Fotografia em cores de campos de arroz em Yunan, na China.

Foto de Vince Russell via Unsplash

Edição 194 – As Duas Sessões e a segurança alimentar como foco

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

E vamos de reunião importante. As Duas Sessões começaram na sexta (4) e já têm até galeria de fotos. O que mais chamou atenção até agora foi o discurso de Xi Jinping, que destacou a importância da segurança alimentar no país e afirmou que a China não pode confiar o tema ao mercado global. De acordo com o compilado feito pelo Pekingnology, o presidente chinês frisou a importância do desenvolvimento rural, assim como da tecnologia para produção alimentar e do campo. Ainda em sua fala, Xi abordou as conquistas do país nos últimos anos, lembrando o centenário do partido e afirmando que a China demonstra superioridade na governança — especialmente no que se refere ao controle da Covid-19 e na redução da pobreza — em comparação ao “caos do Ocidente”. Na linha de “unidos para um futuro compartilhado” (slogan usado por Xi há alguns anos e que foi adotado na Olimpíada de Inverno de Pequim), Xi Jinping também destacou a “unidade étnica” na China – assunto tenso em um momento em que o país é observado com cuidado pela situação dos uigures em Xinjiang e pelas restrições de ensino de línguas de minorias, caso da Mongólia Interior.

Outra notícia de destaque é o relatório anual do premiê Li Keqiang sobre o cenário econômico da China. Entre os destaques, o documento coloca como meta um crescimento de 5,5% da economia chinesa em 2022 e reforça a importância da estabilidade econômica. Nesta análise do The New York Times é lembrado que o texto de Li não leva em conta o conflito entre Rússia e Ucrânia, que já tem gerado impacto econômico no mundo. Segundo previsão de William Yang para a DW, de fato a economia deve dominar as discussões do Congresso Nacional do Povo mais do que o conflito no leste europeu.

A ajuda vem de Wuhan. Hong Kong é, no momento, onde mais se morre de Covid-19 entre os “países e territórios de economias avançadas” (ressaltamos aqui que a contabilidade de casos de Covid-19 da China continental não inclui territorialidades como Hong Kong), segundo dados apurados pela agência Bloomberg. No domingo (6), o governo já totalizava 1.794 mortes, oito vezes o total de um mês atrás. Contrariando as avaliações de especialistas locais e apelos de profissionais da saúde, devem seguir adiante o esquema de “zero expandido” e os planos de testar a cidade inteira neste mês. À frente dessas decisões estão Liang Wannian e Wang Hesheng, responsáveis pela estratégia do governo em Wuhan no início da pandemia. Diante dessa perspectiva, 70 mil pessoas deixaram Hong Kong em fevereiro. Quem fica, se prepara para a possibilidade de isolamento em casa esvaziando os supermercados e torcendo para não ser levado para uma das instalações montadas com a ajuda de Pequim. 

Inclusive, Pequim se encontra com seus próprios desafios locais. A China continental chegou a um recorde que não era visto desde 2020: foram 800 novos casos no final de semana. Foram 214 casos na segunda-feira (7), com a província de Guangdong, que faz divisa com Hong Kong, com o maior número. A maioria é da variante ômicron e Li Keqiang afirmou para governos locais evitarem lockdowns e focarem em testagem e isolamento dos casos, conta o New York Times.

Seu pedido está indo até você. Novas regulações emitidas pelo governo para plataformas do enorme mercado de entrega de comida chinês devem ajudar a vida dos restaurantes. As gigantes de entrega Meituan e Ele.me deverão reduzir as comissões que cobram dos estabelecimentos, conta o SCMP. A notícia veio no final de fevereiro, a partir da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, em um contexto de alívio econômico na pandemia, e já resultou em queda do valor de mercado das empresas. Ano passado, a Meituan havia sido multada em 3,4 bilhões de yuans por ações monopolistas.

