Foto em cores de copas de árvores vistas a partir de janela de estética tradicional chinesa.

Foto de 一只猫的橘 via Unsplash.

Edição 390 – A transição verde no centro da estratégia de desenvolvimento chinês

Política e economia

Verde é meta, não discurso. Durante um seminário no banco Asiático de Desenvolvimento, em Manila, o vice-ministro das Finanças da China Liao Min reforçou o que já aparece no 15º Plano Quinquenal: a transição verde não é apenas um acessório, mas o centro da estratégia de desenvolvimento do país. Segundo ele, dos oito indicadores vinculantes do plano, ou seja, aqueles que os governos subnacionais são obrigados a cumprir, cinco estão ligados ao desenvolvimento de baixo carbono. Liao aproveitou o espaço para fazer também um balanço econômico com números indicando que o PIB chinês superou 140 trilhões de yuans no ano passado, com a China respondendo por cerca de 30% do crescimento econômico global. O consumo doméstico também foi ressaltado, aparecendo como novo motor desse crescimento, e o país mira dobrar sua classe média de 400 para 800 milhões de pessoas na próxima década.

A Evergrande, lembra dela? A gigante da construção civil chinesa entrou em processo de liquidação em 2023, depois de ser incapaz de quitar uma dívida de 23 bilhões de dólares – apenas uma fração de um total de 300 bilhões. Nesta terça-feira (14), o fundador da empresa, Hui Ka Yan, admitiu culpa por oito crimes relacionados a fraudes financeiras da empresa. A corte de Shenzhen ainda não anunciou sua pena. Hui foi por muitos anos um exemplo de sucesso, tendo se tornado bilionário por meio do trabalho, após uma infância no campo; a Evergrande, no entanto, começou a se complicar em 2020, quando mudanças na legislação do setor foram criadas para limitar o endividamento das incorporadoras; com a prática de usar os fundos investidos por compradores de imóveis para iniciar outra obras, a Evergrande deixou dezenas de prédios inacabados pelo país. Segundo apuração do South China Morning Post em julho de 2025, uma campanha governamental que se propôs a finalizar essas moradias havia entregue, desde 2022, em torno de 6,5 milhões de unidades para seus compradores.

Internacional

Clima tenso no mar (do Sul da China). As tensões no Mar do Sul da China ganharam um capítulo inusitado. As Filipinas acusaram pescadores chineses de despejar cianeto nas águas ao redor de uma região de recifes disputada no Arquipélago Spratly, onde Manila mantém um posto avançado. Testes laboratoriais confirmaram a presença da substância tóxica em garrafas apreendidas pela Marinha filipina entre fevereiro de 2025 e março de 2026, escondida em embalagens de detergente de marcas populares chinesas. Para as autoridades filipinas, o cianeto teria sido usado de forma deliberada para matar a população de peixes local e cortar uma fonte de alimentação dos militares estacionados no navio. Pequim negou, com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chamando as acusações de “totalmente inverossímeis e sem credibilidade”. O episódio acontece em um momento delicado, uma vez que no fim de março, China e Filipinas realizaram conversas de alto nível sobre o Mar do Sul pela primeira vez desde o início de 2025, o que mostra que, por mais que a diplomacia tente avançar, o conflito na região segue em outra frequência.

Clima tenso nas montanhas. Saindo do mar para a terra, pela sexta vez desde 2017, Pequim publicou uma lista com nomes “padronizados” para localidades na região em disputa de Arunachal Pradesh, que a China reivindica como “Zangnan”, ou Tibete do Sul. A lista mais recente, divulgada em 10 de abril, traz 23 entradas, entre montanhas, rios, aldeias e passagens, cada uma com um nome em caracteres chineses, escrita tibetana e pinyin, além de coordenadas GPS. No total, já são 112 localidades renomeadas por Pequim desde a primeira lista. Pesquisadores chamam a estratégia de “agressão cartográfica” – a normalização incremental de reivindicações territoriais por meio de mapas e listas administrativas, sem um único tiro. A Índia rejeitou a iniciativa como uma “tentativa maldosa” de criar narrativas falsas, lembrando que Arunachal Pradesh “sempre foi, é e sempre será parte integrante e inalienável da Índia”. O timing também chama atenção: a lista foi divulgada durante um período de engajamento diplomático ativo entre os dois países, o que sugere que Pequim a usa menos como rotina administrativa e mais como sinal calibrado de que não abre mão de suas pretensões territoriais, mesmo enquanto sorri para a câmera.

Efeito Beijing-Brasília. Brasil e China juntos respondem por 25% do risco de desmatamento associado ao comércio internacional de commodities agrícolas. O dado é de um novo relatório da Trase, organização especializada em rastreabilidade de cadeias produtivas, que cunhou o conceito de “Efeito Beijing-Brasília” para descrever o potencial que a dupla tem de puxar uma agenda global de sustentabilidade. A relação bilateral entre os dois países movimenta quase US$47 bilhões por ano em produtos agrícolas, com soja e carne bovina dominando o fluxo; com todo esse peso, qualquer compromisso conjunto tem impacto global. O relatório propõe cinco frentes de ação entre os países: troca de conhecimento e inovação, financiamento verde, padrões conjuntos para cadeias livres de desmatamento, combate à ilegalidade e fortalecimento da cooperação Sul-Sul. Para discutir tudo isso, a Trase realizou na última semana um webinar com representantes de governos, academia e setor privado dos dois países, incluindo nomes do Banco Mundial, da Academia Chinesa de Ciências e do Ministério brasileiro.

Sociedade

Revolução ou hype? Já contamos por aqui como o desenvolvimento acelerado da robótica movida a inteligência artificial na China também vem sendo acompanhado de alertas sobre uma possível bolha. Nesta longa matéria do The Guardian, a jornalista Chang Che explora o tema e como a empolgação doméstica na China sobre IA parte muito da sua combinação com a robótica, especialmente o seu uso em fábricas. Além da geopolítica, dos números impressionantes de investimento (cerca de 922 bilhões de yuans em tecnologias como quântica e robótica) e do custo reduzido dos robôs chineses, a discussão perpassa muito o mercado de trabalho. Afinal, fábricas hoje em dia empregam milhares de pessoas na China – e no mundo. Ao mesmo tempo, os jovens cada vez mais se distanciam desse tipo de trabalho braçal. Ironicamente, diversos jovens acabam indo trabalhar como “treinadores” de movimentos para esses robôs.

Zheng He

Corre pra casa: Com o mercado imobiliário ainda em crise, cidades chinesas precisam diversificar suas estratégias de vendas. Algumas delas, como conta a Sixth Tone, passaram a oferecer descontos para maratonistas.

Explicadinho: Depois de ler sobre Evergrande e subsídios para moradias, vale conferir este texto de Chien Ling, que explica para brasileiros toda a complexidade das limitações e opções, na sociedade chinesa, entre onde você mora e onde você nasceu.

Pra inglês ver: Este texto reflete sobre uma “europeização” do mandarim moderno, na construção de sintaxes e afins. O argumento é que esse processo vem ocorrendo desde o século XIX, em duas ondas principais que tiraram a fluidez do hanzi.

 

O SCMP explica como a crise no Oriente Médio afeta a aviação na Ásia – spoiler: os países asiáticos precisam importar petróleo da região para produzir o combustível usado em suas aeronaves.

 

 

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