A presença da China na ONU: desafios da governança global

Enquanto lideranças tradicionais se afastam dos holofotes, a China assume um papel de proeminência na organização

Reunião no prédio das Nações Unidas, em Nova York. Créditos da imagem: Matthew TenBruggencate on Unsplash

Por Júlia Rosa

Fundada no pós-Segunda Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) tem sido notoriamente um espaço dominado por democracias liberais. Mais especificamente, a participação da França, Reino Unido e Estados Unidos costumavam ser centrais dentro da organização – principalmente no Conselho de Segurança.

A entrada da China na ONU se deu já em 1945. Porém, era a República da China (hoje Taiwan) quem representava o país, visto ser um período conturbado na atual República Popular da China – que só surgiria 4 anos mais tarde. Taiwan teve um assento no Conselho de Segurança da ONU até 1971. Durante muitos anos, a participação chinesa na ONU era pouco incisiva e até mesmo crítica da organização.

O debut chinês para o mundo na segunda metade da década de 2000 trouxe mudanças nesse sentido. A partir da entrada na Organização Mundial do Comércio (2001), a China tornou-se uma das principais vozes em defesa dos países em desenvolvimento e da globalização. A nação é cada vez mais ativa na área de segurança da ONU, especialmente nas operações de paz. É – de longe – o maior contribuinte de tropas para as missões dentre os países com poder de veto no Conselho de Segurança (2.500 pessoas mobilizadas), além de ser o segundo maior contribuinte financeiro (o primeiro ainda é os Estados Unidos). O que isso significa?

Muito se especula e os motivos podem ser vários: questões de treinamento para as Forças Armadas, presença nas regiões de interesse (principalmente África), demonstração de boa vontade ou desejo de melhorar a imagem do país. A professora da Universidade de Hong Kong, Courtney J. Fung, fez a primeira pesquisa a fundo sobre essa atuação da RPC no Conselho de Segurança.

De todo modo, é um momento sensível na organização. O governo dos Estados Unidos se afasta da ONU e do multilateralismo, por questões ideológicas do presidente Trump. O Reino Unido – e de modo amplo, a própria Europa – encontra-se em discussões profundas sobre Brexit e a ascensão de governos de direita que questionam a legitimidade da organização e criam vácuos de poder. Alia-se a isso a crescente influência chinesa, especialmente com o projeto da Belt and Road – já abraçado pela ONU na busca por alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Desde o famoso discurso de Xi Jinping no Fórum Econômico Mundial em Davos em janeiro de 2017 (logo após a eleição de Trump), no qual o presidente chinês defendeu a cooperação e discutiu longamente a questão da globalização, desafios sobre a desigualdade e o papel da 4ª Revolução Industrial nos problemas e soluções do futuro, é inegável que a China ganhou destaque no multilateralismo no palco internacional.

“Não existem vácuos de poder, fato que o governo chinês certamente já percebeu. Contrariando um comportamento diplomático recente de olhar para dentro, a China reconhece que suas vitórias foram também por causa do acesso aos mercados globais e, cada vez mais, olha para fora.”

Do início daquele ano em diante, muito mudou no mundo. A China tornou-se uma das principais forças à frente dos Acordos de Paris, tomando a frente nos esforços globais sobre mudança climática e, inclusive, clamando os Estados Unidos a permanecerem no Acordo. O governo chinês e a ONU fortaleceram parcerias na área de pesquisa para o desenvolvimento, tal qual com um novo centro de pesquisa focado em análise de dados, na cidade de Hangzhou. Um ex-ministro da agricultura do país tornou-se o diretor da FAO (a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). Outros braços da ONU, como a Unesco (de cultura e educação) e o próprio Conselho de Direitos Humanos, entraram no radar chinês. Não por coincidência os EUA se retirou dos dois. Não existem vácuos de poder, fato que o governo chinês certamente já percebeu. Contrariando um comportamento diplomático recente de olhar para dentro, a China reconhece que suas vitórias foram também por causa do acesso aos mercados globais e, cada vez mais, olha para fora.

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