Resta ver como isso pode afetar os entregadores. No início de 2021, alguns governos locais na China estavam estudando aumentar os direitos desses trabalhadores precarizados, em meio à prisão de uma liderança da causa. Alguns meses depois, a decisão da Suprema Corte sobre o fim da jornada 996 incluía entregadores e motoristas de aplicativos. Vale essa re-recomendação que já demos: a matéria (em mandarim) sobre a relação injusta entre entregadores e algoritmos dos aplicativos dos quais dependem. Aqui a tradução não oficial, esforço de Jeffrey Ding, do ChinaAI, e colaboradores.

O impacto do conflito na Ucrânia não é ignorado por Pequim. As questões vão além da diplomacia e da postura que o governo Xi irá tomar frente à invasão (ou se ele sabia o que ia acontecer); alguns fatos recentes mostram que se abster não te impede de ser afetado. A China Railway Express, que leva uma série de trens de carga (principalmente eletrônica) da China para a Europa, por exemplo, está parada em um dos principais trechos da Iniciativa Cinturão e Rota, como conta o SCMP.

Outra questão é como a guerra afeta os cidadãos chineses. O governo evacuou para países vizinhos os mais de 6.000 nacionais que se inscreveram na embaixada para receber apoio na saída. Na semana passada (1), um cidadão chinês levou um tiro ao tentar sair do país, mas está fora de perigo. Algumas pessoas postaram nas redes sociais que a reação de netizens chineses à situação na Ucrânia estava causando sentimentos “anti-China”. Isso vem em parte após postagens misóginas sobre mulheres ucranianas viralizarem nas redes sociais chinesas. As postagens foram apagadas pelo Weibo. Para o Protocol China, Shen Lu conta como o combate à desinformação sobre a guerra está a todo o vapor também atrás da Great Firewall.

Tem também o aspecto comercial. Com o anúncio de sanções, muitos analistas estão apontando que a China pode ser um canal para aliviar a pressão sobre Moscou, enquanto tem quem duvide. No começo de fevereiro (antes da invasão), a China já tinha se comprometido a remover algumas restrições ao trigo russo. Bom para Pequim: o yuan se valorizou  (e as sanções podem levar mais russos a usarem a moeda) e a saída de Mastercard e Visa da Rússia vai abrir espaço para a bandeira chinesa de cartões UnionPay. Ao mesmo tempo, algumas empresas chinesas, especialmente da área de tecnologia, podem se ver mal posicionadas em meio ao imbróglio. Tem quem duvide de que a China vai arriscar violar sanções abertamente. Em todo caso, como mostra o SCMP, o fato do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura ter congelado e colocado sob revisão os financiamentos para a Rússia e Belarus pode mostrar um posicionamento mais cauteloso de Pequim (que tem 27% dos votos no banco). O Banco dos BRICS (ou New Development Bank) também copiou o movimento.

Pão, pão, queijo queijo. O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, fez questão de separar as questões que envolvem o conflito entre Rússia e Ucrânia e a tensão entre a China continental e Taiwan. A fala de Wang foi feita durante uma conferência anual com correspondentes internacionais durante as Duas Sessões. O chanceler falou também sobre o fato de a China estar tentando atuar como mediadora no conflito na Europa e destacou que é preciso calma em vez de colocar mais “lenha na fogueira”.

O peso de carregar o céu. Amanhã é oito de março e não poderíamos deixar de falar sobre o Dia Internacional da Mulher. Assim como no mundo todo, na China este não é exatamente um dia de comemoração. Este texto do Sixth Tone fala sobre como a toada da campanha “anti-sissy”(como já falamos aqui, sobre a crise da masculinidade) tem gerado uma onda de transfobia nas redes. A reportagem traz o caso de Lady Cai, que tinha orgulho de compartilhar por meio de vídeos e lives o fato de ser uma mulher transgênero.

