Muito já se falou sobre a reação chinesa à pandemia da COVID-19. Agora — quase um ano após a detecção dos primeiros casos da doença na cidade de Wuhan — começam a ficar mais claros, porém, os principais impactos da crise em torno do novo coronavírus sobre a ciência e a reputação global do país. Como explora a revista Nature em artigo sobre o tema, os incentivos para o desenvolvimento de uma vacina na China são grandes, e as motivações para tanto são de ordem científica, mas também política. Muitos veem no esforço uma oportunidade de reverter a deterioração da imagem chinesa ao redor do mundo. Conforme apontam especialistas chineses e estrangeiros, porém, apressar esse processo pode não somente comprometer a qualidade dos avanços, mas também implicar riscos importantes à saúde pública.

Supostos documentos oficiais (não confirmados por Pequim) revelam como o governo e as autoridades chinesas teriam respondido ao início da pandemia. O furo é da CNN, que em uma matéria relata que as quase 120 páginas de documentos demonstram um número maior de casos do que o relatado, além de maior dificuldade para lidar com o problema do que inicialmente exposto pelas autoridades. A matéria também afirma que, apesar disso, os documentos eximem o país de alguns erros, dadas as magnitude e dificuldade de compreensão do problema. Inclusive, chega-se a dizer que muitas democracias ocidentais enfrentam ainda hoje, meses depois, as mesmas questões com relação a testes e diagnósticos.


Nessa semana, a Foreign Affairs publicou texto da controversa ex-professora renomada da Escola Central do Partido (de onde se aposentou em 2012), Cai Xia, da qual já falamos antes. Cai Xia era uma intelectual respeitada no país, até que um áudio seu com fortes críticas ao Partido e a Xi Jinping levou à sua expulsão do Partido e a seu exílio. Intitulado “O Partido que fracassou”, o texto publicado na Foreign Affairs conta a trajetória da ex-professora e das suas visões sobre Marx, comunismo e política chinesa, e acaba sendo uma feroz e desiludida análise dos burocratas do Partido ao longo dos anos e da ascensão de Xi.

Essa visão pessimista de Cai Xia nos faz pensar imediatamente no funcionamento do Partido. Muita coisa a gente ainda não sabe, mas em um artigo que voltou a circular recentemente pelo WeChat  (e censurado em pouco tempo) dá para ter uma noção de como funciona a promoção de oficiais na instituição. O texto foi traduzido para o inglês e está disponível aqui.


A China se tornou o segundo país da Terra a colocar a sua bandeira na Lua. A sonda Cheng’e-5 chegou com tranquilidade ao lado escuro da Lua e colheu amostras para trazer de volta. Torna-se, assim, o terceiro país a colher amostras lunares: atrás dos EUA e da Rússia. O programa espacial chinês tem recebido muitos investimentos nos últimos anos. Para saber um pouco mais, confira o vídeo e o texto da nossa editora júnior, Rita Feodrippe, para o Radar China sobre o tema.

Falando em espaço, outro passo importante para o país: os esforços na busca por vida extraterrestre (SETI, em inglês) começaram com um projeto oficial durante o fim de semana passado. O FAST, sigla do inglês Five-hundred-meter Aperture Spherical Radio Telescope (radiotelescópio com abertura esférica de 500 metros), é um observatório construído na província de Guizhou há 4 anos. É o maior do mundo e a esperança dos pesquisadores do programa, que conseguiram autorização em agosto para utilizar o observatório em busca de vida extraterrestre, cujo início oficial aconteceu no sábado (4). É um bom momento para resgatar esse texto que fala sobre tal pesquisa na China, e como a obra do escritor de ficção científica Liu Cixin conversa com todos os esforços.

O Brasil subiu mais um degrau na escalada de tensões com a China. Conforme informações divulgadas pelo jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proibiu a equipe ministerial do governo de receber o embaixador chinês Yang Wanming. O fato se soma a uma série de altercações entre membros da cúpula do governo e a embaixada da República Popular da China. A embaixada chinesa não se pronunciou a respeito até o fechamento desta edição.


Em artigo de opinião ao Wall Street Journal, John Ratcliffe, diretor nacional de inteligência estadunidense, afirmou que a China é, hoje, a maior ameaça aos Estados Unidos e o maior risco à liberdade e à democracia ao redor do mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Além de alegar que Pequim busca dominar o mundo nos planos econômico, militar e tecnológico, ele ainda acusou os chineses de roubar tecnologia dos EUA de modo a acelerar o processo de modernização de suas forças armadas. Em resposta, Hua Chunying, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, classificou o posicionamento de Ratcliffe como uma “mistura de mentiras” e apontou que o oficial não ofereceu qualquer prova que suportasse às suas acusações. “Esperamos que políticos dos Estados Unidos respeitem os fatos e parem de vender notícias falsas”, completou.


As tensões entre China e Austrália continuam aumentando. Para além de discussões comerciais que se arrastam, a arena diplomática sobre direitos humanos parece conduzir as conversas. Estão pipocando notícias sobre os efeitos colaterais gerados pela suposta fakenews da imagem do soldado australiano no Afeganistão: da diplomacia do “lobo guerreiro” à substituição de minério de ferro australiano. Pequim negou o pedido de desculpas pela questão, conforme exigido pela Austrália, e a mídia nacionalista chinesa aumentou o tom das críticas. O acompanhamento da situação é especialmente relevante para o Brasil, uma vez que Camberra é o maior concorrente do país no mercado de commodities minerais para a China.


