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Edição 171 – Crise na Evergrande acende alerta no mercado imobiliário

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Grande para sempre? A Evergrande, gigante da incorporação imobiliária, está no vermelho há alguns meses e enfrenta uma crise que faz jus ao seu nome. Agências de risco rebaixaram sua avaliação na última semana, recomendando a venda das ações da empresa. Com dívidas que somam mais de US$ 300 bilhões (cerca de 1,5 trilhão de reais, quase 40% do PIB brasileiro), a solução foi entregar propriedades como pagamento por serviços de construtoras, conforme reporta a Caixin. A possibilidade de calote está cada vez maior e, com isso, crescem os temores de que a crise da Evergrande se alastre e desencadeie uma crise bancária. Nesta segunda-feira (13), cerca de 100 investidores foram protestar na sede da Evergrande em Shenzhen para cobrar o pagamento de dívidas — o gerente local foi literalmente posto contra a parede pela manifestação, uma mulher desmaiou e as negociações não progrediram muito.

Mas como é que uma das maiores e mais reconhecidas empresas chinesas chegou a esse ponto? O The New York Times listou dois motivos: novas políticas do governo chinês para combater o endividamento excessivo de incorporadoras e o que parece ser um desaquecimento do mercado imobiliário chinês.

China fecha cerco contra contratação de tutores. Lembra do crackdown contra o ensino extracurricular? Pois é, o governo percebeu que empresas e alguns professores particulares acharam um “jeitinho” de burlar a proibição das aulas extras, dando nomes criativos aos tutores, como babás e cuidadores. Na última quarta-feira (8), o Ministério da Educação afirmou que vai fiscalizar serviços oferecidos em forma de “consultorias” ou similares, como conta a Xinhua. Essa proibição deve atingir aulas online ou mais “informais”, como aquelas oferecidas em cafés ou em casa, como deixa claro este texto da Reuters. Quando o assunto é educação infantil, a coisa está ficando ainda mais séria: já falamos aqui sobre a proibição de provas e limitação de jogos online; agora, o governo chamou as empresas de tecnologia para conversar sobre como isso vai se dar na prática.

E por falar em crackdown, as techs chinesas mal têm uma semana de descanso sem novas regulações. O exemplo mais claro é o Alibaba, que começou esta semana com perdas na bolsa. Isso porque o Financial Times publicou uma reportagem sobre a nova exigência governamental de fragmentar os negócios do Ant Group, conglomerado de Jack Ma. Segundo o texto do jornal econômico, a intenção é separar o Alipay, aplicativo de pagamentos, dos negócios de financiamento e empréstimos da empresa, como Huabei e Jiebei. Isso se soma às inúmeras ações regulatórias de Pequim que têm o grupo de Ma como alvo.

A propósito, Canghao Chen publicou um texto no The Diplomat analisando o que leva o governo chinês a apertar a Alibaba. O principal motivo? A empresa seria uma ameaça à autoridade monetária da China.

E agora também tem os sindicatos… Duas grandes empresas de tecnologia chinesas, a JD.com e a DiDi Chuxing, decidiram montar sindicatos para seus funcionários. O timing é interessante: com o fim do expediente 996 e medidas tomadas pelo governo para apoiar funcionários de empresas de tecnologia (como comentamos aqui), esta pode parecer mais uma mudança em favor dos trabalhadores. Mas é um pouco mais complicado que isso. Todos os sindicatos chineses são associados à união sindical estatal All China Federation of Trade Unions (ACTFU) — e ela não tem histórico de luta por melhores condições de trabalho, como lembra a Reuters. Assim, é possível que esse movimento das big techs seja menos em prol dos trabalhadores do que um sinal a Pequim de alinhamento com os objetivos de “prosperidade comum” e com as mudanças que vêm sendo implementadas no setor. Vale acompanhar como isso vai se desenvolver.

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe… A China pretende fazer, pela primeira vez, um leilão de parte do petróleo de suas reservas estratégicas. A decisão busca estabilizar preços e vem na esteira da volatilidade do valor da commodity internacionalmente e do aumento do custo da energia e da inflação no país (por motivos diferentes do que ocorre no Brasil). O petróleo será leiloado entre refinarias e produtoras químicas domésticas e ainda não tem data para acontecer, como apurado pela Al Jazeera.

