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Foto de Mohammad Rahmani disponível no Unsplash

Edição 167 – Talibã toma Cabul e China acende alerta sobre relações

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

O que está ruim sempre pode piorar. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) já apontava o aumento da frequência de eventos climáticos extremos no mundo. Mas um novo estudo da Administração Meteorológica da China (CMA, em inglês) revela que o país é significativamente afetado pelas mudanças climáticas, vide as enchentes fora do comum que ocorreram neste ano em Henan e o contínuo derretimento do permafrost do planalto de Qinghai-Tibete. Ainda segundo o estudo da CMA, o aumento da temperatura foi maior na China do que a média global e 24 das 28 cidades chinesas analisadas registraram, nos últimos 20 anos, altas temperaturas mais cedo do que em períodos anteriores. A vulnerabilidade ambiental da China vai exigir infraestrutura adequada para amortecer os impactos das mudanças climáticas (como falamos aqui, sobre as cidades esponjas) e deve acelerar os esforços da agenda ambiental do país, cuja matriz energética ainda depende fortemente do carvão.

Capital da Robótica. A cidade de Dongguan é um novo point para os entusiastas da robótica, setor que cresce vertiginosamente na China. Localizada em Guangdong, no sul do país, é uma cidade industrial — com fábricas da Coca-Cola e Samsung, por exemplo. Nos últimos anos, Dongguan tem investido em atrair as empresas e os startupeiros da área de robótica, tornando-se uma das regiões pioneiras do país na busca pela automação (com maquinário estrangeiro e, agora, chinês). O tema é explorado nesta matéria de Zeyi Yang para o Protocol China. O país asiático é hoje o maior mercado de venda anual de robôs no mundo.

Como os governos regionais se relacionam com Pequim? Um levantamento feito pelo Macropolo se debruça sobre o tema ao analisar dados desde o 14.º Congresso do Partido, em 1992, até o mais recente, em 2017. São levadas em conta gestões de três presidentes: Jiang Zemin (1992–2002), Hu Jintao (2002–2012) e Xi Jinping (2012–atual). Na gestão de Hu, o crescimento do poder local acompanhou sua evolução econômica. Já sob Xi, o poder do presidente se estendeu para além de Pequim: as províncias por onde ele passou antes de assumir o atual cargo — Hebei, Shanghai, Zhejiang e Shaanxi — ganharam importância desde 2012, independentemente de seu desempenho econômico. Os autores mostram ainda que nem sempre ter poder financeiro significa ascensão política na China sob o comando de Xi. Um exemplo citado é Guizhou, uma das províncias mais pobres, mas que ganhou mais poder político dentro do Partido, a partir do índice elaborado pela Macropolo. Como hipótese principal, o texto indica que o que firma o poder das localidades são as coligações políticas de seus mandatários. Como conclusão, eles dizem que “Províncias poderosas, em outras palavras, caminham em direção à formação de líderes poderosos”.

O último apaga a luz. Escrevemos na última edição que Hong Kong quer ter mais controle sobre questões migratórias. O Departamento de Censo e Estatísticas acaba de anunciar que a população da cidade teve uma queda de 1,2% entre julho de 2020 e junho de 2021, como relatou o South China Morning Post. A mudança é atribuída à aprovação da nova Lei de Segurança Nacional e os esquemas especiais de imigração para honcongueses criados por países como Reino Unido e Canadá. O número total de emigrantes chega a 89.200, um recorde nos últimos 60 anos, de acordo com a Bloomberg. O governo local relativizou a relevância dos números ao ressaltar também a queda de imigrantes (por causa da Covid-19). Já o Asia Nikkei destacou dados oficiais apontando um crescimento na retirada de dinheiro associada à saída permanente do território.