Em outra esfera, a questão de gênero se fez presente esta semana em um tema muito forte na vida das mulheres chinesas: a maternidade e a pressão para que elas se casem e tenham filhos, dada a crise demográfica do país. Ainda que de forma muito embrionária, as dificuldades para criar e bancar um filho na China hoje foram tema de debate nas Duas Sessões, com direito a algumas propostas, como mostra o SCMP.

A comoção gerada pelo caso de tráfico humano envolvendo Xiao Huamei continua repercutindo na China. O primeiro-ministro Li Keqiang anunciou no último sábado (5), durante reunião das Duas Sessões, que o governo irá endurecer a luta contra o sequestro e tráfico de mulheres e crianças. Há bastante margem para melhorias: além da resistência oficial a investigar os casos, a pena máxima para esse crime é de três anos — em comparação, a compra de animais ameaçados de extinção pode dar prisão perpétua. O assunto se tornou pauta em diversos veículos de mídia domésticos e internacionais, mas vale destacar dois textos: esta longa reportagem da Vice sobre as famílias que buscam suas jovens desaparecidas; e este amplo levantamento de dados publicado pela Sixth Tone, que inclui depoimentos de vítimas. Enquanto isso, já há mais um caso similar ao de Xiao Huamei sendo investigado em Shaanxi.

Começou a Paralimpíada de Inverno! A cerimônia de abertura, na sexta-feira (4), foi marcada pela condenação à invasão da Ucrânia (exceto na transmissão chinesa), cuja delegação foi ovacionada ao entrar no estádio, conforme matéria, com fotos, da NPR. Aliás, o conflito dominou os debates do mundo paralímpico na semana passada. Inicialmente, o Comitê Paralímpico Internacional (CPI) permitira a participação de atletas russos e bielorrussos desde que sob bandeira neutra, mas a repercussão foi tão negativa que logo voltaram atrás e os baniram das competições em Pequim. 

Na China, aliás, há muita expectativa em torno de sua delegação, a maior da história, com 96 atletas, apesar de historicamente o país não ter desempenhos marcantes nos jogos paralímpicos de inverno (apenas um ouro), como conta o SupChina. Pois é, parece que disputar em casa faz a diferença: até o momento atletas chineses já conquistaram 25 medalhas, sendo sete de ouro. Ah, e a Ucrânia vem logo atrás no quadro de medalhas, com quatro douradas.

reforma electoral en Hong Kong

Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Entrevista: na semana passada, contamos das Cinco Feministas e achamos essa entrevista com uma das jovens, Li Tingting, de 2016. Fica a recomendação.

Modernismo não é pauta só no Brasil: há 100 anos, Shanghai tornava-se a capital asiática do movimento e agora o SCMP relembra seus diversos impactos culturais com um imperdível guia do modernismo na cidade.

Relatório: vale ler este documento escrito por Rui Zhong sobre o cerco de Pequim às comunidades digitais feministas e LGBTQIA+, um tema que tratamos sempre por aqui.

Tipografia: outro assunto que a gente adora, tipografia foi pauta de discussão nas Duas Sessões. A ideia seria proteger a caligrafia tradicional chinesa das versões digitais “cafonas”.

Anota aí: dia 12 de março às 10h, a nossa gerente de mídias e artigos Aline Tedeschi vai participar de uma live com a Fernanda Magnotta (senior fellow do CEBRI) sobre a s relações entre China e Rússia. Lá no Instagram.

Basta: cansou de viver eventos históricos? Conheça o venezuelano Guillermo López: em 2015, ele migrou da Venezuela para a China, de onde saiu por causa da pandemia; agora, está no meio da guerra na Ucrânia.

Imagem de fundo vermelho, com texto em branco. Caracteres chineses cujo pinyin é 滥竽充数 làn yú chōng shù.
Expressão que significa literalmente “tocar um instrumento só para preencher espaço na orquestra”, mas que quer dizer quando alguém faz algo fingindo ser bom, mas na verdade está apenas cumprindo uma tabela ou ocupando um espaço que está vago.

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