Fotografia em cores de Carrie Lam e John Lee dando entrevista. À frente deles, diversos microfones.

VOA, Domínio Público, via Wikimedia Commons

Edição 203 – Pequim garante aliado no comando de Hong Kong

Vacinas chinesas e gigantes de tecnologia na China

Lee Ka-chiu, eu escolho você! Neste domingo (8), John Lee Ka-chiu foi oficializado como o próximo CEO de Hong Kong. Como o ex-secretário de segurança era o único aspirante à vaga, os 1.461 eleitores selecionados para votar (0,02% da população) puderam escolher entre demonstrar ou não apoio a ele. Assim, o candidato aprovado por Pequim recebeu 1.416 votos de apoio, com oito oposições, quatro cédulas em branco e 33 abstenções. Em um artigo no Global Times, a “democracia com características honconguenses” foi elogiada pelo governo central, que também afirmou que a alta taxa de aprovação do candidato pelo comitê de eleitores (99,16%) atesta a legitimidade do líder diante da população geral – embora, ao menos no cargo anterior, ele não fosse um sucesso. John Lee deve assumir o cargo de Carrie Lam no dia 1º de julho, o 25º aniversário da transferência de soberania de Hong Kong dos britânicos para a China continental.

A tolerância vai seguir zero. Uma declaração feita pelo presidente Xi Jinping e publicada pela imprensa estatal na última quinta-feira (5) deixou claro que Pequim não pretende mudar sua política em relação à Covid-19. A taxa de transmissão tem melhorado, ainda que o número de mortos tenha subido em Shanghai, o que indica continuidade de fechamento. Sob o ponto de vista econômico, analistas que acompanham o país asiático apostam em um cenário de baixo crescimento por lá, conta o Financial Times. Já a Caixin mostra que o governo inundou o setor industrial e de infraestrutura de crédito para evitar indicadores econômicos ruins. Seja lá qual for o cenário da economia chinesa, observadores estrangeiros, segundo o The Wall Street Journal, afirmam que os efeitos da política restritiva em relação à Covid-19 serão sentidos no mundo todo – o Nexo fez um recorte sobre o impacto dessas medidas no Brasil. Uma reportagem do SCMP fala ainda que empresas estrangeiras na China estão sentindo ameaças sem precedentes diante da disputa entre o país asiático e os Estados Unidos. 

O feriado do Dia do Trabalhador já acabou em Pequim, mas as medidas restritivas, não. Apesar de as autoridades terem dito inicialmente que bares, restaurantes e locais de lazer estariam fechados apenas durante os dias de descanso, a situação permanece restritiva. Nesse fim de semana, a agência Reuters publicou uma reportagem que traz um panorama geral da situação de Covid-19 no país, sobretudo em Pequim e Shanghai. Aliás, assim como o lockdown e as medidas restritivas não acabaram, a população mantém as críticas. Desta vez, netizens usaram as redes sociais para contestar o tom de “positividade” dado pela imprensa estatal sobre a situação nas cidades chinesas.

Made in China. Numa tentativa de ampliar a segurança de dados importantes, o governo chinês teria determinado que agências do governo central substituam seus computadores estrangeiros por produtos fabricados nacionalmente. De acordo com a reportagem da Bloomberg replicada pelo jornal O Globo, pelo menos 50 milhões de máquinas devem ser substituídas nos próximos dois anos. O principal alvo, de acordo com o texto, são computadores e softwares dos Estados Unidos, principal adversário comercial chinês. Embora não haja nenhuma confirmação oficial sobre o assunto, o texto da Bloomberg foi suficiente para desvalorizar as ações de empresas de tecnologia estrangeiras, como HP e Dell, e valorizar suas concorrentes chinesas.

Convite para mais um. Será que a Argentina entra nos BRICS? Não sabemos, mas o país foi convidado pelo próprio Xi Jinping para marcar presença no encontro do bloco em 2022, conta a matéria do Multipolarista. Como contamos, os nossos vizinhos recentemente entraram de forma oficial na Iniciativa Cinturão e Rota. As reuniões entre presidentes e chanceleres dos BRICS acontecem no final de maio e em junho (ainda virtualmente). A pauta da Ucrânia deve surgir, como discute esta matéria da BBC, e pode até dar um gás na organização, argumenta Mathias Alencastro.

