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Foto de Markus Winkler disponível no Unsplash

Edição 162 – Após DiDi, China limita IPO de techs no exterior

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Após DiDi, China restringe abertura de capital de techs no exterior. Na semana passada, nós contamos aqui que o IPO (initial public offer, na sigla em inglês) da gigante chinesa foi marcado por um freio de Pequim, que abriu uma investigação para apurar questões de segurança, derrubando o preço das ações. Ao longo da semana, o governo chinês avisou que deve implementar um filtro para decidir quais de suas empresas de tecnologia atendem aos requisitos mínimos de segurança de dados para serem listados em bolsas fora do país.

O governo chinês divulgou um rascunho de uma nova legislação que pode adicionar mais uma etapa no processo de abertura de capital de empresas chinesas no exterior. O projeto prevê a exigência que empresas de tecnologia que possuam dados pessoais de pelo menos 1 milhão de usuários submetam o pedido de IPO à revisão de um órgão de segurança e checagem em cibersegurança. De acordo com o South China Morning Post, este colegiado é formado por integrantes de 12 ministérios do país. O documento, divulgado no último sábado (10), está aberto para críticas e revisões até o próximo dia 25. Ainda segundo a reportagem, não está claro se a nova regra vai incluir os pedidos de IPO em Hong Kong, um dos principais destinos das empresas chinesas.

E por falar em Hong Kong, empresas como Facebook,Twitter e Google ameaçam deixar a ilha. Segundo reportagem publicada pelo jornal espanhol La Vanguardia, essas empresas temem ser responsabilizadas pelos conteúdos publicados por seus usuários. O timing explica a preocupação dessas empresas: Hong Kong pode ter uma nova lei sobre proteção de dados que, junto à Lei de Segurança Nacional implementada recentemente, mostra como a atuação de Pequim está cada vez mais assertiva na cidade/região administrativa.

O TikTok vai dominar o mundo? A ByteDance, empresa criadora da rede social, passou a vender a inteligência artificial (IA) do aplicativo para outras finalidades. Esta reportagem do Financial Times de início de julho mostra que, nomeada como Byte Plus, a divisão da empresa trabalha com áreas distintas como um aplicativo de moda e um site de viagens. A empresa nega, segundo matéria do Global Times da semana passada. Considerando que a ByteDance se coloca como uma startup de IA, vale ficar atento. Esta interessante análise de Eugene Wei sobre o algoritmo do TikTok é uma boa pedida para quem é de área.

Falando em análise do setor de tecnologia chinês, o Instituto Merics publicou um relatório sobre o uso de Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês). Sob autoria de John Lee, o documento foca em como a China cresce na área, dentro e fora do país, com forte papel do Estado nas decisões estratégicas. O resultado é uma influência no setor a ponto de moldar como novas tecnologias e regulações estão se desenvolvendo ao redor do mundo. Isso abre espaço para a atuação de empresas chinesas com presença global em IoT e infraestrutura ligada à internet. O texto considera a possibilidade de domínio da China nessa área e, com isso, como as principais dinâmicas relacionadas ao poderio tecnológico e científico podem sair do núcleo EUA-Europa.

Afinal, qual o tamanho da pegada de carbono da China? Um estudo lançado na semana passada pela Universidade de Boston traz dados inovadores sobre os países que mais financiam matrizes energéticas poluentes, como o carvão. A pesquisa desfaz a crença de que a China seria a maior responsável por manter indústrias à base dessa fonte de energia e aponta falta de dados e transparência para a construção dessa crença mundialmente. De acordo com os pesquisadores, isso acontece em parte, porque o gigante asiático lançou em 2013 o megaprograma Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês). O estudo mostra que a China é a maior financiadora apenas quando se leva em conta o uso de dinheiro público para financiar termelétricas a carvão mundo afora. Porém, se forem levados em conta dados de financiamentos públicos e privados, entidades não chinesas são responsáveis por 87% dessas indústrias. A China, então, seria responsável por apenas 13% desses financiamentos.

Em reportagem que toma como base o estudo, a Reuters diz que “em vez de apontar dedos, o G7 deveria trabalhar com o G20, que inclui a China, e outros fóruns para terem conjuntamente o controle de financiamento público e privado em carvão”. Vale a leitura deste fio para entender melhor os dados do estudo.