Por falar em despedidas, os sindicatos profissionais de Hong Kong se veem pressionados pelo governo central chinês. Na última semana, o maior sindicato de professores do território decidiu encerrar suas atividades. A mídia aliada ao governo apoiou a decisão, como Global Times e People’s Daily, que sugeriram que sejam feitas  investigações retroativas contra o grupo. E isso não é por falta de alvos, já que a mira agora está tanto nas organizações de advogados, quanto no sindicato dos jornalistas. No clima de saída, o Civil Human Rights Front, grupo que unia diferentes organizações sociais contrárias a Pequim anunciou seu fim e recebeu da polícia local um aviso de que eles ainda podem ser processados retroativamente.

Talibã assume o Afeganistão. Como fica a China? Desde maio falamos (aqui) sobre como a retirada das tropas dos EUA do território afegão afeta e interessa a China. Mas agora, com a tomada da capital, Cabul, o assunto volta ao debate. Este texto do South China Morning Post vai direto ao ponto: Pequim teme que o clima de instabilidade na região afete a região de Xinjiang, que além da fronteira, possui vínculos sociais e culturais com grupos da Ásia Central, e tornou-se bastante sensível para os chineses. A porta-voz do Ministério de Relações Exteriores Hua Chunying disse nesta segunda (16) que a China “respeita as vontades e escolhas do povo afegão”, desejando uma “transição serena, capaz de conter todo tipo de terrorismo e atividades criminosas”. A declaração se dá menos de um mês após reunião do chanceler chinês, Wang Yi, com representantes do talibã em território chinês. O futuro das relações entre os dois países é bastante incerto, tanto em aspectos políticos, quanto econômicos. Analistas chineses discutem sobre uma atuação na reconstrução do país após a guerra, por exemplo. Se quiser arriscar no mandarim (ou no Google Tradutor), vale ler o relato e as perspectivas de um empresário chinês que atua no Afeganistão há 20 anos. Neste fio, e também neste podcast, o analista Andrew Small faz análises detalhadas sobre as relações entre os dois países.

Também nesta segunda, o Diário do Povo, jornal oficial do PCCh, não escondeu o tom de crítica aos Estados Unidos ao também comparar a retirada das tropas com o que aconteceu em Saigon, no Vietnã, em 1975: “O momento Saigon se repete no Afeganistão”. Enquanto as duas maiores economias do mundo discutem responsabilidades e expectativas, a população afegã já sofre as consequências da reviravolta, como mostra este texto da Bloomberg sobre o impacto na vida das mulheres. Mesmo que não seja sobre China, resolvemos indicar este fio sobre o que pode ser feito — ou evitado — para ajudar o povo afegão.

Quase cinco meses depois de ter concluído o julgamento do canadense Michael Spavor, uma corte chinesa publicou a sentença que será aplicada ao empresário acusado de espionagem: 11 anos e deportação, ainda sem data marcada. Nós falamos sobre o caso “dos Michaels” aqui. A detenção de Spavor se deu em 2018 junto de outro canadense, o ex-diplomata Michael Kovrig. Embora o governo chinês negue qualquer relação, internacionalmente a prisão deles é vista como uma retaliação à custódia de Meng Wanzhou, presidente financeira da Huawei em Vancouver, no mesmo ano. A sentença de Spavor sai num momento em que uma eventual deportação de Meng para os Estados Unidos deve ser decidida, como mostra a BBC. O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, criticou a decisão do tribunal chinês e Pequim respondeu chamando os argumentos do mandatário de “completamente não razoáveis, absurdos e arrogantes”. Também na semana passada, a Justiça chinesa condenou outro canadense à pena de morte por tráfico de drogas.

Após a Lituânia autorizar “escritório taiwanês”, China convoca embaixador. A autorização para que fosse criado um escritório de representação sob o nome de “Taiwan” em Vilnius levou Pequim a convocar seu representante no país europeu, gesto considerado como uma sinalização forte no meio diplomático. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores diz que a decisão lituana viola a linguagem das relações diplomáticas e ameaça a soberania chinesa: diante do entendimento de “uma China”, os países costumam se referir apenas a Taipei, devido ao fato de o governo central chinês reivindicar que o território seja vinculado à China continental.

