Chegou a época: na última sexta-feira (05), teve início em Pequim o encontro conhecido como Duas Sessões (两会 liang hui, em mandarim) que reúne a Assembleia Popular Nacional (APN) e o Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), os órgãos legislativos e consultivos chineses mais importantes, respectivamente. Nas Duas Sessões deste ano, são feitos os últimos ajustes no 14º Plano Quinquenal (2021-2025): uma espécie de guia de metas em diversas áreas para o país para os próximos cinco anos. Pouca coisa se decide na ocasião, já que medidas de ordem mais relevantes são discutidas e definidas previamente pelo próprio Partido Comunista da China. Ainda assim, vale a pena acompanhar a reunião, pois é durante ela que costumam se tornar públicas grandes mudanças tanto de direcionamento político quanto de constituição de governo e do próprio PCCh. Do que já descobrimos até agora, chama a atenção o otimismo quanto ao futuro crescimento econômico do país (a previsão é de uma expansão de pelo menos 6% neste ano), aumento de gastos militares e a imposição de novas regras políticas à Hong Kong.

O 14º Plano Quinquenal (14FYP, como é conhecido em inglês) é um dos documentos oficiais mais importantes para entender as metas de curto e médio prazo de Pequim. Com objetivos que tocam em diversas questões, como desenvolvimento socioeconômico, cooperação internacional, pobreza, meio ambiente e saúde, o 14FYP é o resultado de um esforço homérico de políticos, pesquisadores, advogados e sociedade civil para traçar o caminho do país para os próximos cinco anos. O think tank Macropolo fez uma análise de discurso dos FYPs lançados desde 1991. Pontos de destaque: crescente foco em inovação desde o início da década de 1990, maior busca pela coesão do Partido desde o 12FYP e desenvolvimento verde no documento atual. O foco na redução de emissão de CO₂ por unidade do PIB em 18% e o consumo de energia por unidade do PIB em 13,5% em relação a 2020 ganham destaque.

Quer saber mais sobre o que está acontecendo nas Duas Sessões? Recomendamos o fio do jornalista Zichen Wang com versões preliminares de diversos documentos discutidos no encontro, como o próprio 14FYP.

Bateu a curiosidade para saber quem está por trás da elaboração das grandes metas da China? Bem, é muita gente. Aqui, destacamos uma delas: o professor Li Daokui, um famoso intelectual, considerado um dos maiores economistas do país. Ele também é membro do CCPPC e diretor do Academic Center for China’s Economic Practice and Thinking (ACCEPT, sigla em inglês). Li fez algumas recomendações, como leis antimonopólio “para evitar a expansão desordenada do capital” e incentivos para o avanço da digitalização da economia.

Apesar de o anúncio do crescimento econômico de 6% para 2021, os dados que chegam da economia chinesa nesta semana não são bons. A atividade fabril do país se expandiu em fevereiro abaixo das expectativas. O Índice de Gerentes de Compras (PMI, sigla em inglês) que prevê tendências no setor manufatureiro e de serviços, caiu de 51,3 em janeiro para 50,6 no mês passado. Foi o menor desde maio de 2020. O número não indica contração, mas sim crescimento abaixo do esperado. O resultado parece ser o efeito não somente do período de férias do Ano Novo Lunar, mas também dos recentes surtos de COVID-19 em algumas importantes regiões industriais do nordeste do país.

Um documento do Comitê Central sobre revitalização rural é um dos destaques recentes na política doméstica. O “Documento Nº 1” foi o primeiro publicado pelo órgão em 2021 e traz algumas opiniões sobre a modernização da agricultura e a revitalização das zonas rurais do país. O foco é garantir a segurança alimentar no contexto desse momento final da campanha de redução da pobreza (cujos resultados ainda estão em debate). Assim, encoraja a conexão entre ambos os temas — erradicar a pobreza e revitalizar o campo. Algumas das sugestões incluem apoiar regiões produtoras de grãos, modernizar o sistema de criação de animais, reduzir o desperdício do alimento durante o ciclo de produção, investir em melhora na produção de sementes e em P&D focado em agricultura, promover desenvolvimento sustentável, e mais. Dialoga com o discurso de Li Keqiang na abertura das Duas Sessões.

A situação após o golpe de estado no Myanmar segue piorando, com ao menos 38 mortos durante protestos, e a pressão sobre a China também aumenta. Já há semanas, manifestantes acusam a China de apoiar os militares do Tatmadaw (que Pequim nega), e como falamos em outra edição, o país teria pressionado por uma resolução menos firme na ONU. Como membro permanente do Conselho de Segurança e vizinho do Myanmar, é esperado que Pequim tenha uma postura assertiva para garantir a estabilidade da região. Em discussão recente, o embaixador chinês para a ONU, Zhang Jun, afirmou que o país precisa resolver as questões sem violência e promover uma transição democrática de maneira ordenada. Além disso, convocou a comunidade internacional para apoiar o diálogo e reconciliação, enfatizando o papel proeminente da ASEAN, órgão regional do Sudeste Asiático, na situação. Contudo, alguns analistas enxergaram nisso a China “tirando o corpo fora” de atuar diretamente, já que não é membro, apesar dos acordos com o órgão.

Na semana passada, a ASEAN convocou ministros das relações exteriores dos países membros para uma reunião com o governo do Myanmar. Contudo, analistas criticaram a falta de resultados da reunião.

