Metrô em Shenzhen

Foto de Joshua Fernandez

Atenção redobrada aos gastos dos governos locais. Essa foi uma das principais mensagens passadas pelo Ministério das Finanças durante as Duas Sessões, encerradas no dia 11 de março. Com o governo central em um processo de diminuir os estímulos econômicos liberados em 2020, há a preocupação de que os governos locais (em nível de província) recorram a grandes gastos em infraestrutura e empréstimos para impulsionar a atividade econômica. Mas o risco de desestabilizar o sistema financeiro com gastos excessivos e dívidas pouco transparentes ameaça, segundo o próprio ministério, “a segurança nacional e o desenvolvimento econômico sustentável”.

Confira o relatório completo sobre os orçamentos do governo central e local executados em 2020 e as metas para 2021 aqui.

Ninguém está acima da lei — nem mesmo as gigantes de tecnologia. Tencent, Baidu, Meituan, Bytedance e Didi Chuxing, dentre outras, foram multadas por reguladores antitrustes devido a práticas que caracterizam monopólio. As multas passam de 432 mil reais (valor máximo) e se referem a 10 aquisições no setor de internet que não foram notificadas corretamente ao governo central. É mais um movimento de Pequim de reassumir o controle sobre a super poderosa indústria tech do país, conforme já falamos outras vezes. A punição diz respeito a aquisições realizadas em 2018 e está alinhada às políticas do governo compartilhadas durante as Duas Sessões.

O gigante de perguntas e respostas, Zhihu, aplicou para abrir capital nos EUA. Similar ao famoso site Quora, o Zhihu tem mais de 315 milhões de postagens de perguntas e respostas, e fechou o ano de 2020 com 75 milhões de usuários. Sua atuação expandiu e hoje cobre também serviços de e-commerce e postagens mais no estilo blog. Contudo, a monetização está difícil: após 10 anos de existência, o site ainda não tem lucro. Publicidade, eventos online ou membresia não são suficientes; por isso, a empresa busca cerca de 100 milhões de dólares no IPO. A Zhihu também está testando as águas do mercado financeiro estadunidense, que passou legislação no ano passado exigindo que as empresas não sejam vinculadas a governos estrangeiros.

5G no Brasil é uma pauta que parece ainda dar pano pra manga. Em reunião recente, o ministro das comunicações do Brasil indicou que a Huawei não está apta para fornecer a rede privada e exclusiva de 5G ao governo. A construção dessa rede privativa tem alguns requisitos diferenciados de transparência e segurança, e a empresa não demonstrou interesse em participar. O ministro mencionou também que a empresa chinesa está fora das redes de infraestrutura da nova tecnologia em boa parte das redes privadas em outros países. Isso a coloca fora do leilão que deve ocorrer ainda esse ano. Enquanto isso, pelo quarto ano consecutivo, a Huawei foi a rainha do registro de patentes no mundo, seguindo o Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT, sigla em inglês), em um contexto também de crescimento da China em 16% nos registros. Um vídeo na matéria da WIPO mostra a impressionante evolução chinesa desde 2001.

Em um aceno importante à sustentabilidade, Pequim anunciou que não vai financiar, em Bangladesh, projetos baseados em carvão. Termelétricas e minas de extração do material não devem mais receber dinheiro da China, o que pode sinalizar um caminho diferente para os investimentos da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês). Se antes Pequim adaptava seus investimentos às fontes de energia mais abundantes em cada região, agora há uma preocupação cada vez maior de se investir em energia limpa — seja dentro ou fora da China. É a BRI mais verde.

A notícia de Bangladesh está alinhada com o mercado internacional de carvão. Com redução de lucros e financiamentos cada vez mais escassos para fontes de energia fósseis, a transição energética de países que utilizam a fonte de energia em larga escala é cada vez mais urgente.

Em acordo histórico, China e Rússia concordaram em construir juntas uma estação espacial lunar. Através de comunicado oficial, a Administração Espacial Nacional da China declarou que os dois países planejam utilizar sua experiência acumulada em ciências espaciais, pesquisa e desenvolvimento para a construção da instalação, que deve consistir de um complexo de laboratórios para pesquisas e experimentos na órbita ou na própria superfície da Lua. A Roscosmos, agência espacial russa, afirmou que a futura estação estará disponível para uso de todos os países e partes interessadas, e que seu objetivo é reforçar a cooperação científica internacional e promover o uso e a exploração do espaço sideral para fins pacíficos, em benefício de toda a humanidade.

