O algodão é nosso: Xinjiang foi tema central da semana

 

 

 

Xinjiang é pautadentro e fora da China. A última semana foi agitada: começou com as sanções de que falamos na edição passada, passou por ciberespionagem e campanhas sobre o algodão produzido na região. O Facebook anunciou em nota que desmantelou uma operação de hackers localizados na China, que perseguiam dissidentes e uigures. Mais entidades e indivíduos, dessa vez do Reino Unido, foram sancionados por Pequim. Ao mesmo tempo, surgiu uma campanha nacional nas redes chinesas (com hashtag de apoio e várias matérias na mídia) para boicotar marcas estrangeiras que haviam se posicionado como “preocupadas” com o uso de algodão vindo da região, por ligação a trabalhos forçados. Uma nota da H&M sobre a questão, emitida em 2020, foi resgatada na quarta-feira (24) por netizens (segundo investigação, por uma conta da Liga da Juventude do Partido). Listas de marcas estrangeiras, que emitiram notas parecidas, circularam pelas redes sociais, incluindo Nike, Adidas, Burberry, Zara e Uniqlo, com pressão por um boicote generalizado. A China é um dos maiores produtores de algodão no mundo e 85% do que o país produz é de Xinjiang. Para ter uma ideia, cerca de 5% das vendas da H&M no mundo são na China.

Como resultado da pressão, artistas chineses famosos cancelaram contratos com as marcas, enquanto a Tencent removeu roupas da Burberry do jogo Honour of Kings. Lojas chinesas de e-commerce, como as gigantes TMall, JD.com e Pinduoduo, retiraram roupas de algumas das marcas dos seus apps. As empresas estrangeiras reagiram para mitigar danos: a H&M tirou a nota do ar, bem como a Zara, enquanto a Muji destacou-se por promover o fato de usar algodão de Xinjiang. O Ministério do Comércio chinês pediu que as marcas estrangeiras não politizem questões comerciais e afirmou que as acusações sobre uso de trabalho forçado na região são falsas.

No domingo (28), o Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres, falou em entrevista que seguem as negociações para que Pequim permita o acesso do Escritório do Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, chefiado por Michelle Bachelet, à região. E, na segunda-feira (29), o Ministério das Relações Exteriores realizou uma coletiva de imprensa com o governo local de Xinjiang. As autoridades afirmaram que é preciso ser cauteloso com as acusações, pois a produção de algodão é vital para o desenvolvimento regional.

O bom filho à casa retorna. Em visita de inspeção a Fujian, Xi Jinping destacou a revitalização rural e a indústria florestal da província da qual já foi governador. Para analistas, a ida de Xi ao seu berço político não foi mera coincidência: em tempos de crescente escrutínio pelo Ocidente sobre violações de direitos humanos na China, Xi faz um apelo às raízes tanto de sua carreira quanto da civilização chinesa para enfrentar os desafios que estão por vir.

Os impactos do controle da pandemia de Covid-19 na China já começam a ser sentidos na política monetária. Segundo analistas da Allianz, o gigante asiático diminuiu a intensidade de estímulos mais rapidamente do que na crise financeira de 2008. O Banco Mundial projeta uma expansão de 8,1% da economia chinesa para 2021, o que deve impulsionar a economia do Leste Asiático em cerca de 7,1%. Mesmo diante dessa perspectiva, Pequim segue atenta à necessidade de manter estímulos para setores específicos, como empresas de micro, pequeno e médio porte. Um relatório do governo mostra que os empréstimos para esses negócios alcançaram 50 trilhões de yuans (o equivalente a US$ 7 trilhões) em 2020, e a estimativa é de expansão de 14% para este ano. De acordo com os dados mais recentes, de 2018, a China tem 15,3 milhões de negócios desse porte, o que corresponde a 84,4% do total de empresas do país.

Quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta. A ausência de metas socioeconômicas no 14º Plano Quinquenal (14FYP, sigla em inglês) pode ter criado um novo paradigma para entender a China. Como pondera Damien Ma para o Macropolo, a ausência de indicadores claros não é apenas uma quebra na tradição dos planos quinquenais — a primeira em 35 anos — mas também sinaliza mudanças institucionais. Mais especificamente, retira o incentivo negativo (como corrupção) de atingir objetivos a qualquer custo nas províncias oferecendo um ambiente mais atrativo para investimentos de longo prazo.  Agora, o foco é criar as condições para um crescimento estável no mundo pós-pandêmico, com o fortalecimento do modelo econômico de dupla circulação e ambientalmente sustentável, com mais diversificação na matriz energética chinesa.