Vai um ceviche a la chinesa aí? Novo presidente do Peru prioriza as relações com a China já nos primeiros dias de governo e acalma mineradoras chinesas. Após disputa apertada (como comentamos aqui), Pedro Castillo sinalizou alinhamento com Pequim e mostrou que, apesar das promessas de campanha de maior controle sobre os ganhos das indústrias mineradoras transnacionais, pouco deve mudar para as companhias chinesas presentes no país. Vale lembrar que as maiores mineradoras chinesas que lá atuam assinaram acordos de estabilidade tributária até 2028. Além da mineração, Castillo deve fortalecer o acordo de livre comércio entre os dois países, como noticiado pela Gestion.

De olho no lítio. A corrida para a economia de baixo carbono pode jogar o lítio no centro de mais uma disputa entre EUA e China. O mineral estratégico é essencial para a produção de baterias de carros elétricos, além de fazer parte da composição de painéis solares, mas não está disponível a torto e a direito. Os EUA, por exemplo, são responsáveis por menos de 2% da produção mundial. A China é a terceira maior produtora, mas seu mineral não é tão puro e possui altos custos, fato que justifica a demanda por importá-lo — uma dependência nada atrativa, como deixa claro esta matéria do Global Times. Mas com crescentes atritos diplomáticos e dificuldades logísticas impostas pela pandemia, há um consenso, como traz Michael Schuman em uma ótima reportagem para o The Wire China, por ter lítio sendo extraído de casa, sem depender de cadeias de abastecimento no exterior. Mas é possível? Pouco provável. Por isso a necessidade de exercer influência ou controlar fontes de lítio estrangeiras, com acordos milionários em jazidas na América Latina e África. O jogo de xadrez pelo controle do lítio já começou.

Falando em mineração para baterias de carros elétricos, outro lugar para prestar atenção é a República Democrática do Congo — mas, no caso, em busca de cobalto, cobre e outros minerais estratégicos. Uma matéria do South China Morning Post aborda a questão, relatando o investimento bilionário da CMOC (abreviação de China Molybdenum Co.) na mina de Tenke Fungurume, bem como outros movimentos de empresas chinesas para mineração no continente africano. Aliás, a CMOC é a segunda maior produtora de nióbio (aquele nióbio) no mundo, atuando bastante no Brasil.

Chamando Dr. Wilson Edwards, por favor, responda. Parece história digna do Sensacionalista, mas a existência ou não de um biólogo suíço foi uma das principais pautas da sinosfera na última semana. Tudo começou com a replicação na mídia estatal chinesa e em redes sociais de uma postagem no Facebook do biólogo Wilson Edwards, em que ele falava das origens do novo coronavírus e da pressão sofrida pela equipe da OMS pelos Estados Unidos. Só que ninguém achou o tal do Edwards na vida real ou em registros oficiais. A Embaixada da Suíça em Pequim até tuitou (possivelmente um pouco de brincadeira) procurando pelo homem e pedindo a retirada do ar das postagens pela mídia chinesa. Até o fechamento desta edição, o Dr. Wilson Edwards não voltou a se manifestar.

Sobrou para o karaokê. Quem já visitou alguma cidade chinesa sabe o quanto os karaokês são populares, com placas de “KTVs” por todos os lados. Mas agora os frequentadores não poderão cantar o que bem quiserem. O Ministério do Turismo anunciou na semana passada que letras com “conteúdo nocivo” devem ser retiradas das listas. De acordo com a Xinhua, essa classificação abrange questões que ameacem a integridade e soberania nacionais, que violem as políticas religiosas chinesas e espalhem cultos e superstições. Além disso, devem ser vetadas obscenidades, apostas, violência, crimes ligados a drogas e apologia a crimes de forma geral. As regulações devem entrar em vigor a partir de 1º de outubro.

A indústria como ela é. Ninguém imagina que a vida de quem trabalha em indústria é moleza. Este texto da revista britânica The Economist traz um relato interessante sobre a forma como trabalhadores chineses se expressam por meio de formas de se vestir, de vídeos e da arte no geral. Uma das histórias é a de Luo, adepto da cultura shamate, sobre a qual já falamos aqui, que foi até tema de um documentário. Há também a poesia feita por Xu Lizhi, antes de cometer suicídio, com o forte título de “Eu engoli uma lua de ferro”.