Conforme já comentamos aqui na Shūmiàn, chineses e indianos parecem ter dado uma trégua momentânea a seus conflitos fronteiriços. Novos indícios sugerem, porém, a possibilidade de que as tensões entre os dois países se estendam para além dos Himalaias. Em outubro do ano passado, meses após os choques mortais na região do lago Pangong, um blackout generalizado atingiu a cidade de Mumbai, uma das maiores e mais importantes da Índia. Agora, um estudo divulgado pela Recorded Future sugere que o episódio pode ter sido causado pela penetração de malwares de origem chinesa na rede elétrica indiana. A alegação ainda carece de mais substância — a organização não teve acesso, por exemplo, aos sistemas elétricos da Índia para examinar em detalhes a ocasião — mas, caso confirmada, pode revelar novas e importantes dimensões dos recentes atritos entre os vizinhos.

Um dos maiores fundos bilaterais já criados e projetos que levavam a esperança de irrigar o país com desenvolvimento, mas terminaram em abandono: a conturbada relação sino-venezuelana já viu um pouco de tudo. Os generosos financiamentos lastreados em petroyuan ou minério de ferro envolveram os maiores bancos de desenvolvimento da China (China Development Bank e Ex-Im Bank) e da Venezuela (Bandes), mas não foi o suficiente para levar os planos adiante. Se há um elemento em comum entre os mega projetos que fracassaram — como uma fábrica de eletrodomésticos, a construção da Estrada de Ferro Anaco-Tinaco e um escritório fantasma que deveria gerir o fundo bilionário entre China e Venezuela — foi o pouco planejamento de Caracas e a crise política econômica que se acentuou com a morte do líder Hugo Chávez. Faltou transparência nos contratos comerciais em coisas básicas, seja com a taxa de câmbio, leis trabalhistas e prazos.

O fim do hukou como conhecemos? Não é de agora que se sabe dos problemas trazidos pela criação dos documentos para migração interna no país, ao restringir o acesso a certos serviços públicos. O governo chinês está ciente das dificuldades de integração entre a população urbana e rural, e algumas províncias já começaram a experimentar com novos formatos nos últimos anos. No final de fevereiro, a província de Jiangxi inaugurou uma política de que pessoas advindas de região rural poderiam adquirir registros residenciais sem restrições prévias. Como a matéria do Sixth Tone afirma, os planos nacionais de urbanização incluem aumentar o acesso ao hukou urbano. A mudança é vista com bons olhos por especialistas no país e deve ser replicada em outras regiões com desafios similares.

A ostentação tem limite: o Douyin (a versão do TikTok na China) passou a banir usuários que exibem a própria riqueza na plataforma, para coibir o que os administradores chamam de “valores prejudiciais” e promover um “modo de vida civilizado”. Atos como mostrar altas quantias de dinheiro, piada com pessoas pobres, gastos exorbitantes e, literalmente, jogar dinheiro para o ar, são algumas das coisas que foram banidas. Apesar da proibição ter partido do Douyin, não é de hoje que se busca diminuir as práticas de ostentação em público, seja na internet ou na televisão. Pelo menos desde 2011 o governo central cria leis que regulamentam conteúdos de vídeo e áudio para não dar espaço à atividade.

Dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher, e é um bom momento para resgatar alguns temas sobre feminismo recente no país. Diversos grupos de mulheres têm crescido, encontrando apoio e se organizado pela internet, parte de uma nova geração de feministas que entendem de tecnologia e novas mídias. Não apenas confinada ao espaço urbano, a discussão reflete também questões de classe à medida que desigualdades reforçam os desafios para as chinesas. Recentemente, grupos feministas se reuniram em boicote organizado contra a empresa de vídeos Bilibili, após promover um anime criticado por apresentar misoginia e pedofilia. Diversas mulheres abandonam a plataforma, devido à falta de responsabilização por comentários e atitudes sexistas de outros usuários.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Vidas LGBT na China: conheça a história e as experiências de Cui Le, um professor chinês que se assumiu homossexual em 2015 em solidariedade a uma estudante que recém havia se assumido. Cui relata a trajetória de opressão e ostracização que se seguiu ao seu ato de coragem.

Moda sino-africana? O fluxo de tecidos com estampas típicas de países africanos, mas produzidos na China, é o tema desse interessante artigo acadêmico. Ao analisar  tecidos da Etiópia e Moçambique, Miriam Driessen e Johanna von Pezold discutem como afeta a moda local, as estratégias de venda e até o design nessa interação. Rolou até fio no Twitter com imagens de alguns dos tecidos.

Luzes de Pequim: a excelente iniciativa Beijing Lights é um projeto da jornalista Huang Chenkuang. Ela entrevistou 27 pessoas em Pequim e publicou no site (em inglês e mandarim). Os entrevistados eram pessoas que ela achou por aí, estranhos e que não são normalmente ouvidos, como faxineiras, barbeiros, garçonetes, massagistas. Ela conversou sobre o projeto no podcast NüVoices.

Bate-papo: entre Branko Milanovic e Dexter Roberts, sobre o sucesso econômico chinês. Deve ser aplaudido ou temido? Confira aqui, em texto.

Tradução: 10 escritoras chinesas que deveriam ter suas obras traduzidas do mandarim para outros idiomas. A lista é de 2016, então algumas obras já foram traduzidas para o inglês, como os contos de Xia Jia e o livro de Li Juan.

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