Dissuasão nuclearReportagem do The Washington Post mostra — por meio de satélites — a construção de silos de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) no noroeste chinês. A descoberta é do James Martin Center for Nonproliferation Studies da Califórnia, que identificou mais de 100 obras no deserto próximo à cidade de Yumen, na província de Gansu. Os mísseis abrigados nos silos em construção seriam capazes de carregar ogivas nucleares, e o aumento desse tipo de instalação seria um marco na política de defesa nuclear da China. De fato, em junho, o relatório do SIPRI (Instituto de Pesquisa sobre Paz Internacional de Estocolmo) chamou atenção para o aumento e a modernização do arsenal atômico chinês, que teria passado de 320 para 350 ogivas nucleares. Porém, apesar do crescimento, a China ainda está bem atrás de Rússia e EUA, os quais, juntos, possuem mais de 11 mil ogivas e continuam investindo na modernização de seus arsenais.

Falando em armamento, uma matéria do South China Morning Post analisou o perfil da China no comércio mundial do setor também partindo de dados do SIPRI. Pequim ainda depende de importações, sobretudo da Rússia, de quem compra sistemas de defesa aérea e aviões de combate, ainda que a dependência venha diminuindo. França e Ucrânia também são importantes fornecedores de armamentos para a China. A novidade é que nos últimos anos o país asiático vem se tornando um grande produtor e exportador de armas: os principais destinos são Paquistão, Bangladesh, Argélia e Mianmar.

Uruguai pode se aproximar sozinho da China? Pegou de surpresa o anúncio feito no fim da última semana pelo presidente uruguaio Lacalle Pou de que seu país vai buscar acordos comerciais sozinho — fora do bloco Mercosul. Embora pareça um tema ligado apenas aos cinco membros do bloco, a preocupação logo se volta para como ficam as relações com a China, principal parceira comercial de vários dos países da região. A discussão sobre acordos com o gigante asiático já rendeu no passado críticas e apreensão. Surpreendidos, alguns países do bloco acreditam ter havido descumprimento das regras do Mercosul, o que é negado pelo presidente uruguaio. Vamos acompanhar.

Há 50 anos, em plena guerra fria, Henry Kissinger visitava a China em segredo. O que veio depois é história: um ano mais tarde, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, faria uma viagem que mudaria os rumos das relações entre os dois países. Há quem diga que mudou a geopolítica do século XX e XXI. Kissinger escreveu seu relato no famoso livro “Sobre a China”. Um evento oficial em Pequim realizado na sexta (9) celebrou a visita secreta e os discursos enfatizaram a necessidade de cooperação entre EUA e China.

Amanhã, 13 de julho, é Dia do Rock em terras brasileiras, então aproveitamos o gancho para falar de rock chinês — já que volta e meia surgem sugestões do estilo musical por aqui. Uma matéria imperdível da revista Rolling Stone conta um pouco da história do rock independente e especula sobre o futuro do gênero (que sempre foi rebelde), especialmente na capital chinesa. Dentre os desafios atuais, está o crescente controle policial nas apresentações e outras questões da cidade, como pandemia, gentrificação e reforma urbana que fecha bares e casas de show (além de deixar tudo mais caro), e as políticas em relação ao uso de drogas no país. Vale preparar aquele cafezinho e ler ouvindo as nossas recomendações musicais.

Outra cidade chinesa que tem a música de contracultura no seu DNA é Wuhan, considerada berço do punk chinês e com rica vida de shows. Hoje em dia, após o pior da pandemia ter passado e graças ao apoio de reality shows populares, há um interesse renovado na cena alternativa. Esta matéria de Jinghua Qian é para enviar para quem acha que a cidade é só o primeiro epicentro da pandemia e apresenta uma discussão complementar ao texto da Rolling Stone.

Conectando punk e rock chinês com Brasil está o músico e produtor cultural Alê Amazônia, que toca o projeto China TropicalEle vai ser nosso convidado para a primeira live da Shūmiàn no nosso Instagram, na quinta-feira, às 20h (horário de Brasília). Anota aí na agenda!

Quem vai cuidar dos idosos em uma população que está rapidamente envelhecendo? Matéria do South China Morning Post conta a história do eletricista aposentado Zhang Guanchang de 83 anos, que, após sofrer um derrame, passou a residir em um asilo na cidade de Wuxi há três anos. Seu único filho não tinha como cuidar dele em casa e acabou optando por pagar uma instituição privada para prover os cuidados necessários — cerca de 40 mil renminbi (R$ 32 mil) ao ano, o que equivale a 40% de sua renda familiar anual. Instituições públicas seriam mais baratas, porém, há imensas filas de espera. A história de Zhang é representativa de uma realidade em que não há vagas suficientes em asilos públicos, os asilos privados têm custos elevados e os filhos, únicos, não conseguem cuidar de seus pais sozinhos e manter seus empregos.