A internet rural dos idosos chineses. Pesquisadores da Universidade Tsinghua revelaram que quase 1 em cada 3 idosos na China se considera uma pessoa conectada. E o que fazem esses milhões de usuários? Eles conversam com amigos em regiões distantes, formam grupos para conhecer gente nova, compartilham descontos e marcam de levar os netos para passear. Assim, não surpreende que eles relatem que o uso de aplicativos faz bem para sua saúde mental — e, segundo a pesquisa, eles são mesmo pessoas mais felizes do que quem está offline. Isso porque formam laços profundos, conhecem detalhadamente a vida uns dos outros e buscam se encontrar pessoalmente, o que, segundo a responsável pela pesquisa Jiang Qiaolei, replica comportamentos típicos da vida em sociedades rurais. Vale ler mais detalhes no artigo publicado na Sixth Tone e pensar sobre os seus próprios padrões de uso da internet — eles te fazem mais feliz?

Tem espaço para religião crescer na China? Em texto para o The Conversation, Mario Poceski, professor de religiões chinesas na Universidade da Flórida, fala sobre o retorno da religiosidade à sociedade chinesa após a repressão da Revolução Cultural. Embora o Partido Comunista seja oficialmente ateísta — seus membros são proibidos de professar qualquer fé —, ele tem dado mais espaço para tais práticas no país nos últimos anos. Budismo, taoísmo, islamismo, catolicismo e protestantismo são cinco as religiões reconhecidas pelo Estado chinês e, fora o Islã, todas têm passado por crescimento no clero e no número de fiéis, sem falar no aumento de práticas não denominais. Poceski chama atenção para o fato de que essa relativa liberdade é garantida desde que as organizações religiosas não representem ameaças à soberania e integridade territorial — e a linha é bastante tênue: desde 2015 a província de Zhejiang tem controlado de perto igrejas cristãs, por exemplo. Nesse contexto, a auto-censura parece contribuir bastante para a maior tolerância do PCCh. Vale relembrar que o jornalista Ian Johnson escreveu em seu livro em 2017, sobre a renovada espiritualidade e religião após a morte de Mao, e a dificuldade de alguns grupos em praticar a sua fé. Ele também falou sobre isso neste episódio do podcast Sinica.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Falando em retorno das religiões, não deixe de conferir no National Review a galeria de fotos do vilarejo de Youtong, onde metade dos habitantes professa o catolicismo, mostrando fiéis, padres, rituais e arquitetura do local.

A cidade fatal: uma análise em duas partes na revista Zolima documenta como as crises sanitárias influenciaram o desenvolvimento urbano em HK. Para pensar nossas cidades pós Covid-19.

Kenny G curtiu isso: a vídeo-reportagem da Goldthread conta a história do pequeno vilarejo de 2 mil habitantes que produz 80% dos saxofones da China.

Os muros falam: para alguns, é um sinal de vandalismo. Para outros, pura libertação. Veja os grafites em mandarim que transmitem do amor ao niilismo da juventude chinesa.

Música: vai um jazz alternativo aí? Matt Hsu’s Obscure Orchestra, Zy The Way 中庸, 老莫 e Cait Lin fizeram uma parceria super gostosa para você aumentar o volume ficar de boa.

Migração de bitcoin: já contamos como o governo chinês caiu em cima da mineração de criptomoedas há uns meses. Bom, parece que uma galera decidiu migrar para o Texas para poder continuar as suas atividades.

Artigo acadêmico: a comunidade chinesa alt-right no Weibo é o tema da pesquisa de Tian Yang e Kecheng Fang, recém publicada.

Podcast: para quem quer ficar por dentro das relações sino-cubanas, vale este episódio do China in the Americas, com Bradley J. Murg e apresentado por Rasheed Griffith. Fica o convite também para o evento da LACHINET sobre relações da América Latina e Caribe, no dia 26.

“Roubar uma pausa para o descanso no meio do trabalho”

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