Cidades encolhem. Essa é uma das conclusões observadas no último censo chinês, que saiu em abril de 2021. Uma análise de Houze Song para a Macropolo foca na discussão sobre o impacto da demografia nas regiões urbanas – no caso, as cidades em crescimento (com aumento de pessoas em idade ativa) e as cidades encolhendo (que tiveram uma redução de pessoas em idade ativa). Pelo censo de 2020, as cidades chinesas em crescimento são 25%, enquanto as cidades encolhendo são 75%. A maioria das que viram um aumento de pessoas em idade para trabalhar estão localizadas no delta do rio Yangtzé ou na área da Grande Baía (que inclui Hong Kong, Macau e Guangdong). Para Song, as cidades em fase de encolhimento verão problemas fiscais sérios no futuro, com o envelhecimento populacional, e o governo chinês precisa agir logo com foco nessa desigualdade.

Quem vai lembrar? Na última semana (10), mais quatro honconguenses foram presos sob a lei de segurança nacional. Desta vez, os alvos da polícia foram organizadores da Hong Kong Alliance, responsável pela vigília anual que relembra os acontecimentos da Praça da Paz Celestial. A prisão se deu no dia seguinte de uma recusa pública do grupo em entregar para a polícia informações requisitadas sob o pretexto de que o grupo seria um “agente estrangeiro” operando no território. Outros membros da  HKA já estão presos e a organização enfrenta penalidades financeiras. No dia seguinte às prisões, um museu dedicado ao assunto, fechado desde junho, teve obras confiscadas. Hong Kong e Macau são os únicos territórios chineses onde o episódio é relembrado anualmente, além de Taiwan.

E como vai a relação da China com o Brasil? Se antes (e depois) de assumir o governo, o presidente Jair Bolsonaro defendia o distanciamento dos chineses, no final da última semana ele surpreendeu ao defender a parceria com a China para compra e produção de vacinas. A fala se deu durante a Cúpula dos Brics, realizada virtualmente este ano devido à pandemia. O bloco — formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul — reuniu-se na quinta-feira (9) e, como mostra o jornal O Globo, não trouxe muitas novidades. Para saber mais sobre o futuro do grupo, vale ouvir a entrevista de Karin Costa à Rádio Sputnik.

Me liga, me manda um telegrama. Alegando não estar contente com o engajamento chinês nas relações bilaterais, o presidente dos EUA, Joe Biden, telefonou para Xi Jinping na última sexta (10). De acordo com o relato dos estadunidenses, antes da ligação entre os líderes houve conversas entre representantes dos dois países — que não se mostraram satisfatórias. Biden teria se incomodado com a forma como a China tem responsabilizado os EUA por uma série de problemas, entre eles, questões ambientais. Há quem especule que um dos incômodos teria sido a forma como John Kerry foi recebido pelos chineses em visita na semana passada. Do lado chinês, o relato publicado pela imprensa oficial em inglês foi de um clima amistoso, os dois países preferindo melhorar a relação e não querendo partir para conflitos. Mas, em chinês, como aponta este fio de Bill Bishop, o tom adotado foi outro, de queixas de Pequim em relação a Washington.

O cenário do futuro da relação das duas maiores economias segue incerto. Há ainda uma expectativa sobre um eventual encontro entre Xi e Biden pessoalmente em outubro durante a reunião do G20 em Roma. Até o momento, o presidente chinês não confirmou presença. Aliás, este texto da Bloomberg lembra que Xi completou mais de 600 dias sem deixar o país, o que poderia ter impacto para as relações exteriores. Será? Seja como for, depois da viagem da vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, por países asiáticos, chegou a vez do ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, visitar a região.

Um golpe de Estado na Guiné preocupa Pequim por possíveis flutuações do preço da bauxita, matéria prima necessária para a produção de alumínio. A China importa cerca de 47% desse mineral diretamente do país africano e precisa de alumínio para atender a demanda da produção industrial interna. Com disrupções no fornecimento, Pequim teria de se valer da segunda maior produtora, a Austrália — o que criaria uma dependência pouco favorável geopoliticamente. Wang Wenbin, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, declarou em conferência de imprensa (06) que o país está monitorando de perto a situação na Guiné e que “a China se opõe a tentativas de golpe para tomar o poder e pede a libertação imediata do presidente Alpha Condé [até então o presidente do país]”, ressaltando que as partes envolvidas devem “exercer calma e moderação e ter em mente os interesses fundamentais da nação e do povo”.

