Fotografia em cores de uma sequência de bandeiras da União Europeia em frente a um prédio.

Bandeiras da União Europeia por Guillaume Perigóis, via Unsplash.

Edição 252 – Qin Gang vai à Europa enquanto tensões crescem com Canadá

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Empresas estrangeiras estão sendo visadas por autoridades chinesas após a expansão da legislação antiespionagem. A empresa de consultoria Capvision Partners está sob investigação acerca de um suposto vazamento de segredos da indústria militar chinesa. O atuação da empresa é estruturada em torno de criar uma rede e conectar especialistas/consultores com clientes para conversas. Esse modelo de negócios parece ser o alvo do novo crackdown por parte das autoridades chinesas, incluindo batidas policias, de modo a investigar vazamentos e proteger a segurança nacional. A notícia tem deixado a tensão no ar para diversas consultorias estrangeiras que atuam no país, especialmente as dos EUA e do Japão. O pesquisador Dexter Roberts ressaltou que isso pode se tornar um risco para empresas estrangeiras vão sofrer em realizar diligência prévia padrão na hora de fazer negócios com empresas chinesas. 

É preciso estar atento e forte. A liberdade de imprensa em Hong Kong subiu alguns níveis no ranking 2023 da organização Repórteres Sem Fronteiras (140ª posição) em relação ao ano anterior (148ª). Segundo a organização, isso se deu após um reajuste no índice — de fato, as condições locais se deterioraram ou se mantiveram em três de cinco aspectos avaliados. Um ponto especialmente sensível é o de segurança jurídica para trabalhar — um cenário que tem mudado muito rapidamente. Apenas na última semana, como conta o jornalista Tom Grundy neste fio: um site dedicado à pauta do transporte encerrou operações após receber críticas da mídia estatal, que também se manifestou contra o ranking da RSF e uma charge política; representantes do governo repudiaram reportagens de The New York Times e The Wall Street Journal; o ex-editor da Sixth Tone Bibek Bhandari denunciou o cerceamento de jornalistas da publicação; e houve ainda a proposição de uma emenda que pode punir a profanação online da bandeira da cidade com pena de até três anos de prisão.

O Pinduoduo agora é global? A PDD Holdings, uma das gigantes de tecnologia chinesas, trocou a localização de sua sede de Shanghai para Dublin, capital da Irlanda. A empresa, conhecida por possuir o Pinduoduo e o aplicativo de e-commerce Temu, notificou a mudança em documentos enviados a autoridades financeiras dos EUA. Além de impulsionar sua internacionalização, a medida também pode ser vista como uma maneira de se proteger da pressão de parlamentares estadunidenses que vêm criticando supostos laços da PDD com violações de direitos humanos. Apesar dessa circunstância, vale notar também que a Irlanda é um destino de muitas empresas de tecnologia que buscam pagar menos impostos, como a Apple e a Meta. O Pinduoduo, no entanto, deve continuar sediado na China, segundo o South China Morning Post.

Mais uma vitória para o meio ambiente. O Ministério da Ecologia e do Meio Ambiente da China anunciou na terça-feira (9) que implementará uma versão atualizada das normas de emissão para veículos em todo o país a partir do dia 1º de julho. A nova regulação proibirá a produção, importação e venda de veículos que não sigam os novos requisitos, mais rígidos, acerca da emissão de gases poluentes, como o monóxido de carbono, e exigirá a realização de testes em circunstâncias reais para as medições. Sob pressão para se livrar do estoque estimado em 2 milhões de veículos que não cumprem as novas regras, montadoras e vendedores estão agora oferecendo belos descontos a potenciais clientes. No médio prazo, no entanto, espera-se que a medida impulsione o desenvolvimento da indústria de veículos movidos a energias limpas.

China e Canadá se estranham. A situação entre os dois países já vem azedando há um tempo, mas na terça-feira (8), as autoridades canadenses decidiram expulsar do país o diplomata Zhao Wei, declarado persona non grata, sob a acusação de interferência estrangeira. Como retaliação, Pequim expulsou uma diplomata canadense do consulado em Shanghai. O desenrolar veio a partir de uma matéria publicada dia 01 no The Globe and Mail que afirmava, citando um relatório de inteligência de 2021, terem havido tentativas chinesas de intimidar a família de um parlamentar canadense. A vítima em questão seria o conservador Michael Chong, que possui família em Hong Kong, que criticou o tratamento de Pequim a uigures e, em 2021, foi um dos legisladores por trás da decisão do parlamento canadense de considerar a situação em Xinjiang como genocídio. Na quinta-feira (4), a ministra de relações exteriores Melanie Joly havia convocado o embaixador chinês Cong Peiwu para uma conversa sobre o envolvimento de Zhao Wei no caso. Cong criticou o posicionamento do governo do Canadá e negou as acusações, conta a Reuters. Os dois países enfrentam tensões desde 2018, quando da prisão dos canadenses Michael Kovrig e Michael Spavor (em Pequim) e da chinesa Meng Wanzhou (em Vancouver). Os três foram soltos em 2021.

Empresas chinesas na mira da União Europeia. Segundo matéria do Financial Times, Bruxelas planeja sancionar companhias da China que estariam ajudando a Rússia a contornar sanções do bloco através da exportação de materiais que podem ser utilizados para a fabricação de material bélico. Ao todo são oito empresas da China continental e de Hong Kong que estariam auxiliando Moscou indiretamente em seu esforço de guerra, algumas das quais já estão sob sanção estadunidense, como a 3HC Semiconductors. Vale ressaltar que nessa a China não está sozinha: empresas do Oriente Médio também estão sendo visadas.