Você já deve ter ouvido falar na Iniciativa do Cinturão e Rota “verde” — a busca para tornar os investimentos do plano de Xi Jinping mais ambientalmente sustentáveis. Assim como “sustentabilidade” é uma palavra passível de discussão sobre seu significado e aplicabilidade, “verde” também o é: pode mudar, dependendo do local de destino, e desempenhar um papel político fundamental para a maior aceitação da iniciativa. No caso de países de renda alta, por exemplo, “verde” é todo investimento em tecnologia de baixo carbono, enquanto que, em países de renda baixa e média, “verde” é projeto de mitigação de fontes de energia tradicionais, como carvão mineral e usinas hidroelétricas. Saiba mais aqui.

O que isso significa, no entanto, para a China e a Iniciativa Cinturão e Rota? Em primeiro lugar, é importante lembrar que a maleabilidade de conceitos não é exclusividade da China. Em segundo (e mais importante), aponta para a complexidade que os empreendimentos da Iniciativa sofrem em diferentes regiões do mundo. É notório o caso do Paquistão que, em tratativas iniciais da Iniciativa, teria muitos investimentos em energia eólica, mas que, por pressão política interna paquistanesa, acabou com mais usinas termelétricas. Ou seja: a Iniciativa é relacional, e seus conceitos — e não apenas seus resultados — são um produto que depende das duas partes.

Início de dezembro marca o tão esperado julgamento Xianzi vs. Zhu Jun, o famoso caso que marcou o movimento #MeToo chinês. Em 2014, quando Xianzi estagiava na famosa rede de tv CCTV em Pequim,  Zhu Jun — um dos atores e apresentadores mais famosos da China — a assediou. O ocorrido só veio à tona em 2018, quando Xianzi fez um post viral no Weibo narrando a violência. Não é surpreendente que o post tenha sido censurado, nem que haja relatos de coação, por parte da polícia local, de convencer a família de Xianzi a abandonar o caso. Como se não bastasse essa situação toda, Zhu também está processando Xianzi por danos morais e exigindo uma compensação de mais de mais de 500 mil reais. Na terça-feira (01) várias pessoas foram à frente do tribunal de Haidian, onde o caso será julgado, para demonstrar apoio à Xianzi.

Quer saber mais sobre o caso de Xianzi e ouvir dela mesma o que aconteceu? Então não deixe de ler essa entrevista que ela concedeu recentemente.


Na última quinta-feira (03), a startup AutoX, que conta com apoio da Alibaba, anunciou o lançamento de uma pequena frota de robotáxis — categoria de táxis sem motorista — nas ruas de Shenzhen, no sul da China. Primeira a realizar tal feito no país, a empresa agora se destaca na competição pelo promissor mercado de veículos autônomos no gigante asiático. “É um sonho”, declarou Jianxiong Xiao, CEO da AutoX, em entrevista. “Depois de trabalhar duro por anos, finalmente chegamos a um ponto em que a tecnologia está madura o suficiente”, afirmou. Ficou curioso para ver os robotáxis em ação? Dê uma espiada aqui.


Uma empresa imobiliária reuniu locatários e locadores em protestos em sua sede em Pequim. A Danke Apartment, plataforma online para imóveis, foi criada em 2015 e já tem cerca de 500 mil propriedades pelo país. Em janeiro, foi listada na Bolsa de Nova York, mas, em agosto, apareceram acusações de mau uso de dinheiro estatal. A Danke já foi considerada bem “estrelinha” do mercado imobiliário no país e seu modelo funciona com pagamentos antecipados com desconto, normalmente de um ano. O novo coronavírus impactou o negócio e muitos locatários estão reclamando de não receberem pagamentos, forçando, por sua vez, locadores (que já pagaram) ao despejo. Quase 1 milhão de locatários podem ser expulsos. O governo central estava incentivando a modernização do setor, o que também não escapou das gigantes como Alibaba e Tencent. Cada vez mais, surgem pedidos por mais regulação dessas novas empresas imobiliárias fortemente baseadas em tecnologia.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Dose dupla: vem para o abraço, que a dica musical dessa semana está bem generosa: um pop rock de 黃鴻升 Alien Huang, e um hip hop com A/DA 阿達.

Pintura e direitos humanos: não deixe de conferir a excelente exibição online The Gaze that SubvertsO protagonismo feminino é a peça central, com mulheres sendo as principais vozes — seja para cobrar coerência da rule of law, seja para protestar contra a opressão do patriarcado.

Para ouvir e pensaracesse o podcast do China Power e saiba um pouco mais sobre a origem do pensamento chinês acerca de soberania — um conceito fundamental das relações internacionais.

Mais podcast: no último episódio do Exponential View, podcast de tecnologia da Harvard Business Review, Kai-Fu Lee fala sobre a jornada chinesa rumo à liderança tecnológica mundial. Imperdível.

Documentário em Wuhan: o filme “76 Dias”, focado no início da pandemia em Wuhan, promete ser forte. O cineasta Hao Wu, que vive nos EUA, estava no país asiático para celebrar o Ano Novo Lunar com a família e, após voltar, reuniu-se com Weixi Chen e um jornalista anônimo. Os três usaram filmagens de dentro de hospitais e documentaram os 76 dias de quarentena na cidade. Assista ao trailer e leia essa entrevista com Hao Wu. O lançamento nos EUA ocorreu no dia 4 de dezembro.

O futuro da internet: a Al Jazeera publicou um programa de 24 minutos sobre o papel da China na governança global da internet, perguntando quem vai ganhar a batalha pelo futuro do ciberespaço.

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