O leão pegou. Se você ainda não enviou seu Imposto de Renda, essa história é para não te deixar esquecer: a Xiaomi foi acusada pela Índia de evasão fiscal. Em janeiro, o governo indiano exigiu quase 88 milhões de dólares em impostos de importação. Agora, as autoridades indianas responsáveis por investigação de crimes financeiros pediram a apreensão de 725 milhões de dólares das contas locais da empresa chinesa pela violação da legislação. Segundo o órgão governamental, o dinheiro estava sendo falsamente enviado para fora do país como pagamento de royalties. A empresa nega qualquer violação e afirma que trabalhará com as autoridades da Índia para esclarecer a situação. Contudo, a situação se deteriorou na semana passada (4), quando a Xiaomi India acusou as autoridades de ameaçarem e intimidarem seus executivos e suas famílias durante a investigação, que ocorre desde dezembro. O departamento responsável pelo inquérito negou. Uma corte suspendeu a decisão de apreensão e congelamento das contas, segundo a Reuters, mas o processo seguirá e a próxima audiência é dia 12 de maio.

A relação da Índia com as techs do vizinho ganhou destaque em 2020, quando autoridades indianas baniram mais de 100 aplicativos chineses sob acusação de preocupar-se com segurança de dados de cidadãos indianos e o envio das suas informações para a China sem autorização. O banimento coincidiu com os confrontos fronteiriços entre os dois países.

Influencers sem fronteiras. Na semana passada, falamos sobre a mudança no Weibo que acrescenta a geolocalização dos usuários às suas postagens nas redes sociais, seguindo uma exigência do regulador do ciberespaço na China. Voltamos ao tema com a publicação de uma reportagem do Financial Times. O blogueiro Zhong Xiaoyong disse em uma postagem que quem não fosse suficientemente patriótico deveria deixar o país. Ele só esqueceu que sua localização, o Japão, apareceu junto à postagem. “Cancelado”, ele disse que estava no país vizinho por razões médicas.

Quanto vale a liberdade? A notícia de que um homem de sobrenome Ma foi preso em Hangzhou na última terça (3) gerou forte reação nos mercados. Não, não se tratava do bilionário chinês Jack Ma, dono da Alibaba. Mas a coincidência do sobrenome e da cidade natal do empresário e do homem detido fez com que a empresa de Ma perdesse 26 bilhões de dólares em valor. O pânico não foi totalmente sem motivo: ainda que seja o bilionário chinês mais popular na China, Jack Ma não vive seus melhores dias desde que o governo passou a fazer um aperto regulatório nas empresas de big tech, e também diante de algumas falas suas que desagradaram Pequim. O empresário chegou a passar um tempo em 2021 sem aparecer em público, levando a suspeitas sobre seu paradeiro e sobre uma eventual detenção. Mas ele reapareceu no ano passado, espantando os rumores. 

Desafio dos 20 anos. Na última terça-feira (3), saiu o resultado do ranking de liberdade de imprensa feito anualmente pela organização Repórteres Sem Fronteiras: Hong Kong ocupa a posição 148 e a China continental, 175. Há duas décadas, quando o levantamento começou, a ex-colônia britânica recém-entregue à China ocupava a 18ª posição; há apenas dois anos, antes da Lei de Segurança Nacional, a 80ª. Sobre o assunto, vale ler o que publicamos na semana passada.

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Zheng He foi um grande explorador chinês do século XV. Sob seu comando, o império da China chegou a praticamente todos os cantos do mundo. Esta seção é inspirada nele e te convida a explorar ainda mais a China.

Curso: que consequências socioambientais geram demanda chinesa para os maiores países produtores de alimentos, como o Brasil? O curso da CLACSO “Soberania Alimentar no Sul Global” está com inscrições abertas para discutir justamente isso. Inscreva-se.

Arte urbana: a NeoCha publicou uma matéria contando a história do grafite de caracteres em mandarim. Tem várias fotos imperdíveis.

Basquete: a SupChina resumiu a trajetória vitoriosa do Liaoning Flying Leopards, que venceram seu segundo título da liga chinesa no final de abril em uma campanha quase impecável.

Nada de mal assombrado: fotos de lugares abandonados na China e em outros países da Ásia são uma especialidade de Greg Abandoned, assunto de uma matéria do Radii China.

Fazendo história: a Art News publicou uma matéria sobre a visita de Andy Warhol à China de Mao, explicando um pouco do processo que levou à criação da famosa imagem estilizada do líder chinês — que faz 50 anos em 2022.

Bom humor: japoneses em lockdown em Shanghai postam imagens de filmes do Estúdio Ghibli para relatarem como está sendo sua experiência na cidade.

Bora exportar: a APEX atualizou seus painéis de inteligência comercial, entre eles o Mapa de oportunidades para exportações brasileiras na China, individualizando informações sobre províncias e cidades. A ferramenta é gratuita.

Imagem de fundo vermelho com texto em branco. Caracteres chineses cujo pinyin é 举目无亲 (jǔ mù wú qīn).
举目无亲 (jǔ mù wú qīn): ser um estranho em terra estrangeira.

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