Mas como esse novo paradigma pode influenciar a governança na China? Considerado um dos maiores pensadores da China contemporânea, Yu Keping, ex-reitor da Escola de Governo da Universidade de Pequim, acredita que os novos tempos podem favorecer valores democráticos no país. Veja a entrevista de Yu sobre o tema aqui.

 

 

No momento em que sofre críticas e sanções do Ocidente, a China move suas peças de política externa em direção ao Oriente Médio em busca de apoio, num contraponto aos europeus e aos estadunidenses, sobre o tratamento dos uigures em Xinjiang. O ministro de relações exteriores chinês, Wang Yi, deu início a uma série de visitas a seis países muçulmanos, como Arábia Saudita, Turquia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Omã. Apesar da busca por apoio, logo no início da viagem Wang foi recebido com protestos em Istambul. Em Dubai, Wang concedeu entrevista e afirmou que a China pretende convidar representantes israelenses e palestinos para conversas e negociações.

Sob o ponto de vista econômico, a aproximação com alguns desses países também visa à continuidade de acordos para o fornecimento de energia de fontes como petróleo e gás. Ainda com esse objetivo, chineses e iranianos devem firmar um tratado de cooperação de 25 anos. Vale a leitura deste artigo e deste fio no Twitter da analista Lucille Greer sobre a relação dos dois países no cenário regional.

As conferências diplomáticas das duas últimas semanas continuam dando o que falar. Ao fim da reunião de dois dias entre China e Rússia na terça-feira (23), os ministros das Relações Exteriores dos dois países fizeram um comunicado à imprensa em que propõem a criação de uma nova plataforma para diálogo de segurança regional. Assim, ambos parecem dar uma resposta à ofensiva diplomática estadunidense na Ásia-Pacífico das últimas semanas, ao mesmo tempo em que sugeriram a convocação de uma reunião de cúpula dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU para buscar entendimentos sobre como lidar com desafios globais contemporâneos.

Sobre o xadrez geopolítico global após a chegada de Biden ao poder nos EUA, vale a leitura das análises do ex-diplomata indiano M. Bhadrakumar, para quem é preciso não superestimar o conflito entre as grandes potências, que não se parece em nada com a antiga Guerra Fria: China e Rússia devem resistir a iniciativas estadunidenses mais intrusivas, mas preferem o engajamento construtivo. Um exemplo disso seria a agenda ambiental compartilhada por Pequim e Washington, alavancada após a polêmica reunião no Alasca.

Após fazer uma gestão marcada por conflitos com a China, Ernesto Araújo deve deixar o cargo de ministro das Relações Exteriores, como mostram reportagens dos jornais O Globo e da Folha de S.Paulo na manhã desta segunda-feira (29). O chanceler teria pedido demissão após ver sua relação se desgastar com o Congresso. Ele chegou a ser chamado de “marginal” pela senadora Kátia Abreu, por ter usado as redes sociais para sugerir que teria sofrido pressão por parte dela sobre o leilão 5G no Brasil. Ainda que sem menções diretas à China, a fala do então ministro foi usada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro para criticar a existência de um possível lobby chinês por parte dos senadores. Em nota, a senadora afirmou que apenas defendeu que a licitação para o 5G não fosse guiada por questões políticas, com receio de represálias ao agronegócio brasileiro.

 

 

O sucesso no controle da circulação do coronavírus na China é, sem dúvida, motivo para comemoração, mas também faz com que o governo enfrente dificuldades em convencer a população a se vacinar contra o vírus. Em Pequim — que está perto de atingir a meta de 60 dias sem novos casos — há relatos de oferta de cupons de desconto para quem apresentar o certificado de imunização. Depois de um início lento de vacinação da população, a administração central agora quer acelerar o processo. A motivação, alguns dizem, vem do fato de que os EUA conseguiram antecipar seu calendário de imunização.