Autoridades públicas vêm incentivando a formação de centenas de milhares de cuidadores e a contratação de serviços em asilos privados, mas estes em geral são muito caros, como ressalta a Reuters. Vale lembrar que atualmente são 190 milhões de chineses com mais de 65 anos e esse número deve crescer ainda mais nos próximos anos.

Qual o limite para o uso do reconhecimento facial? Para a Tencent, nem mesmo as crianças estão fora da medida de identificação. A empresa anunciou na semana passada que vai passar a desenvolver o uso do reconhecimento facial para que as pessoas possam fazer login em seus videogames. Isso se dá num contexto em que a China tenta limitar o acesso de crianças e adolescentes a jogos, enquanto preocupações com o uso da tecnologia e privacidade de dados crescem entre chineses. Esta reportagem do The New York Times mostra que a aposta em reconhecimento facial serve para tentar driblar a tentativa dos mais jovens de usarem as identidades dos pais para jogarem além do permitido. Se você se interessa pelo assunto, vale voltar a algumas de nossas edições em que abordamos o tema.

Acabou junho, o mês do Orgulho LGBTQIA +, e com ele veio um banimento em massa de grupos e redes universitárias na China no WeChat. Na terça-feira (6), uma notícia correu pelas redes de que as contas haviam sido apagadas. Muitos desses grupos eram informais e dedicados a estudos de gênero de modo amplo e nasceram da organização de estudantes de universidades famosas no país, como Tsinghua, Universidade de Pequim e a Fudan (consideradas as três melhores da China). A Radii conta que mais de 20 contas foram bloqueadas e os conteúdos deletados, com um aviso de violação das regras de uso. Segundo especialistas chineses entrevistados pelo South China Morning Post, a medida reflete a percepção de alguns grupos conservadores de que há excessiva influência ocidental em questões relacionadas à homossexualidade. O artigo também relembra casos de represálias parecidas nas redes, como em 2018, quando a rede Weibo removeu uma série de conteúdos LGBTQIA+. Este fio no Twitter também comenta outros casos recentes na China.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Vamos alinhar nossos níveis de água? Se você estuda mandarim, vale dar uma olhada neste texto do Chinarrative sobre os jargões corporativos em circulação na China. Bora fermentar!

Um pouco de droga e um pouco de salada: essa é uma tendência de comportamento entre os jovens adultos chineses que está chamando atenção até de marcas de comida. É a péngkè yǎngshēng (saúde punk), ou seja, misturar um ingrediente que a Rita Lobo não aprovaria a algo saudável. Fique por dentro aqui.

Primeiro como história, depois como souveniros 100 anos do Partido Comunista da China também renderam muita lembrancinha para colecionadores. Se você curtiu a série hit “Awakening Age” sobre os momentos pré-fundação do PCCh ou apenas é fã, agora dá para adquirir um chaveirinho do Chen Duxiu.

Podcast: a plataforma Mubi (vivemos recomendando os filmes por lá, mas não é #publi) levou o cinema chinês para o áudio. A discussão é sobre o filme sucesso do Ano Novo Chinês de 1997, “The Dream Factory”, de Feng Xiaogang.

Wolf Warrior: Se você acompanha notícias sobre relações exteriores da China certamente já ouviu este termo. O The New York Times trouxe um pouco sobre o principal “lobo” da diplomacia chinesa, Zhao Lijian. Esta edição da newsletter do Bill Bishop tem um excerto do livro de Peter Martin sobre a diplomacia da RPC e que já apareceu nesta edição aqui, sobre os primeiros diplomatas chineses na ONU.

Aí sim: são 72 músicas — uma para cada ano de existência da República Popular da China. Confira e prepare os ouvidos para essa compilação de Josh Feola e Krish Raghav, com breves explicações. E não dá para encerrar a edição de hoje sem recomendar Cui Jian, o maior ícone do rock chinês (que aparece na lista em 1986).

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Em sua tradução literal, o Chengyu 画蛇添足 (huà shé tiān zú) – significa “desenhar uma cobra e colocar pés nela”, o que pode ser interpretado como “arruinar o efeito de algo por adicionar alguma coisa supérflua”, ou o famoso “tá inventando moda”.

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