A fala de Wang Wenbin foi recebida com alarde por alguns veículos da mídia ocidental, como a Foreign Policy, que vê nela uma posição de interferência da China em assuntos internos do estrangeiro. A avaliação é bem diferente do editorial do Global Times, que destaca que o posicionamento da China é o mesmo da ONU e da União Africana.

Falando em China e África, empreiteiras chinesas estão buscando financiamento de bancos europeus para darem seguimento aos seus projetos em países africanos. Conforme apuração da Global Trade Review, instituições financeiras europeias estão com taxas mais atrativas do que as chinesas no momento e alguns governos africanos decidiram diversificar suas fontes de financiamento. Mas tem outro motivo para a mudança: o Eximbank chinês e a Sinosure, seguradora de crédito, atingiram seu limite de exposição ao risco em alguns países já endividados, aumentando sua relutância em financiar novos projetos. Além disso, diversos países africanos precisaram reestruturar suas dívidas com as instituições chinesas por causa dos impactos da pandemia em suas economias.

Aliás, essa semana foi divulgado um relatório da Universidade de Negócios Internacionais e Economia de Shanghai sobre investimentos chineses na África. Entre 2000 e 2019, a China teria somado mais de US$ 43 bi (cerca de R$ 226 bi) em investimentos externos diretos em 52 dos 54 países africanos.

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Sissy that walk. Já apareceu aqui na newsletter o movimento de voguing que vem crescendo na China, com destaque para Shanghai e Pequim. Um novo documentário da Vice News cobriu um evento para 600 pessoas em Shanghai e a história emocionante de como a cena underground de dança de salão e vogue se tornou um espaço de acolhimento e libertação para a população LGBTQIA+ no país. Um dos jornalistas envolvidos na produção do curta fez um fio no Twitter sobre a sua experiência como pessoa queer crescendo na China.

Harmonização facial é tendência entre homens na China também. Esta videorreportagem da SCMP expõe as histórias do pesquisador Xia Shurong e do ator Nai Wen, que fizeram cirurgias plásticas com a promessa de alcançarem mais sucesso em suas carreiras. Segundo dados apresentados pela matéria, cerca de 17% dos trabalhadores de colarinho branco chineses já fizeram procedimentos do tipo e a tendência é especialmente presente entre homens jovens, pressionados por influenciadores de beleza masculina nas redes sociais.

Sem espaço para Kpoppers. Já perdemos a conta de quantas vezes usamos este espaço para falar sobre o bloqueio ou suspensão de contas no Weibo ou em outras redes sociais chinesas. Desta vez os alvos foram 22 contas de fãs de K-pop, o famoso ritmo sul-coreano que costuma fazer sucesso entre os chineses. Como justificativa, o Weibo afirmou que o modo de seguir as estrelas é um comportamento irracional. Como contamos aqui, Pequim anda de olho para tentar conter o espaço, a importância e a influência que celebridades têm entre os cidadãos, especialmente em relação aos mais jovens.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Tipografia: as fontes usadas nos caracteres chineses podem ser… excessivamente colonizadas? Sim, e um designer honconguense quer mudar isso.

Tradição: quando você pensa em roupa chinesa, qual peça te vem à cabeça: o qipao ou o hanfu? Este texto do South China Morning Post fala sobre o debate em torno do assunto.

De repente, feminista: este fabuloso vídeo do The Guardian conta como Su Min deixou para trás seu marido abusivo para viver sua liberdade na estrada.

Lembra das enchentes de Henan? A Chinarrative traduziu relatos de alguns dos 900 passageiros do trem K31, aquele que ficou preso nos trilhos por 48 horas devido às fortes chuvas. Fome, desespero e solidariedade — teve de tudo um pouco nesse evento caótico.

Ai, um jazz: hora de amolecer o coração com o jazz maroto de 思語紅 SEE-U, perfeito para começar bem a semana.

Que jazz o quê: se a semana já começou pauleira por aí, talvez o punk taiwanês de 帕崎拉PACHILA seja uma pedida melhor.

Deu ruim: o último imperador da China, Puyi, virou jardineiro e terminou a vida frustrado com seu tempo no poder. A vida dessa figura histórica é o tema desta matéria da BBC, publicada em espanhol.

Podcast: a Revista Problemas Brasileiros entrevistou a pesquisadora Tatiana Prazeres sobre os vínculos entre China e Brasil para além da economia.

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O chengyu da semana é o 小题大做 xiǎo tí dà zuò que, no seu sentido literal, significa “escrever um grande texto sobre um assunto pequeno”, ou “fazer tempestade em copo d’água”.

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