Pode ser coincidência, mas o momento é interessante para que o ministro das relações exteriores chinês Qin Gang tenha ido à Europa. Passando pela França, Alemanha e Noruega, Qin está em viagem desde segunda (8) sob o argumento de buscar a paz na Ucrânia e melhorar as relações com a União Europeia. Na reunião com a sua contraparte alemã, Qin teria avisado que haveria reações fortes do lado chinês nesse caso das sanções, conta o Politico. Tem quem acuse o governo chinês de estar tentando uma estratégia de “dividir para conquistar” – numa referência aos alinhamentos geopolíticos críticos da China por parte de certos países do bloco. Há pouco mais de um mês, Pequim recebeu uma série de lideranças europeias na capital. O vice-presidente Han Zheng também está na Europa: foi para a coroação de Charles III (não sem polêmica, já que Han foi responsável pela resposta do governo aos protestos de 2019 em Hong Kong). Em seguida, o vice deu um pulo em Portugal para se encontrar com a liderança do país. 

Para ler tomando um café: o think tank MERICS e o Rhodium Group publicaram um relatório sobre os investimentos chineses na União Europeia em 2022, mostrando uma tendência de queda geral e de aumento do foco em carros elétricos

Trabalhadores da China, espalhai-vos! Como foi o feriadão do dia do trabalho na China? Atingindo as expectativas, o turismo doméstico recuperou-se aos níveis pré-pandêmicos, com 274 milhões de viagens realizadas ao longo dos primeiros 5 dias da semana de 29 de abril a 5 de maio. Isso representa um aumento de 19% em relação a 2019. Esses turistas não economizaram, gerando 148 bilhões de renmimbi (21 bilhões de dólares) em receitas, pouco mais do que há 4 anos. Do ponto de vista internacional, a recuperação segue lenta, com 6 milhões de pessoas deixando o país — apenas metade dos números pré-pandêmicos. Em Hong Kong, 625.538 visitantes chegaram da China continental nos cinco primeiros dias do feriado, atingindo as expectativas, mas ainda abaixo dos mais de 997 mil de 2019. Já Macau recebeu 493 mil visitantes, com média de ocupação de hotéis em 85%. Enquanto isso, a greve dos entregadores da Meituan conquistou o retorno de alguns subsídios previamente cancelados pela empresa — no entanto, algumas diferenciações entre trabalhadores são vistas como estratégia para desmobilizar a categoria, de modo que a tensão não está completamente resolvida.

Não é fácil ser uma minoria LGBTQIA+, tanto na China continental quanto em Hong Kong. Uma matéria da Sixth Tone conta sobre a dificuldade de acesso por parte de pessoas trans ao sistema de saúde e os impactos na saúde mental desse grupo. O relato parte da história de um dos principais médicos especialistas em atendimento a indivíduos transgênero na China e que faz parte de um grupo de profissionais sofrendo uma série de ataques físicos e virtuais por parte principalmente de familiares dos pacientes. Em 2022, a legislação chinesa tentou aliviar alguns dos desafios para a realização de cirurgia de afirmação de gênero, mas ainda há muito caminho pela frente. Ao mesmo tempo, em Hong Kong, uma pesquisa aponta que quase 10% do financiamento do governo para promoção de igualdade entre minorias sexuais está sendo usado em projetos de “conversão” de orientação sexual.

Briga de streaming. A ascensão das plataformas chinesas de filmes e seriados é o tema desta matéria da Rest of World, que conta da disputa pela atenção do público. Tanto a iQiyi (do Baidu) quanto a WeTV (da Tencent) viram um crescimento significativo no Sudeste Asiático nos últimos anos, ainda que estejam perdendo para a Netflix e a Disney+ em assinantes. Para enfrentar a competição contra os estadunidenses, os streamings chineses contam com assinaturas de custo baixo, por exemplo. Outra alternativa tem sido adquirir competidores da região e investir pesado em produções locais — a WeTV lançou 40 no ano passado. Uma das vantagens apontadas em relação aos serviços estrangeiros é a facilidade de adaptação à legislação e controle, como barrar casais homoafetivos da telinha.

reforma electoral en Hong Kong

Telinha: uma nova série de crime está na boca do povo e no topo do Douban. É o The Long Season, que se passa em uma cidade pequena no norte da China e conta sobre um homicídio ocorrido há 20 anos. A trilha sonora do seriado também é alvo de muitos elogios e é uma boa oportunidade para ouvir coisa nova.

Teorias da conspiração: teriam os anúncios de um elixir de vitalidade ajudado os japoneses a invadir a China no começo do século XX? Você precisa conhecer essa história contada pelo Little Museum Of Foreign Brand Advertising In The R.O.C.

Met Gala: o evento de angariação de fundos do Museu Metropolitano de Arte de NY é famoso pelos looks. Em 2015, a estilista chinesa Guo Pei foi responsável por aquele vestido amarelo da Rihanna. Em 2023, Chen Peng vestiu Cardi B. Celebridades chinesas, como a modelo Liu Wen e o cantor Cai Xukun, foram alguns dos que chamaram atenção nas redes sociais chinesas.

Pesquisa: a pesquisadora Linda Calabrese disponibilizou na página do think tank ODI um compilado de leituras sobre o papel da China na política global de desenvolvimento. Vale um bulezinho de chá.

A hora da estrela: a escritora Eileen Chang (cuja obra já apareceu no nosso Clube do Livro) passa por um momento de fama e apelo para uma nova geração de mulheres chineses, que se interessam pela sua obra para lidar com as pressões patriarcais e escapar de discussões políticas (nem todo mundo concorda).

 

Este vídeo da Radii traz uma breve história do turismo internacional de chineses, o preconceito que esses viajantes enfrentam e mudanças na indústria.

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