm pouca infraestrutura para fazer quarentenas robustas, e o número limitado de centros de saúde dificulta uma detecção mais cedo da doença. O que fazer, então, para conter o vírus nessas áreas? O governo de Shijiazhuang, capital de Hebei, está realocando 20.000 pessoas para super quarentenas (confira o vídeo da construção em tempo real aqui), estruturas compostas por unidades domiciliares pré-fabricadas, contendo banheiro e cama.

Falando em COVID-19, um time de pesquisadores da Organização Mundial da Saúde chegou a Wuhan na última quinta-feira (14) para averiguar as origens do novo coronavírus. A missão, que foi requisitada por mais de 100 países membros da OMS, era esperada desde o ano passado, mas sofreu atrasos devido, dentre outros fatores, à resistência chinesa em permitir a sua condução. As investigações vão começar online — os membros da comitiva, afinal de contas, precisam cumprir um período de quarentena em seus quartos de hotel antes de ir a campo. Dominic Dwyer, um dos estudiosos do time enviado à China, afirma que não há a expectativa de encontrar o “paciente zero”, mas sim de esclarecer onde e como o vírus surgiu e que fatores influenciaram esse processo.

Única grande economia do mundo a evitar uma contração em 2020, a China precisou de menos de um ano desde o início da pandemia da COVID-19 para recuperar perdas e voltar a crescer. A história desse processo de recuperação envolve uma série de fatores complexos, mas um deles é evidente: a força do Estado chinês — não somente para implementar medidas duras de combate à disseminação do vírus, mas também para ordenar que as engrenagens produtivas do país voltassem a rodar o mais rápido possível. Não bastasse um desempenho econômico impressionante no ano passado, 2021 também não deve deixar a desejar, com projeções indicando um ritmo de crescimento notavelmente superior ao que deve ser registrado em países como os Estados Unidos, por exemplo.

Além da legislação antimonopólio, novos impostos devem fazer parte do futuro das grandes empresas de tecnologia na China que atuam no e-commerce. Com um faturamento de mais de 35 trilhões de dólares em 2019, não é para menos que o governo esteja de olho na economia digital. Os próximos passos devem ser a realização de estudos de experiências com impostos e taxas sobre o setor em outros países, como França e Reino Unido, além da análise de políticas domésticas. Segundo a matéria da Caixin, especialistas da área estão inseguros quanto ao sucesso desse plano devido à maneira pela qual será colocado em prática: como algo novo ou a partir do que já existe. A discussão também abrange taxar a coleta de dados — um tema que polemiza não só a questão de quem tem a posse dos dados, como também como mensurar seu valor financeiro.

Pequim publicou um novo documento sobre cooperação internacional. O white paper defende que a assistência chinesa se dá na dinâmica das relações Sul-Sul, no respeito mútuo e no contexto da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, sigla em inglês). Além disso, traz questões sobre cooperação no âmbito de auxílio internacional, incluindo em casos de crises humanitárias. O documento tem 45 páginas, sendo maior que aqueles lançados previamente sobre o tema (em 2011 e em 2014). Entre 2013 e 2018, a China alocou mais de 41 bilhões de dólares para a assistência a outras nações, priorizando ações na Ásia e na África, com foco em infraestrutura e recuperação econômica. O documento possui um tom positivo, segundo analistas, enfatizando a dedicação chinesa aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas, ao enfrentamento da pandemia e à recuperação após desastres naturais. O white paper promete que o governo irá trabalhar por uma melhor gestão de estatísticas e do sistema de indicadores para o setor de assistência internacional.

Afinal, é preciso saber falar mandarim para entender a China? Essa é uma pergunta cada vez mais importante para pessoas interessadas no país. Em uma brilhante reflexão, Yangyang Cheng discute a complexidade do tópico, que está entremeado por narrativas que tocam em privilégios, racismo e disputas geopolíticas. Para atiçar um pouco a sua curiosidade, Cheng aborda até mesmo o conceito do chinês mandarim como idioma oficial da RPC, e o poder que cada língua carrega. “O fim do mundo não chega através da água, do fogo ou da peste: ele começa com a morte lenta da linguagem”, diz Cheng. Aproveite a leitura disponível aqui.

Que tomar um cafezinho ajuda a se ter uma boa conversa, isso já se sabe. Mas quem diria que um momento assim poderia até mesmo fortalecer as relações entre Estados Unidos e China. Xi Jinping enviou uma carta ao antigo CEO do Starbucks, Howard Schultz, sobre o importante papel que a empresa possui em promover relações de comércio benéficas para os dois países. Com isso, Xi sinaliza um cenário positivo para empresas estrangeiras que atuam ou pensam em atuar na China, incluindo as estadunidenses. A carta de Xi veio em resposta a uma mensagem enviada por Schultz mais cedo, parabenizando a liderança de Xi e ressaltando o respeito que possui pelo povo e pela cultura chinesa.

Cansados da pressão da vida moderna na cidade grande, muitos millennials chineses estão tomando a rota do campo. Em assentamentos que se espalham pelo interior, jovens optam por viver de maneira autossuficiente sob valores comuitários compartilhados e, acima de tudo, de modo isolado da sociedade mainstream. O fenômeno, que já vinha se expandindo ao longo dos últimos anos, ganhou ainda mais força com a pandemia do novo coronavírus — período que levou muitos chineses a refletirem sobre traços dominantes da contemporaneidade, como o enfoque demasiado em prosperidade econômica. “Muitos dos que optam por esse estilo de vida estão procurando por uma nova direção”, diz Peter Yang, estudante da Universidade de Chicago dedicado a pesquisar o fenômeno.