Na semana passada, foi anunciado o início da vacinação de estrangeiros em cidades como Pequim e Shanghai. O movimento acontece ao passo que a China vem reforçando a diplomacia por meio da vacina — como falamos na edição anterior —  e, além da distribuição e venda de seus produtos, deve facilitar vistos para estrangeiros que se inocularam com vacinas chinesas. Apesar disso, a comunidade científica critica a falta de divulgação de dados sobre vacinas em meio ao surgimento da necessidade de uma terceira dose em alguns casos em que a resposta imunológica foi baixa.

Uma explosão misteriosa em Guangzhou matou cinco pessoas, incluindo o culpado. Contudo, pouco se falou na mídia chinesa sobre o caso, que aconteceu pela manhã de segunda-feira (22), na área do antigo vilarejo de Mingjing. Informações foram esparsas, afirmando que a explosão foi proposital. Notícias mais tarde relataram que o alvo foi um prédio do governo local e, segundo alguns investigam de maneira extraoficial, foi motivado por um projeto de renovação imobiliária no vilarejo.

Afinal, Pequim terá um ar mais limpo? É o que o governo chinês vem tentando conquistar nos últimos anos, após a cidade ter sido apontada como “capital da neblina”. Embora haja claros sinais de melhoras no ar pequinês, a cidade enfrentou, no último mês, dias de bastante poluição, como contamos aqui, tendo um dos episódios coincidido com uma das maiores festas do país, a celebração do Ano Novo Lunar. Este estudo mostra as políticas de qualidade do ar conduzidas pelo governo chinês e o impacto delas na vida dos cidadãos. Além disso, nesse fim de semana, os moradores de Pequim viram mais uma tempestade de areia, a segunda em menos de um mês. As imagens divulgadas retratam dias marcados por tons amarelados e cinzentos, servindo de matéria-prima para memes bem-humorados.

Aulas de inglês, matemática, piano, coreano, artes, pintura, química, violino, natação e, ufa, hora de dormir. Essa é a rotina de aulas particulares de muitas crianças chinesas em cidades de grande porte. A competição para entrar nas melhores escolas de ensino médio do país é o gás de uma indústria de ensino estimada para chegar à casa dos trilhões de reais em 2024. A pressão por alta performance afeta a saúde física e mental das crianças e o bolso dos pais, que sentem a pressão para gastar com a educação de seus filhos. “É um problema social”, diz Xi Jinping. Parte da solução está em melhorar a qualidade das escolas de ensino médio e aumentar a fiscalização sobre a indústria, segundo o governo central. Nas últimas semanas, o segmento sofreu mais escrutínio das autoridades e isso se refletiu em quedas nas ações de empresas ligadas ao setor. Mais regulamentações são esperadas para o resto do ano.

 

 

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Cinema: a plataforma Mubi disponibiliza, para a América Latina, sete obras restauradas do celebrado diretor honconguense Wong Kar-Wai, incluindo o clássico “Amor à flor da pele”.

Arquitetura: veja como arquitetos estão resgatando vilarejos abandonados por meio de cooperativas rurais de tofu, chá e bebidas.

Fotografia: conheça as diferentes fases do fotógrafo xangaiense Shen Wei. Com temas que vão desde a solidão de jovens estadunidenses em Minnesota a autorretratos que bebem da influência greco-romana e antigas histórias chinesas, Shen é um artista que você precisa conhecer.

Ópera: a ópera de Pequim é famosa, a de Sichuan um pouco menos, mas você já conhecia a ópera tibetana? O pesquisador Stephen Jones escreveu sobre essa forma de arte, incluindo alguns vídeos e fotos, a partir do livro “The Singing Mask”, de Isabelle Henrion-Dourcy.

Podcast: começou a 2ª temporada de Strangers in China, série que foca em entrevistas com pessoas que estão às margens da sociedade chinesa contemporânea. A estreia trouxe dois episódios sobre o primeiro time feminino de frisbee no país, as Shanghai Sirens.

Expressão: você já ouviu falar em baizuo? O termo pode ser traduzido como “esquerda branca” e é usado de forma depreciativa por conservadores chineses para se referir a alguns setores da esquerda que enxergam como influenciados em demasia pelo Ocidente. Apareceu na boca do conservador estadunidense Tucker Carlson na semana passada.

 

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