Conforme já comentamos em várias edições da Shūmiàn, a cultura de trabalho 996 — trabalhar das 9 da manhã às 9 da noite, 6 dias por semana — é frequentemente alvo de debates acalorados na China. Desta vez, a discussão sobre implementar regulações mais efetivas no combate à jornada exaustiva chegou às Duas Sessões em Pequim. Como mostra a Inkstone News, porém, alguns duvidam de que o país possa acabar com o 996 tão cedo. Geoffrey Crothall, do China Labour Bulletin, por exemplo, acredita que, além de regulações, é preciso a ação de sindicatos para garantir que trabalhadores recebam compensações adequadas por rotinas de trabalho aceitáveis. Já Li Chaoyue, uma programadora acostumada a trabalhar 12 horas por dia em uma empresa de tecnologia na capital chinesa, lembra que, para muitos, aceitar o 996 é uma questão de necessidade frente aos altos custos dos grandes centros urbanos do país, e não há perspectiva de que isso mude sem uma abordagem multidimensional do problema.

Inclusive, vale ler esse artigo traduzido para o inglês pelo Chinarrative sobre a vida de um trabalhador na Pinduoduo. A partir de entrevistas, o texto de Cai Jiaxin, Yin Shenglin e Li Xiaofang mergulha no estresse do 996.

O crescente uso de inteligência artificial para ler emoções é motivo de polêmica e válidas críticas por aí. A pauta tem ganhado destaque dentro e fora da China, com preocupações sobre privacidade e vieses dos algoritmos utilizados. A tendência de uso de IA para isso não é nova e deve inclusive virar algo global, por isso, é importante ficar de olho nos debates. Organizações de direitos humanos já analisaram alguns resultados sobre o uso da tecnologia na China, em salas de aula, dentre os quais consta o aumento da ansiedade de alunos, por exemplo — ou o crescente uso de uma “performance” para as câmeras. Empresas também antecipam que o uso poderá prevenir violência ou suicídios dentro de prisões, centros de detenção e asilos.

A China acaba de lançar seu Certificado Internacional de Vacinação para viagens. A ideia não é nova no mundo, mas é a primeira destinada exclusivamente à Covid-19. O documento possui uma versão física e uma versão digital, via um mini programa embutido no WeChat. Além de mostrar se a pessoa já tomou alguma vacina, também disponibiliza resultados de testes para detectar o vírus. Até o momento, não há notícias de adesão de outros países ao certificado chinês, apesar de o embaixador de Israel para a China ter mostrado interesse. Por ora, não há um certificado internacional de vacinação padronizado para a Covid-19; Espanha, Grécia, Estados Unidos, Dinamarca, Cingapura e a própria indústria de aviação devem desenvolver seus próprios certificados em 2021. Ainda há uma série de preocupações quanto a questões éticas, práticas e de privacidade de um certificado como esse. O colunista d’O Globo, Marcelo Ninio, explica em detalhes o funcionamento “passaporte da vacina” lançado por Pequim.

A China deve vacinar cerca de 560 milhões de pessoas até junho deste ano.

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.


Música: vai um rock aí? Aumente o volume e curta o som de Overtone!

Marco histórico: o aeroporto Hongqiao, em Shanghai, completa 100 anos em 2021. De pista empoeirada no início do século passado a centro de transporte moderno e abrangente nos dias de hoje, a instalação é um símbolo do desenvolvimento urbano chinês.

Altas expectativas: apesar do burburinho, o filme 76 Days (sobre o início da pandemia em Wuhan) não foi indicado ao Oscar, mas vale ler essa entrevista reveladora com Hao Wu, diretor chinês do longa.

Academia (a de Hollywood): falando em Oscars, Chloé Zhao recebeu várias indicações por Nomadland. Mas após as controvérsias sobre a cidadania dela e discussões nacionalistas na internet chinesa, o filme talvez não estreie na República Popular. As críticas à Zhao podem ser um problema para a Disney, que vai distribuir o novo filme dela: Eternals, baseado em quadrinhos da Marvel.

Literatura: a ficção científica está bombando na China e ganhando destaque fora do país também. Que tal conferir esta lista de mulheres chinesas que arrasam no gênero? Se embalou na vibe sci-fi, então aproveite o perfil escrito na Wired sobre o autor Chen Qiufan.

Feminismo: falamos da autora Ding Ling no nosso Instagram, mas se você quiser ler um pouco mais sobre as críticas dela ao patriarcado na China, vale a matéria do SupChina.

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