O tema da insatisfação dos jovens da China com suas próprias vidas não é assunto raro nos debates sobre os fenômenos sociais contemporâneos do país. Se também tiver interesse pelo assunto, o Reading the China Dream recentemente traduziu um texto da acadêmica Liu Xinting que investiga os fatores por trás da infelicidade sentida por muitos daqueles nascidos nos anos de 1990 e 2000 no gigante asiático. Recomendamos.

Como cobrimos recorrentemente aqui na Shūmiàn, o debate público sobre violência de gênero tem se tornado cada vez mais amplo na China. Desta vez, um comercial de lenços de limpeza facial provocou uma resposta dura do público chinês: no vídeo, veiculado no Douyin (o TikTok chinês), uma mulher prestes a ser atacada espanta o potencial agressor ao usar o lenço da marca Purcotton para remover sua maquiagem e revelar seu rosto limpo a ele. Imediatamente, usuários da plataforma denunciaram a peça como inapropriada por “demonizar” vítimas de assédio e depositar na aparência feminina a força motriz de episódios de agressão sexual. Após a reação, a empresa removeu a campanha e pediu desculpas, alegando que o anúncio não corresponde a seus valores e que sua divulgação foi, portanto, um erro.

De quem é o kimchi? A origem da picante iguaria de vegetais fermentados em conserva voltou a ser alvo de disputa entre sul coreanos e chineses. Dessa vez, a polêmica surgiu a partir de um vídeo da youtuber Li Zi qi ( 李子柒) — famosa por seus vídeos idílicos cozinhando comida chinesa, conforme já comentamos na Shūmiàn  — em que ela mostra como fazer o delicioso prato. Sem declarar a origem do kimchi, alguns sul-coreanos encararam o episódio como ofensivo, já que Li só cozinha culinária chinesa, levando a entender que o kimchi também seria chinês. Quando a polêmica eclodiu no Weibo, a hashtag falando do ocorrido teve mais de 800 milhões de visualizações (#李子柒做泡菜遭韩国网友围攻#, “Li Zi Qi sendo cancelada por internautas sul-coreanos por ensinar a fazer kimchi”, tradução livre).

Do lado chinês, há quem argumente que o kimchi vem de Yanbian, uma região autônoma de minoria étnica coreana localizada na província de Jilin na China; outros traçam as origens picantes do kimchi à província de Sichuan, conhecida pelo uso da pimenta em praticamente todos os pratos. Seja qual for a herança do kimchi, as disputas identitárias entre China e Coreia do Sul estão longe de acabar.

É possível que você já tenha ouvido falar do “modelo de Chongqing”, um famoso experimento em política pública de impostos e mobilização popular na cidade então sob comando de Bo Xilai, uma liderança com alguns inimigos dentro do Partido Comunista. Bo foi preso em 2012 por corrupção, e a sua esposa estava envolvida no assassinato de um empresário britânico. É uma história que parece cinematográfica. Ele era um rival de Xi Jinping e hoje, quase 10 anos depois, uma interessante análise foi feita sobre o modelo. Vale muito a leitura, que inclui também reflexões sobre os impactos da adoção dessas políticas pelo Partido e sobre o governo Xi.

Ainda dá tempo de retrospectiva? Wu Yixiu analisa como foi 2020 em termos ambientais para a China. O país teve que repensar tanto a questão de regulamentação dos mercados de animais após a descoberta do novo coronavírus quanto a de venda de espécies raras. Além disso, Xi fez aquela famosa promessa sobre alcançar a neutralidade de carbono até 2060. Por fim, muito se discutiu se a retomada econômica seria sustentável (“uma recuperação verde”), mas não se viram reflexos da discussão em políticas públicas.

Podcast: em 2020, o mercado chinês ultrapassou o público dos EUA em números na bilheteria. A relação entre Hollywood e a China é o tema dessa conversa no podcast Why It Matters de Gabrielle Sierra, contando com os especialistas Aynne Kokas e James Tager (autor do relatório sobre censura em Hollywood, que já citamos por aqui).

Das belezas do dia a dia: as ilustrações da taiwanesa Pan Chuling servem como um bom lembrete para apreciar a poesia que existe nas cenas cotidianas. Confira aqui.

Documentário: o filme da diretora Shi Jiayan conta a história e presta tributo a Zhang Yingying, estudante chinesa assassinada em 2017 em Chicago, nos Estados Unidos.

Um jazz para ficar de boa: quem sabe agora não é a hora de relaxar, colocar as pernas para cima e curtir o resto do dia? Com vocês, 羅妍婷 YenTing Lo.

Sons diferentes: um fio preparado pela professora Chenchen Zhang com músicas chinesas que não estão em mandarim padrão. Tem música em vários dialetos: xangainês, dialeto haifeng, lanyin, wu de Suzhou, dentre outros.

Um pouco mais acadêmico: em artigo para o Politics & Governance, Rongrong Lin analisa a ascensão dos tecnocratas no Partido Comunista da China durante a década de 1990 e até 2013, e como o perfil dessas lideranças se encaixou no momento histórico pelo qual o país passou.

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